domingo, 5 de junho de 2011

Iniciação



A rua começou pelo pixo. Foi por meio dele que eu conheci tudo. A noite, a cidade, drogas, policia, gangues, bandidos e o crime. Para mim isso começou aos treze anos, em 1988, por meio de um colega de classe na sétima serie que logo perdi o contato. Nessa época meu primo foi morar em casa e começamos a fumar maconha – eu, ele e meu irmão, entre outros moleques da rua. Meu primo se foi, depois foi preso e eu já estava introduzido no mundão. No inicio dos anos 90 o pixo tomou maiores proporções. Nessa época eu já trabalhava, portanto, tinha mais independência e autonomia. Comecei por influencia desse colega, gostei e nessa época descobri que haviam as gangues e as garotas que admiravam as peripécias dos pixadores. Era o que faltava. Ate essa época minhas peripécias – gangues, crimes, pixo, problemas com a lei – estavam circunscritas a vila. Quase tudo que fazia nesse sentido girava no entorno da escola, do quarteirão. Brigava, roubava, pixava, namorava, bebia, fumava, cheirava benzina, fumava maconha, tudo nesse entorno. Aos 15 ganhei a cidade.
Comecei a estudar a noite e tinha o meu próprio dinheiro. Ninguém me segurava. Bebia, fumava, usava drogas, cometia pequenos delitos – dos furtos no bairro passei para as pequenas contravenções -, pixava, tudo em excesso. Gastava em excesso. Nessa época sai do chão, preferia os “picos” – marquises, fachadas, sobrados, prédios e edifícios. Eles davam mais Ibope – fama, o combustível do pixador.
Descobri nessa época que o que sempre vai me derrubar é os excessos - a ousadia excessiva, a confiança excessiva, entre outros excessos. Quando fui pego fazia tempo que nem me dava mais o trabalho de sair à noite para pixar, de madrugada. Saia de dia mesmo e nem escolhia local ou dia da semana. Na cara dura! Fui pego assim, em um domingo na hora do almoço pixando um lugar que já havia pixado no mínimo outras dez vezes antes! Túnel da avenida Nove de Julho sob a avenida Paulista. Conforme trabalhasse na rua Estados Unidos, em diversas ocasiões ao passar por lá pela manhã via os funcionários da prefeitura limpando ele. Ato continuo: chegava no trabalho, assinava o ponto, saía, comprava um spray e enquanto os limpadores saiam pela Vai-Vai eu entrava pelo outro lado pixando. Fiz isso incontáveis vezes!
Coragem, criatividade, ousadia, iniciativa, espírito de liderança e equipe. Um pixador não sobrevive sem essas características. Duas situações que vivi demonstram isso. Avenida Paulista, Trianon, inicio de 1992. Eu, uma mochila, uma lata de spray prata metálico, final do dia. Já conhecia o prédio. Havia ido lá outras vezes como oficce-boy em um escritório. Estratégia: entro pela portaria e saio pela garagem. Parei no andar do escritório e subi os demais lances pela escada. Chegando lá em cima vi que tinha mais um lance de escadas que terminava em uma porta antes da saída para o terraço. Saquei que devia ser uma saleta do pessoal da manutenção ou segurança do prédio e fiquei atento ao passar para o terraço. No terraço, dei uma volta ao redor dele todo para reconhecer o terreno. Decidi começar a pixar pelo lado da Nove de Julho porque imaginei que seria mais tranqüilo, menos gente olhando. Estratégia: tirar a blusa, a camisa e os óculos. Pixei todo o lado oposto do prédio. Fui para o lado da Paulista. Se olhar para baixo não pixa. Me dependurei e comecei a pixar. Num determinado momento, cansei, parei e vi que tinha uma multidão do outro lado da rua olhando curiosos as letras que surgiam na fachada do prédio. Sabia que era questão de tempo para virem atrás de mim. Terminei logo, vesti a camisa, a blusa e os óculos. Na pressa, saí sem olhar antes de passar pela saleta. Um sujeito que estava a porta me viu passar e me mandou parar. Desci as escadas a mil por hora. Ao chegar em um determinado andar, empurrei a porta como se tivesse entrado nele, entrei no de baixo. Devia ter deixado o resto do spray lá no terraço, mas, como estava com ele ainda na cintura, coloquei-o dentro do cinzeiro entre os elevadores e chamei-os. Questão de segundos chega o segurança me enquadra e revista, conforme o esperado. Minha tentativa de despistá-lo não colou. Eu estava com medo, adrenalina a mil, mas, tinha tudo planejado – desculpa, argumento, justificativa, tudo. Meu único medo era ele perceber os vestígios escandolosos de tinta nos meus dedos – não sei até hoje como não pode ver! Explicação dada, identidade checada, entrada autorizada, peguei o elevador e sai pela garagem de modo a evitar outra abordagem, conforme planejado. Todo esse trabalho e risco não duraram mais que um mês, logo pintaram tudo. Tempo suficiente, no entanto, para quem importava ver ter visto.
Assim que sai fui olhar e ligar para uns amigos para contar a proeza! Voltei pra casa radiante! Alguns meses depois marcamos um role no centro. Na época o local mais cobiçado pelos pixadores e mais vigiado da cidade era o Teatro Municipal. Nos encontramos na frente dele – eu e mais três camaradas. Um deles era o mais famoso de Sampa na época, mais famoso, mais ousado, dos mais antigos e detestado entre os pixadores. Eu perto deles engatinhava, mas, não era menos apetitoso. Dois da zona sul, um da zona norte e eu da oeste. Nos encontramos no local e horários combinado. Um não levou a tinta, outro um rolinho e todos duros. E aí? Aí prevalecem as características e qualidades do pixador.
Decidindo para onde íamos e como faríamos, passa um carroceiro. Pendurada atrás da carroça uma lata de tinta óleo. Sem titubear o cara pega a lata e segue para o ponto de ônibus seguido por nós. No busão, troca idéia com o cobrador e todos passamos por baixo da roleta. Chegando no local, entra em um comercio e pede um refri. Esconde a lata dentro do lixo. Ao sair sai de sacola na mão com a lata dentro. Quando chegamos ao prédio que iríamos pixar, conforme eu fosse o mais novo da turma, fiquei incumbido de permanecer no local passando um pano. Se chegasse a policia eu ia simular um roubo e tentar adiar a entrada deles ao máximo no prédio. A entrada pela lateral do prédio era em um ponto de ônibus. Conforme haviam pessoas no ponto um deles gritou: balão, balão, balão!!! Para justificar a invasão ao prédio pelo muro. Colou. Todos ficaram olhando, procurando o balão e ninguém falou ou fez coisa alguma! Alguns minutos depois chegam os três pelo mesmo lugar que entraram. No dia seguinte formos ver o pixo. O filho da puta pixou o nome da minha gangue errado! Na verdade, conforme fui conhecendo-o melhor depois, desconfio que tenha feito de propósito mesmo, porque queria que mudasse o nome dela para o que ele gostava e havia pixado naquela ocasião. Trabalho inútil, pintaram logo em seguida depois também. O ibope para o pixador, a visibilidade era importante, no entanto, penso que a motivação era o trabalho em si, a aventura, adrenalina, risco, a ousadia e a subversão, mais do que a visibilidade ou o tempo de permanência da pixação. Hoje tenho outras teses sobre isso, mas, não vem ao caso agora.
Muitos se perderam no mundo do crime e se foram. Aos doidos da época: Punk de Guerra, Tchentcho e Krellos, Bacanas SP, Barks, Geleia, Chefe, AHG e TNY, Suspense, Fobia, Kop, Suspeitos, Saile, Zampa, Di, Pino, Os Metralhas, Kidão, Kiko, Ark, Rolex, João Boy, Balas, Pensativos, Rick, Loiro, Cia, Disasters, GSF, RDF, Kão, Binho, Túmulos, Cínicos, Diferentes, Gatinho, Tchara, Coruja, WF, K7s, Jet Boys, Fator 35, LDB, INXS, Legião, Homens Pizza, Rapto, Os Muchachos, Imorais, Ilários, Apaches, Hipnose, The Relâmpagos, Tuff Turfs, HSMD, Pegadas, Muralha Sul, 4 Cor, Gil, Os Grafes, Exorcistas, Psicopatas, Xuim, Ossos, Piromania, Snow Boys, Os Bárbaros, Lixomania, Revoltas, Só Mina, The Pirocas, entre vários e várias que me esqueço agora e lembrarei depois.

2 comentários:

  1. passei pra dar uma olhadinha i gostei valeu



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  2. Obrigado Tânia!!! Esteja a vontade pra comentar ou criticar o que quiser!!!

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