domingo, 1 de março de 2020

Porque cansei da rede social.



No final do ano fará 8 anos que estou na rede social. Faz uns meses que tenho pensado em sair. Tenho pensado muito nisso. Refletido sobre as razões de ainda estar nela e como ela interfere na minha vida. É certo, conheci diversas pessoas através dela, lugares e tive acesso a muita informação e conhecimento. Ajudei a mobilizar pessoas, colaborei para construir eventos, organizações, participei de debates, fiz e desfiz amizades. Pessoas que conheci nos lugares mais distantes do país, hoje mantenho contato com elas apenas pela rede social.
Três questões deverão nortear essa reflexão: como era a minha vida (política) antes da rede social? Quais eram as minhas expectativas em relação a ela? E quais os limites que tenho notado e que me incomodam? 
Devo dizer que sempre fui resistente à tecnologia. Menos por razões ideológicas que materiais e técnicas mesmo. O primeiro computador em casa apareceu apenas em 2003, quando eu já tinha 28 anos e lecionava na rede pública. Internet fui conhecer na faculdade no ano 2000, utilizando na casa de um colega que entendia do assunto e depois no laboratório de informática. Meu primeiro celular veio apenas em 2004, quando ganhei um nextel da Secretaria do Trabalho em função do meu cargo. O primeiro que comprei foi em 2011 por causa de trabalho também e desde então é que faço uso regular. Tecnologia nunca me deslumbrou. Nunca vi essas coisas como símbolos de status. Até hoje pouco entendo e não me seduz. Não tenho muita paciência pra equipamentos eletrônicos e nem jeito pra lidar com coisas frágeis. Sou muito desatento, desleixado, afoito e desinteressado por novidades tecnológicas. Celulares e notebooks são incontáveis os que já quebrei por impaciência ou descuido - mais por impaciência. 

Quando comecei a escrever esse blog, há dez anos, ainda não tinha rede social. Lembro do meu irmão falando sobre Orkut e Fotolog, lá pelas bandas de 2005, 06 e 07. Entrava por um ouvido e saía pelo outro, nunca tive o menor interesse em saber do que se tratava. A rede social entrou na minha vida quando tive que voltar à casa dos meus pais, no final de 2012. Uma amiga de outra cidade que lia meu blog insistia pra que eu aderisse. Diante do desgosto, da solidão e do tédio, após ouvi-la e outros amigos, decidi experimentar. Confesso que não tinha qualquer expectativa quando entrei, mas, logo vieram algumas boas surpresas, na medida em que pude reencontrar velhos amigos e conhecidos e, a seguir, ter contato com novas pessoas interessantes. Ainda assim, segui com o blog e a rede social ajudou a ampliar o seu alcance. 

Logo no ano seguinte veio a onda de 2013. Eu já era militante político, mas, me surpreendi com a potencialização das manifestações nas redes sociais. Foi interessante e surpreendente ver pessoas de diversos locais no país compartilhando as mesmas ideias, expectativas e ações. Acompanhar ações em tempo real, sem o filtro da grande mídia. Ver surgir "novos movimentos", "coletivos", "lideranças", "ativistas" e "influencers" de todo o tipo - seja lá o que isso quer dizer. Ver como as velhas organizações utilizavam, se adaptavam e disputavam esse espaço. 

Do ponto de vista político, foi uma experiência e tanto - positiva e negativa. Não tenho a pretensão de fazer qualquer julgamento ou análise, me falta tempo, meios e interesse. Se trata de mera reflexão sobre a minha experiência passados todos esses anos. Logo nos primeiros anos - até 2014 -, havia uma certa inocência, digo, apenas da minha parte em relação a rede social. Algum idealismo e muita disposição em utilizar essa ferramenta para meus próprios fins, como militante comunista ligado a movimentos populares. Via a rede social, de certo modo, como um canal de televisão 24 horas que me permitia alcançar um número inimaginável de pessoas. Me recordo da "primavera árabe" e, sobretudo, do caso Neda no Irã em 2009.


Sou do tempo de reunião política no diretório do partido, no centro acadêmico da faculdade ou na associação de moradores do bairro. Reunião que mobilizava, se muito, algumas dezenas de pessoas. Atividade muitas vezes cansativa, desgastante e nem sempre produtiva. Dependendo do local e da reunião, já se sabia quem seria o protagonista e qual o objetivo real, dissimulado por detrás do anunciado. A rede social, naquele momento, para mim veio como um meio de quebrar isso, ou de pelo menos ajudar a superar, trazendo novos interlocutores e te permitindo falar e ampliar o debate. 

Depois de 2014 veio o choque de realidade e a crise - o desencanto era apenas questão de tempo. Até então, a rede social era uma possibilidade - talvez a maior de todas - de superar - ou abalar - a velha política de cima pra baixo, das lideranças ad eternum distante das massas e inacessível ao sujeito médio. A rede social foi a oportunidade de colocar, por exemplo, o nanico Partido da Causa Operária todos os dias na sua casa. Um partido que a imensa maioria das pessoas só tinha acesso a cada 2 ou 4 anos, no período eleitoral, apenas por uns poucos segundos, até de forma caricata, na televisão. Uma legenda conhecida somente entre estudantes de universidades federais, militantes da esquerda e trabalhadores dos correios. A rede social ampliou o espaço da Causa Operária e das suas publicações, intelectuais, dirigentes, militantes e ações. Fez isso com diversas outras organizações políticas dos trabalhadores e movimentos populares e sociais. Por isso, por alguns momentos pensei que seria inevitável, questão de pouquíssimo tempo pra esquerda em bloco, em torno de uma pauta mínima, atropelar as antigas raposas dos velhos partidos herdeiros da tradição mais arcaica e sinistra da nossa história política. Pensei que o velho Sr. Burns e o Joe Quimby seriam engolidos antes mesmo de perceberem o que crescia debaixo dos seus narizes caídos. Era chegado o momento dos "sem voz" no cenário político dialogarem com as massas cotidianamente, enquanto os velhos do PMDB, do DEM e do PSDB seguiam onde sempre estiveram, com os seus espaços garantidos nas tribunas e nas grandes mídias. 

Até que veio 2014 e as eleições. Esse foi o divisor de águas. O que acabou com as ilusões e mostrou os limites da esquerda e da rede social. Na verdade, mostrou apenas os limites da esquerda no que diz respeito a utilização da rede e a minha ilusão em relação a ambos. Não houve unificação entre as esquerdas e tampouco expressiva alteração no interior das legendas. Digo, no sentido de renovação dos quadros políticos e da participação efetiva em espaços institucionais de disputa política. Quais partidos efetivamente, do amplo espectro da esquerda, ampliaram os seus espaços e renovaram os seus quadros? Repito, isso não é um estudo, é só uma reflexão. Nesse meio tempo, estive no PCO e no PCB. Vi muita gente ir e vir nessas legendas, sem sequer arranhar o núcleo duro das mesmas e as suas estruturas. As burocracias e os carreiristas, tal qual em diversos sindicatos, seguem ocupando as cúpulas como sempre estiveram. Aumentou a militância e os coletivos ou frentes de luta? Em novos espaços (locais) ou nos de sempre? Não seria, afinal, um movimento natural próprio das crises institucionais, tanto econômicas quanto políticas e sociais? De fato, hoje existem canais de TV nas redes, rádios, entre outros meios de comunicação de longo alcance - há até os militantes "subcelebridades". No entanto, por que isso não renova ou revigora essas forças políticas, no sentido de fortalecer a classe trabalhadora e tomar espaços da direita nas estruturas de poder? Diante de toda essa parafernália tecnológica e a exposição virtual, houve aumento de diretórios, candidatos, votos? 

É certo, alguns dirão que suas estratégias são outras, nem vou entrar nessa discussão, pois, isso não tem inserção na realidade, é sem fundamento prático, debate para e entre convertidos que só tem lugar na cartilha e no culto. Ao longo desses anos, estive em duas legendas e incontáveis favelas, comunidades e ocupações e em nenhuma delas os encontrei. Os vi e ouvi na UFRN, na UNIFESP, na USP, na UFRJ e em diversas manifestações em que apareciam como figurantes, sempre a reboque dos acontecimentos e na defensiva. 

Apesar desse quadro, penso que o PSOL seja a legenda que mais se fortaleceu, ampliando a sua base eleitoral e institucional. Projetou novos quadros e lideranças, ampliou a militância e as suas frentes de luta, coletivos e tendências. O PSTU, apesar da fratura, não perdeu aquilo que conquistou nessa onda - pelo menos não no RN, quando fez uma vereadora com votação tão expressiva que colocou mais dois vereadores da coligação na casa. Segue forte junto aos trabalhadores da saúde e da educação no Estado, bastante atuante e combativo. O PCR é uma força política expressiva no nordeste, controlando o movimento estudantil secundarista e o movimento popular de luta por moradia através do MLB. Conheci-os em Natal e na Bahia e fazem um trabalho de organização popular admirável. Agora construíram a Unidade Popular pelo Socialismo.

Penso que o grande derrotado é o maior de todos, o PT. Desde Zé Dirceu, a despeito das eleições de Lula e Dilma, de Haddad e uma ou outra figura expressiva - não que seja novidade ou renovação - no nordeste, o partido pouco se renovou e vem perdendo gradativamente de forma melancólica - e até vergonhosa - várias figuras emblemáticas - outras nem tanto. Não vou falar dos presos, cassados ou expulsos porque é público e notório. Tanto pior são os que simplesmente se retiraram de forma mais ou menos discreta, aqueles que perderam seus mandatos nas urnas e os que romperam com o partido. Não sei se o taumaturgo consegue ou mesmo quer recolher os cacos, se é possível colar tudo novamente. Também não sei o que virá ou sobrará quando ele partir, ao som de Blowing in the wind, com Haddad tocando e Suplicy cantando. 

Antes da rede social a minha militância era no bairro - no diretório do PT e nas comunidades na luta por moradia. Depois, na faculdade, com os sociólogos, ajudei a construir 3 governos do PT - Elói Pietá em Guarulhos, Marta Suplicy em São Paulo e Lindbergh Farias em Nova Iguaçu. Como havia sido punk e do movimento estudantil, nas escolas que lecionei ajudava a organizar os estudantes incentivando-os a construir Grêmios. Minha experiência em movimentos populares me ajudou a trabalhar em políticas públicas em diversas comunidades, sobretudo em empreendimentos habitacionais e de urbanização. Assim, ajudei a criar algumas associações de moradores e outras organizações de representação comunitária e luta. Fiz isso em Cubatão, Bertioga, São Vicente, São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Bonito (BA). 

Sou do tempo em que trabalho político de base, de agitação e propaganda, mobilização e organização era com o pé no chão e olho no olho. No gogó e no corpo a corpo. O resultado, se viesse, demandava um longo processo de construção coletiva - debate, formação, avanços, recuos, conflitos e contradições. De todo modo, o caráter pedagógico inerente ao processo já rendia frutos pra todos - forjava o militante e fortalecia os valores democráticos e o espírito coletivo e de luta das massas. Foi o que eu aprendi nos dias pré rede social. Você mensurava isso tudo por meio de listas de presença, atas de reuniões, organizações construídas, atos políticos realizados, panfletos ou jornais redigidos e distribuídos. Podia se avaliar o resultado do trabalho nos debates e ações políticas, conquistas do movimento, força política reconhecida pelo poder público ou outros interlocutores. Hoje alguns contam "visualizações", "compartilhamentos" e "likes". É a revoluxou da "sociedade do espetáculo". Eu sei o nome das organizações e lideranças que formei e me formei, não são muitas como as "views" dos novos quadros virtuais, mas, sei o que elas são e poderão vir a ser. Sei o que através desse trabalho elas conquistaram e poderão conquistar. 

Não tenho mais ilusões quanto as redes sociais. As últimas se foram em 2018. Foram incontáveis e retumbantes derrotas e retrocessos. Muito menos em relação às organizações da esquerda - porque essa crítica é a elas, não à indivíduos. Construir a unidade, mobilizar, formar, organizar, radicalizar as lutas dos trabalhadores, entre outras coisas, são obrigações das organizações, do conjunto delas, não apenas desta ou daquela. Além de não ampliar os seus espaços de poder, a esquerda perdeu pra direita ainda aquele espaço que historicamente era seu, conquistado com muita luta e sangue: as ruas. Não tenho certeza, mas, penso que perdeu esse espaço - virtual - aqui também, antes até mesmo de perder as ruas. Aliás, uma derrota levou à outra. A esperada e "certa" unidade de esquerda não veio. O bloco não veio nas eleições, no golpe, na prisão do líder, na reforma trabalhista, da previdência, na PEC do fim do mundo, nas eleições seguintes, na fraude eleitoral e nem em defesa do meio ambiente, da educação, das estatais ou da democracia e estado de bem estar social mínimo. Não veio o bloco e até a greve geral que em 2015 era palavra de ordem, se calou. 

As rádios seguem falando, os canais virtuais analisando, denunciando e "formando" "militantes" e "simpatizantes". Formaram tantos, onde estão eles? É verdade, todo dia aparece um "novo" virtual e um "canal" novo - não é por falta de informação e formação que não se constrói coisa alguma nas ruas. Enfim, será possível formar um militante sem debate e luta? Se for, quantos vídeos formam um militante? E formam pra quê, pra disputar a "hegemonia" com a direita nas redes sociais? Disputando o quê ou quem com a direita, as massas? Disputa as massas sem dialogar com elas, sem inserção nas bases populares e conhecê-las, senão apenas por meio de estudos e pesquisas? Certa vez um desses "quadros" virtuais disse que um trabalhador da construção civil comentou no seu vídeo, dizendo que assistia sempre e gostava. E bastou pro militante dizer que se sentia realizado e que seguiria na sua cruzada abnegada e revolucionária de formar as massas - seria cômico, se não fosse trágico. Aposto que o companheiro pedreiro hoje já deve ter lido o Manifesto Comunista e Que fazer?, mobilizado o canteiro de obras e levantado as massas proletárias suburbanas. Afinal, quem disse que precisa de gente e ente pra formar, mobilizar e organizar? Perceberam como as organizações, agitações e o quantum de militantes e simpatizantes cresce na mesma proporção de influencers, canais, views, likes e compartilhamentos de cada vídeo, podcast e notas ou textos fartamente produzidos como soja para um público cada dia mais ávido por conhecimento e informações tanto quanto dispõe de tempo e meios para isso? 

Faz muitos anos que tenho notado isso - refletido só um pouco. Escrevo agora porque precisava regurgitar o que mal está sendo digerido. Não tenho mais ânimo pra rede social. Só vejo isso e isso e mais isso desde 2015, mais ou menos. A conjuntura só tem piorado em ritmo frenético de forma sistemática, ano após ano, dia após dia e a esquerda nas redes sociais segue na mesma toada - a reboque, batendo cabeça, desorientada, repetindo a mesma ladainha e com as mesmas caras. Há pouco debate e nenhum diálogo. Quase nenhuma agitação, mobilização e luta. O abismo entre as massas é cada dia mais profundo e largo. A inépcia da esquerda em utilizar esse meio levou a derrota aqui e nas ruas. Enquanto os calorosos debates sobre Estalinismo versus Trotsquismo seguem entre os lúcidos, coerentes e contundentes camaradas, a direita segue manipulando e conduzindo com os seus slogans rasos e as fake news mais esdrúxulas. Uns lamentam, outros esperneiam, mas, o estrago já está feito ainda quando se desmonta a farsa, e as instituições seguem "funcionando normalmente". Enquanto os camaradas debocham do crente na rede social, o pastor demoniza o socialismo de forma eficaz na igreja sem nem saber quem foi Prestes ou Florestan. Depois do sermão eles conversam sobre o preço do frango e a enchente na rua. Buscam meios de se ajudarem e superarem esses dilemas do seu dia a dia. Segue o debate sobre Losurdo contra Zizek, e quem não tem frango que coma ovo. Não tem lugar pro preço do pão, do aluguel ou o material escolar no macro debate ortodoxo sobre a "luta de classes" dos camaradas. Há muito debate e nenhum diálogo, é cada um no seu quadrado e falando consigo mesmo, apenas pros seus convertidos ou neófitos. E o eco é cada vez menor, conforme a caverna se estreita. Cansei disso, é só um labirinto de espelhos. Farto de andar em círculos e ver o mesmo reflexo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

"Estado policial", hegemonia e tradição autoritária.

É bastante comum, quando falamos em "Estado Policial", as pessoas logo imaginarem aparelhos repressivos como a Gestapo (nazista), a GPU/NKVD soviética ou os DEOPS e DOPS daqui. Grosso modo, tratam-se de aparelhos repressivos do Estado, órgãos responsáveis pela vigilância, controle e repressão social - trabalhadores, sindicatos, opositores políticos e sociais. Muitos desses órgãos agiam à margem da lei, organizando grupos de extermínio, sabotagem e terrorismo de Estado. 

A Gestapo nazista era responsável pela "segurança interna" do Reich. Promovia investigações oficiais e extra-oficiais até dentro do Partido Nacional-Socialista. Foi protagonista na conspiração da "Noite das Facas Longas" em 1934 - expurgo nazista -, no apoio aos Einsatzgruppen na frente oriental e na caça à opositores nos diversos países ocupados pelo Reich. Os homens da Gestapo eram especialistas em ações de vigilância, espionagem, sabotagem, tortura, terrorismo e contra-terrorismo. 

A GPU/NKVD foi o alicerce do regime Stalinista na URSS. Responsável pela repressão aos opositores reais e potenciais - militares, políticos, intelectuais, trabalhadores, artistas -, tanto na URSS quanto no exterior, encarcerando e exterminando em profusão e escala. No Brasil, o DEOPS foi o responsável pela brutal repressão aos trabalhadores, sindicatos, imprensa operária e partidos políticos, sobretudo o PCB durante a década de 20. Na década seguinte, no contexto pós-revolução de 30 e 32, a Insurreição Comunista de 35, o movimento Integralista e a criação da Ação Nacional Libertadora (ANL, bloco suprapartidário contra a ascensão do fascismo no Brasil), após a anistia de mais de 400 presos políticos em meados de 37 (Macedada), o militar (integralista) Olímpio Mourão Filho com apoio do alto comando das Forças Armadas e do DEOPS cria o "Plano Coen" - suposto plano de conspiração comunista para tomar o poder no país -, justificativa para o golpe de Vargas e a instauração da ditadura do "Estado Novo".  Já o DOPS da ditadura civil-militar de 64, foi o responsável pela repressão, torturas, extermínio e desaparecimento de opositores, bem como pela articulação da Oban - Operação Bandeirantes, comando de caça, extermínio e desaparecimento de opositores do regime financiada por empresários. Grosso modo, foram essas as principais organizações que caracterizam esses regimes autoritários e compõe o imaginário  acerca do que vêm a ser um "estado policial". 

Eu vou por outro caminho, dentro dos parâmetros desse meio - que não é um espaço acadêmico - e dos objetivos a que essas linhas se propõe, isto é, dialogar com o público leigo, suscitar uma reflexão e instigar a pesquisa e o aprofundamento sobre o assunto. Assim, cabe a pergunta: é possível existir um "estado policial" numa democracia? Caso seja, como ele se organiza, funciona e se caracteriza? 

Na Alemanha nazista da Gestapo, o estado policial precede o III Reich de Hitler. A tradição militar da velha Prússia vinha desde a época do II Reich de Bismarck e do Kaiser Guilherme II, persistindo durante toda a República de Weimar que sucedeu a monarquia. O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nazista) é o produto acabado dessa sociedade militarizada. Não fosse essa arraigada tradição militar, os nazistas seriam apenas um grupo radical de extrema-direita com ideias exóticas sobre arianismo, antissemitismo e anticomunismo. Ocorre que o programa nazista, fundado nessas premissas, apelava ainda ao discurso ultranacionalista e radicalmente contrário à República de Weimar e ao Tratado de Versalhes. Cortejava os militares e veteranos da Grande Guerra - Hitler, Göering, Hess, Epp, Röhm, Keitel, Jodl, Döenitz, Sepp Dietrich, dentre diversos outros da cúpula do Reich eram veteranos. 

Após a tentativa mal sucedida do golpe em Munique em 1923, o partido nazista resolve ampliar e fortalecer as suas milícias - forças paramilitares do partido. Os militares veteranos assumem a tarefa de criar as milícias nazistas, inspirados pelas forças fascistas italianas sob o comando do jornalista e também veterano de guerra Benito Mussolini - Il Duce. Quando Hitler se torna chanceler em 1933 as milícias nazistas - SA, SS e a Juventude Hitlerista - já estão consolidadas e são uma realidade no partido e no cenário político alemão. Após a morte do presidente Hindenburg em 1934, dá-se a militarização acelerada da sociedade com as leis de Nuremberg, o rearmamento, o serviço militar obrigatório e a expansão da Juventude Hitlerista nos ambientes escolares. 

A época de Vargas - sobretudo após o Estado Novo - o nazifascismo é a alternativa dada pelo capital e a burguesia à ameaça bolchevique e ascensão da classe trabalhadora. No Brasil, o protagonismo dos militares na política vêm desde a República e, mesmo após o fim da "república da espada", eles continuaram por meio de clubes militares e dos gabinetes destinados às Forças Armadas a incidir sobre a vida política do país. Após o governo do marechal Hermes da Fonseca e a crise econômica gerada pelo fim da Grande Guerra, as agitações políticas e sociais, o avanço das organizações e lutas da classe trabalhadora culminam com o "Tenentismo". O Tenentismo foi um movimento militar de oficiais de baixa patente, insatisfeitos com a crise - política, social e econômica - em que agonizava a "República Velha". Essa nova geração de militares, formada na Escola Militar sob influência da "missão francesa", era a elite política-militar do país, o "soldado cidadão", conforme a tradição francesa. Por outro lado, eram desprestigiados pelos velhos oficiais de alta patente, herdeiros da República e das lutas que a consolidaram até a primeira década do século XX. Contudo, mais próximos da vida política e social do país, os Tenentes conquistaram a simpatia de amplos setores da sociedade e constituíram a base de um movimento organizado como resposta da burguesia e classe média urbanas à ascensão do proletariado e a crise das oligarquias.


Toda essa agitação política e social no país, ao longo de toda a República Velha, com protagonismo dos militares, favorece a naturalização na sociedade da militarização da política. Ao mesmo tempo em que promove a imagem de salvadores da pátria, moralizadores da política, guardiães das instituições e da ordem, etc. Esse é o ponto. Não há "estado policial" sem uma forte adesão popular, sem sólidas bases na sociedade e a construção da militarização dá-se à partir do protagonismo dos militares na vida política do país. Através do controle e da articulação de diversos aparelhos ideológicos de formação social (mídias, escolas, igrejas, parlamento, partidos, sindicatos, judiciário), constrói-se a hegemonia do militarismo na sociedade e do "estado policial". Foi assim com o fascismo, o nazismo, o stalinismo, Vargas e a ditadura de 64 - em todos esses regimes e épocas, a hegemonia deu-se por meio de forte aparato de propaganda e formação. 

A eleição do atual presidente do Brasil é o ápice de um projeto de militarização da sociedade que sempre esteve presente desde a República. Ora avançando, ora recuando, conforme as exigências do capitalismo e as pressões internas e externas condicionadas pelos seus estágios e crises, na tradição da "dependência" e do "capitalismo periférico". O processo de militarização da sociedade brasileira, a despeito dos diversos avanços democráticos, assenta-se na Anistia de 79, momento em que os terroristas de Estado que torturaram, executaram e desapareceram com civis ficaram impunes, não foram processados, julgados e penalizados. Muito pelo contrário, diversos ainda foram condecorados, promovidos e passaram à vida pública, construindo prósperas carreiras políticas na área de segurança pública e na iniciativa privada. 

A esse respeito, a lista é imensa, portanto, destaco apenas os mais notórios. No Brasil, o coronel Erasmo Dias e o general Sérvulo da Mota Lima, após serviços prestados ao Exército, foram agraciados com a Secretaria de Segurança de São Paulo. Erasmo Dias foi ainda consultor de diversas empresas privadas de segurança, como a Protege. O general Sérvulo, notório fascista, era favorável a pena de morte, encarceramento em massa e a castração de pobres como política de controle de natalidade. O general Viana Moog também foi premiado com a Secretaria de Segurança paulista, por serviços prestados no combate a Guerrilha do Araguaia. 

Assim como Klaus Barbie (Gestapo), o "carniceiro de Lyon", por exemplo, que foi consultor militar na Bolívia (entre 62 a 82). Consta que Barbie colaborou com a CIA - recrutado pelos EUA como espião após a II Guerra - para a captura de Che Guevara naquele país. Walter Rauff, por sua vez, foi da SS e assessor de Heydrich no Serviço de Segurança (SD). Foi ainda responsável por um Einsatzkommando (grupo móvel de extermínio de opositores e judeus) na África. Após a guerra, colaborou como espião para a Alemanha Ocidental e o Mossad.  No Chile, ajudou Pinochet a organizar a DINA (polícia secreta) e foi protegido pela ditadura chilena até a sua morte em 1984. Alois Brunner foi também da SS, assistente de Eichmann e comandante de campo de internação na França, responsável pela deportação e execução de dezenas de milhares de prisioneiros. Após a guerra, fugiu para o Oriente Médio e viveu no Egito como traficante de armas até conseguir asilo na Síria. Foi consultor do partido Baath, colaborando no treinamento em espionagem e técnicas de interrogatório e tortura. Viveu na Síria desde meados dos anos 60 e não se sabe ao certo quando morreu, apenas que viveu protegido sob o regime Assad. 

Ao lado da impunidade e do acesso à vida pública e política na democracia, amplos setores da mídia alinhados com o arbítrio e credores dos militares, cumpriam a importante tarefa de promover o revisionismo histórico (suavizar a ditadura) e cultuar a imagem das forças armadas e policiais. Assim, desde a década de 80 e até agora, a mídia brasileira é prolífica na produção do dito "jornalismo policial".  Do periódico icônico Notícias Populares aos programas de rádio Gil Gomes e Afanásio Jázadji, passando aos televisivos O povo na TV e Aqui Agora, até chegarmos ao Brasil Urgente, Cidade Alerta, Na rota do crime, Operação Policial, Balanço Geral, Operação de risco, entre os diversos depravados e sanguinários das TVs locais, cumprindo a missão de cultuar as forças policiais, a repressão e o arbítrio

Bolsonaro não chegou só a presidência. Também a onda ultrarreacionária não é um fenômeno espontâneo das massas que surgiu da crise política pós 2013 e reeleição do PT em 2014. Tal qual o neoliberalismo não é um projeto do Temer-MDB, Aécio-PSDB, surgindo pós 2016. As bases desse projeto se encontram lá atras, na crise do capital em 2008 e a sanha autoritária sempre esteve aí, latente, mais ou menos dissimulada, sistematicamente destilando o seu ódio à democracia, direitos humanos, sociais, movimentos populares, "minorias", pobres - as classes perigosas. Ao mesmo tempo em que cultua as forças militares e policiais, promovendo a imagem do policial à figura dotada de super poderes, qualidades e virtudes superiores aos demais - e inferiores - da sociedade. Não bastam as armas e a lei ao seu lado, é preciso a mídia para assegurar junto à opinião pública a sua autoridade e superioridade - legal, material, ética e moral -, que por sua vez, demandam obediência e respeito. 

O chamado "jornalismo policial" é essencial pro projeto de militarização da sociedade e a consolidação do "estado policial". Ele é que funda a base de sustentação ideológica desse modelo de sociedade. Por isso, não basta promover a glorificação do policial/militar, é preciso demonizar os seus inimigos, quais sejam, os marginais - aqueles que se situam as margens do direito e desamparados pelas políticas públicas e sociais, destituídos da cidadania. Aqueles que questionam essa ordem e confrontam o status quo. 

No "estado policial", o agente policial/militar é onipotente, onipresente e onisciente. Por isso ele é chamado a desempenhar as funções dos civis e políticos - o contrário é inconcebível! Assim, o policial é um sujeito polivalente, capaz de resolver questões de segurança, assistência social, educação, saúde e até previdenciárias. Nesses programas, num quadro, vê-se o corajoso policial caçando traficantes na favela, no outro, vemos o altruísta policial ajudando uma transeunte a dar à luz na viatura. Na outra cena, vemos os nossos valentes e abnegados defendendo o direito do cidadão de bem de ir e vir, massacrando a manifestação de estudantes que reivindicam o mesmo direito através do transporte público! Por fim, chegamos ao ápice da sanha repressora e sanguinária com a ocupação de comunidades por forças policiais e militares, com o pacote de terror completo: intimidações, torturas, abusos de autoridade, estupros, extorsões, desaparecimentos e execuções sumárias. Tudo sistematicamente justificado, minimizado e apoiado pelos diversos segmentos midiáticos. Aquilo que não é possível encobrir, minimiza-se sob a retórica do "caso isolado" para não macular a instituição, como se a mesma não respondesse pelos indivíduos que ela forma, treina e a representa. 

Enfim, o "estado policial" na versão brasileira não é a completa antítese do estado democrático de direito. Aqui, ele não começa quando o outro acaba. No Brasil, desde a república oligárquica que ele paira sobre a sociedade, conforme os estágios do capitalismo e a correlação de forças políticas e sociais. O "estado policial" é o "fiel da balança" no jogo da burguesia com a classe trabalhadora, e a sua presença ostensiva na política desde tempos remotos, com a sistemática construção da hegemonia pelos aparelhos ideológicos, assegura à sua naturalização e a adesão da sociedade. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Memórias da miséria

Segunda estive na casa que nasci, cresci e passei trinta anos da minha vida. Fazia dez anos que não colocava os pés ali. As casas dos anos 40, 50 e 60, quase todas desapareceram. Algumas resistem em ruínas, como a minha. Senti uma melancolia profunda que não sei explicar. Não tenho apego à bens materiais. Também não tenho saudades daquele bairro ou da minha infância e adolescência. Muito menos das pessoas. Ao contrário, tenho péssimas recordações de tudo por lá. 

Ali a época da inocência passou rápido. Você precisa se preparar pra realidade rápido, digo, o mundo dos adultos - exploração, violência, abusos, excessos, assédio, instabilidade, baixezas e vilanias de todo o tipo. Havia uns vizinhos desafetos da minha mãe. O filho deles estudava conosco - tinha a idade do meu irmão mais novo. Assim, éramos colegas de escola e de rua, brincávamos juntos. Lembro que os pais dele ora nos desprezavam, ora nos maltratavam. Sempre de maneira mais ou menos sutil, maliciosa, fazendo provocações e piadas que a nossa inocência não nos permitia compreender. Éramos motivo de chacota e/ou hostilidades por causa da antipatia entre adultos. 

Havia um menino que ia sempre em casa - era filho de uma amiga da minha mãe. Devia ser uns dois anos mais velho que eu. Sempre brincávamos de bonecos - super-heróis da Marvel de plástico. Eu tinha muitos, vendia-se em sacos com cinco ou mais bonecos. Ele sempre furtava alguns e eu nem me dava conta. Um dia a mãe dele foi em casa e o fez devolver tudo debaixo de pancada. Não entendi nada na hora, fiquei até com pena dele. Depois passei a reproduzir e criei o hábito de furtar coisas. Me tornei um adolescente cleptomaníaco - furtava tudo, sem qualquer critério ou razão. Um dia fiz isso numa loja da fotóptica com a minha mãe - peguei um filme de máquina fotográfica, tinha 14 anos à época. O vendedor viu e me entregou pra minha mãe. Ela ficou envergonhada e enfurecida. Apanhei como nunca antes na vida - fiquei com marcas, arranhões, hematomas pelo corpo todo. 

Em casa, era muito comum a violência como recurso pedagógico - espancamento, ameaças, ofensas, gritos. Violência física e psicológica eram recursos naturalizados pela sociedade e sempre utilizados. Entre amigos, todos relatavam essas situações, muitas vezes eu mesmo as presenciei.

A minha mãe era jovem - aos 24 tinha dois filhos. Meu pai era ausente, vivia pra trabalhar. Ela ressentia-se da vida doméstica e por viver na cidade grande, sozinha, afastada da sua família e convívio. Na infância, ela relatou certa vez que seu pai era um homem muito severo e bruto - sempre batia em todos; filhos, companheira, animais. Sua mãe, para conter os 6 filhos, também não abria mão da pedagogia da força e do medo. Enfim, nem preciso dizer que ela reproduzia isso em casa,  acrescida à frustração pela vida doméstica ainda jovem. Foi isso tudo que aprendi naquela casa naquele bairro.

Havia uns caras que moravam ali próximo, coisa de dez anos mais velhos que eu - adolescentes, enquanto eu ainda era criança. Recordo que enquanto brincávamos, às vezes, eles vinham conversar com a gente, provocar e tinha uns dois ou três que sempre comentavam comigo: "você tem uma mãe muito boa". "Sua mãe é muito boa, né?" Ingênuo, eu confirmava. Depois de um tempo, conforme a expressão debochada e os olhares maliciosos, fui entendendo do que se tratava. Lembro como se fosse ontem a raiva que sentia. Comentei com meu pai, mas, ele não deu muito bola e eu fiquei com alguma raiva dele também. 

Aos 19 anos eu lutava boxe. Uma vez um homem 20 anos mais velho que eu, mais ou menos, falou uma bobagens pra minha mãe na rua. Esse infeliz sofreu todo o meu acúmulo de raiva contida. Peguei ele sem aviso na porta do seu local de trabalho. Bati tanto que ele ficou desacordado e foi parar no PS do bairro. Me arrependo profundamente disso. 

A minha adolescência foi de muita violência e pequenos delitos. As brigas na escola, desde a infância eram constantes, reproduzindo o padrão da sociedade e o ambiente doméstico. Os delitos iam desde furtos no supermercado - chocolate, doces, bolachas -, à venda da rua - refrigerantes, doces, cigarros, picolés. Na escola, aos 12/13 anos, participava de uma espécie de quadrilha com uns colegas pra furtar nas salas de aula. Íamos sempre em 3: um ficava na porta vigiando e os outros vasculhavam estojos, carteiras e mochilas pra pegar o que pudéssemos. Sempre subíamos pras salas na hora do intervalo, nunca furtávamos por razões óbvias a nossa própria sala. Não sei como, nunca fomos pegos, jamais pagamos por isso. 

As drogas vieram aos 13, o álcool e o tabaco por volta dos 11. Sou da geração em que o álcool consumido em casa pelos adultos era compartilhado - "com moderação" - com as crianças. Mas os porres começaram aos 11 na escola e nas festinhas do bairro. Tinha um cara na minha rua, mudou-se pra lá quando eu tinha 13 anos. Meu irmão brincava de Comandos em Ação com o filho dele. Ele era jovem, devia ter uns 30 e poucos anos, o filho 11. Era representante comercial da Kitano e da Antárctica. Festeiro, as suas festas eram memoráveis - muito churrasco, salgados, doces e bebidas alcoólicas, sobretudo cerveja, até o último homem cair. Ele era muito simpático, boa praça, alto astral. Eu, meu irmão e mais uns colegas da rua éramos sempre muito bem vindos à sua casa. E ele não fazia cerimônias em compartilhar as bebidas conosco. Nas festas, a gente ficava lá num canto se embriagando e divertindo e sempre que ele passava o papo era: "Rubens, meia noite é dia?" E ele repetia rindo: "MEIA NOITE É DIA!" Voltei várias vezes carregado de festas na casa dele. Posso dizer que aprendi a beber igual "gente grande" na casa dele. Comecei a trabalhar com 15 anos, aí entrei de vez pro mundo dos "homens" e já tinha assunto de "adultos" pra conversar com ele, sempre acompanhados de muita cerveja. 

Hoje tenho consciência de que isso tudo prejudicou o meu processo de formação, em todos os aspectos - físicos, cognitivos, emocionais, morais. Isso, porém, não é um mea culpa, tampouco um julgamento ou linchamento de determinados indivíduos. Apenas não tenho mais ilusões quanto às pessoas e a nossa cultura, as relações sociais e o processo de formação dos sujeitos em dadas condições. Estou aqui pra arrefecer o fardo e remover máscaras, revirar a memória e expor a miséria e a chaga, mostrar que o que está aí hoje é resultado do que foi ontem. Aprendi a resolver tudo por meio da violência em casa e no bairro - na base do grito, do tapa, da ameaça e do medo. Que "se apanhar na rua apanhará em dobro em casa". A viver em excesso - abusar do álcool, cigarros, drogas, pois, a rotina de escassez nos impõe aproveitar as oportunidades. Descobri que o que importa é levar vantagem em tudo, "o mundo é dos espertos". Que a malícia é sabedoria, é saber dissimular as intenções e manipular as pessoas e situações. A lição é simples: direito é para os fracos, os fortes conquistam tudo por meio da força e malícia. E por fim, que as mulheres são criaturas fracas, inferiores e que necessitam de proteção em troca de submissão. Por isso "homem não chora", não demonstra sentimentos ou qualquer afeto e, o contrário é "afeminado", razão de chacota e desprezo. 

Talvez por isso não tenha nenhuma nostalgia por lá. Tenho poucos contatos daquela época, muito distantes, tanto quanto minha memória e consciência permitem. Alguns, soube que morreram, outros seguem sobrevivendo lá mesmo, acumulando dividas, bens, filhos, frustrações, levando uma vida medíocre e obtusa, arraigados aos seus preconceitos e ilusões. Vários, após uma vida errática e de diversas limitações e privações, alcançaram a promessa da prosperidade e da redenção pelas palavras de um "pastor" de ovelhas desgarradas e desvalidas, tanto quanto desnutrido e moribundo nas suas pretensões e potencialidades. Um deus à sua imagem e semelhança, cuja compaixão e amor não são irrestritos e incondicionais, mas de acordo com o seu mérito. Um deus que apenas pune de maneira indiscriminada todos aqueles que a ele não se submetem e/ou não tolera. Uma igreja que cumpre reforçar a sua visão reacionária de mundo, justificando as suas posturas e ideias machistas, misóginas, racistas, homofóbicas, violentas, antidemocráticas e antissociais através da bíblia. É triste ver a ruína de tudo - casa, bairro, pessoas, futuro. E é demasiada a melancolia e impotência.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Religião, crime e política.

Trabalhei em prisões em São Paulo entre 2009/10. No bairro que cresci na capital, tive muitos amigos e conhecidos presos. Foi por volta do inicio dos anos 90 que notei a virada no bairro e a presença ostensiva dos evangélicos. Os meninos iam pro tráfico, eram presos, voltavam evangélicos, depois de um tempo voltavam pro tráfico, mas, continuavam evangélicos. Nos presídios, descobri que há uma relação estreita entre a facção paulista e a igreja transnacional - negócios, evidente!

Dois legítimos produtos de exportação brasileiro. Nossos cartões de visita sobre o caráter brasileiro. É típico da cordialidade essa relação híbrida, em que dois tipos de energia distintos movem o sujeito - a fé cega e a violência. Operam sobre os indivíduos no âmbito das paixões, não na esfera da razão - esta é a sua racionalidade. O discurso (racional) de forte caráter emotivo apela pra ideia de identidade, escolhidos e guardiões de uma certa moralidade e ética em oposição aos pagãos. Ambos ambicionam o poder - de manipular pessoas, instituições e alcançar a hegemonia e o monopólio. Não é só lucro, é política - evidente que não estão dissociados, são complementares naquela fase do capitalismo descrita pelo Vladimir no inicio do século XX, todavia, o que está em jogo não é mais apenas o mercado da fé ou do tráfico, mas, o controle direto do Estado.

Não é de agora essa relação estreita entre crime organizado e conglomerados religiosos aqui no Brasil, como disse, eu mesmo sei disso desde a década passada - nas prisões - e vi a expansão nas comunidades periféricas nos anos 90. Dos "traficantes em Cristo" aos "PMs de Jesus" é um pulo, tá tudo dominado. Isso caracteriza um projeto político, construção da hegemonia, que carrega uma visão de mundo ambígua e ambivalente, anacrônica, autoritária e mafiosa. A máfia ítalo-americana era transnacional e possuía tentáculos na política, no mercado, na igreja e controlava tudo por meio da violência - intimidação, chantagem, extorsão, extermínio, corrupção, fraude, etc. É disso que estamos falando: crime organizado.

O sistema carcerário é uma máquina que envolve diversos profissionais e múltiplos saberes - saúde, psicologia, serviço social, direito, pedagogia, administração, militares, políticos, dentre outros. Assim, isso tudo aconteceu com a cumplicidade por omissão, negligência ou conveniência de amplos setores políticos e sociais. E não foi da noite para o dia, foi um processo lento e metódico. Isso não têm nada a ver com religião, espiritualidade, moral e elevação da consciência ou do caráter. É a completa obliteração do indivíduo, a depravação e perversão absoluta para fins econômicos e políticos.

É uma afronta à sociedade e aos valores primordiais da civilização conquistados através de décadas de lutas. Nós perdemos essa batalha e com ela perderemos tudo - porque eles não querem participar ou serem aceitos, eles querem tudo. Controlar tudo, subordinar tudo e todos e exterminar aquilo que é diverso ou contrário e consideram inferior ou desumano. Não há o que dialogar ou debater com isso porque por princípio eles repudiam o diálogo, o debate, a razão, o direito, a sociedade e o outro. Isso deve ser contido e combatido por todos os meios!


A intolerância e a violência às outras crenças, ideias, valores é patológica. A demonização do outro é a razão da desumanização. Os ataques são sistemáticos, brutais, deliberados, minimizados e tolerados pelo Estado. A violência construída sistematicamente no discurso de ódio permanente na pregação, se materializa na intolerância, no preconceito e na opressão contra mulheres, LGBTs, negros e outras religiões ou culturas. Isso precisa ser enquadrado e controlado rigorosamente - é inadmissível que se considere acima da sociedade, do Estado e dos indivíduos.

A retórica do ódio, do obscurantismo e do arbítrio dissimulada por detrás da liberdade religiosa é manipulada, dissimula o desprezo pelo direito, a razão, a sociedade, o Estado e a vida! É uma aberração e um caso não só de segurança nacional, mas, diante dessa esquizofrenia megalomaníaca, sobretudo de saúde pública. Esses terroristas - isso sim é terrorismo! - têm nome, sobrenome, face, CPF e aparecem na televisão todos os dias. Praticam diversos crimes tipificados no código penal de forma deliberada e compulsiva. São empresários, políticos, "pastores" ao mesmo tempo e, sobretudo, mafiosos o tempo todo. 



A relação estrutural entre mercado, religião, política e crime é intrínseca, promíscua, perversa e prolífica. Ela é o veneno da república e da democracia. Ela matou a democracia, talvez não sozinha, mas, corroeu-a pelas bases. A democracia, pelo menos essa nossa versão burlesca, foi incapaz de resistir a esse projeto. Talvez saia algo positivo disso: a constatação de que não será pelas vias democráticas que poderemos enfrentar e suplantar esse projeto arcaico, obscurantista e autoritário. Não sei como nem quando, não com essas organizações dos trabalhadores apáticas, indolentes, oportunistas e acovardadas. Enfim, era só isso mesmo....