quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Outra vida...


Já foi dito que se desconhecem as razões do coração. Qual a lógica da razão? E do coração? Não se sabe. Ela não permite que se compreenda apenas sente-se. Quando a vi senti alguma coisa que ainda não sei. Ela disse que nunca havia vivido e sentido nada assim. O novo sempre se faz acompanhar do medo, da insegurança e às vezes da dor. Ele intimida. Eu também intimido. A vida também intimida. A liberdade intimida. É preciso saber o que fazer com ela. Muitos não sabem então preferem viver na prisão do medo. Talvez por isso tudo tenham medo de viver. Encolhem-se, fogem, se escondem. É sempre mais fácil optar por aquilo que já se conhece ou pensa conhecer. Eu não gosto do que é fácil. Por isso não sigo a lógica estúpida, medíocre e mesquinha do “mais vale um na mão do que dois voando.”Eu prefiro ter as mãos limpas, soltas para poder agarrar o que eu quiser e puder. Com elas assim eu ainda posso toca-la e quando isso acontece “passa o medo e o tempo para.” Não foi ela que me disse isso, antes dela já me foi dito. Eu prefiro “dois voando.” É melhor a liberdade. É melhor contemplar o céu. O céu é o limite. É melhor sonhar. Os medíocres é que tem os pés no chão, embora não andem. São incapazes de olhar para o alto e para frente. Escravos do medo, do passado, das certezas – como se alguma coisa que seja humana pudesse ser certa! A qualidade do escravo é o medo e a subserviência. Eles não sonham, não voam, são cativos. Não precisam sonhar. Sonhar para que se não têm vida? Sua vida pertence a outrem. Sonhar para que se têm-se medo de viver? Apenas existem. Confortam-se em existir. Para mim não é possível viver sem sonhar, sem ousar, sem enfrentar tudo e todos ainda derrotado. Antes a derrota que o fracasso e o medo. Sonhar é para os homens livres. O escravo tem quem sonhe por ele, pense por ele, decida por ele. Seu dono garante a sua vida, se é que se pode chamar tal existência de vida! A sua prisão é a sua segurança e a razão da sua existência. Sem ela não poderia viver por si só e, com o passar do tempo, resigna e torna uma situação em condição! Essa é a razão dos fracos, covardes ou dos sem caráter. Basta olhar para eles para perceber o quão vazios eles são. Suas palavras: vazias, sem sentido, rasas, banais. Suas ideias: clichês, sem originalidade, nulas, tolas, fúteis. Seus gostos: vulgares, simplórios. Incapazes de ver além do que os olhos permitem! A alma e os sentimentos não se pode enxergar com eles.
Um homem não precisa de palavras. Um homem se percebe pelo olhar. Antes de abrir a boca já conquistou – o que quiser -, porque seus olhos dizem aquilo que ela não pode dizer e não cabe em palavras. Sua vida se vê nos seus olhos e eles transbordam sonhos, desejo, vontade, vida. Os gregos entendiam que o olho era a janela da alma. Através dele se podia ver a alma do outro. Por isso existe a hipótese do “amor à primeira vista” – que é o encontro de duas almas gêmeas. Tudo começa com um olhar e um sonho. A realidade se faz de sonhos. O resto apenas existe e um homem é as suas atitudes e os seus sonhos. Quem não tem nem uma coisa nem outra não é digno de ser chamado assim.
Os medíocres sempre são práticos. Acomodam-se a tudo, apáticos, resignam-se. Optam pelo mais fácil, pela segurança e apegam-se ao certo por medo da duvida. Para mim o certo é a duvida, a ousadia, o risco! Preferem uma vida de chão e certezas. Pouco diferem dos bovinos que passam a existência no pasto ruminando e com cabeça colada as patas fincadas no chão. Eu prefiro contemplar os pássaros livres e voando do que tê-los presos a mão. Eu voo com eles.
É curioso como alguém pode gostar da prisão. Os medíocres gostam da prisão. São criaturas presas por opção. A prisão é uma fortaleza. Ela defende do mundo os fracos e impotentes. Andar é arriscado, sonhar é arriscado, amar é arriscado, viver é arriscado, então, para eles é melhor apegar-se a miséria da existência. Oscar Wilde estava correto: “Viver é o mais importante, muitos apenas existem.” Quantos homens vivem? Quantos têm consciência disso? Quantos se questionam sobre isso? Muitos existem e são demasiado muitos! Muitos seres – homens? - passaram pela sua vida e nada deixaram, nem uma verdade, nem um sonho, poucas ou nenhuma lembrança que valha a pena. Nada dizem, nada fazem, apenas existem na sua insignificância e mediocridade. Nada sou, nada valho, mas eu permanecerei. Não admito não fazer, não ser, não ter, não permanecer. Se não puder ou pelo menos tentar ser especial que vale a vida? Eu tenho que ser assim porque eu quero. É uma tomada de decisão, uma opção. Se posso ser mais, porque aceitaria ser menos? Se posso ser diferente, porque ser igual aos outros? Se posso ser melhor, porque não querer? A vida passa, mas eu não passarei por ela, prefiro viver. Ela disse que sou o máximo, não vejo virtude alguma nisso, para mim é natural ser assim, se um homem não desejar isso não é digno da vida.
Houve um que a agrediu, enganou-a. Outro tentou mata-la. Outro a insultou e humilhou-a. Existem criaturas que deixam isso no mundo – tristeza, vergonha, crueldade, covardia, miséria. Podemos chamar isso de vida? Que nome se pode dar a criaturas desse tipo? Isso sonha? Pensa? Ama? Compartilho com eles apenas uma coisa que carrego entre as pernas, no mais, tenho que ser mais, muito mais e não aceito nada menos do que isso. Algumas mulheres valorizam apenas isso em um homem. Essas também não merecem mais do que isso. Um homem para ser chamado assim deve ser muito mais do que isso.
Ela dedicou alguns anos da sua vida a criaturas assim. No futuro irá se lembrar dos anos que passaram, se foram e perdeu com isso. No futuro irá se lembrar que não se pode deixar a vida passar. A vida é feita de opções e sonhos. Que sonhos se têm ou se pode ter ao lado de criaturas assim? Que opções tipos assim podem oferecer? Sexo? Uma vida de sexo e nenhum futuro. Sem sonhos. Sem opções. A opção é um dia depois do outro e todos rigorosamente iguais ou piores do que os anteriores. Criaturas assim podem fazer sexo, mas satisfazer uma mulher é coisa bem diferente. Um cão também faz sexo. Criaturas assim são incapazes de perceber que sexo é troca, tem receber e dar prazer! Passamos pouco tempo juntos. Rimos, amamos – eu amei -, conversamos, pensamos, sonhamos. Dividimos tudo. Nada tirei. Amor é isso, antes dividir, compartilhar, dar. Dizem que é somar, discordo. O calculo é para gente mesquinha que só pensa em acumular. Somar é para o mundo dos negócios e amar, como já disse São Paulo, é compartilhar. E compartilhar envolve sonhos e futuro, aquilo que não existe ainda e que pode-se construir, mas, para isso é preciso ter coragem e decidir.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A luz

Consta que Deus disse: "fiat lux" e a criação começou. Consta que ela atingiu Saulo no caminho para Damasco e ele ficou cego para o mundo e abriu os olhos para o espirito. Ele vivia uma vida de prazeres como Santo Agostinho e depois experimentaram perseguições e privações. Eu não vejo a luz. Tambem não vivo prazeres há tempos. Não vejo Deus e nem ouço ele e tampouco ele me ouve. Não estou culpando-o, apenas penso que não existe ou ignora por qualquer razão algumas pessoas. Não importa. Acostumei-me as trevas e elas não me amendrontam, embora esteja tambem farto delas. Havia um fio de esperança no amor, na vida, no trabalho, em recomeçar. Acabou. Meu tempo passou e não posso cair e levantar infinitamente. Alguns dizem que Deus deu, Deus dá, Deus tem seu tempo, Deus faz, etc, etc, etc. Quem sabe do meu tempo sou eu, das minhas forças sou eu, das minhas quedas sou eu, da minha dor tambem. Deus que cuide do seu rebanho porque eu estou desgarrado faz tempo e, nas profundezas a luz tambem não chega.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Passageiro

Um homem pode ter muitas vidas, mas só se vive uma unica vez. "Viver é o que temos de mais importante, muitos apenas existem." Wilde estava certo. Há tempos que eu apenas existo, como muitos. Quanto de uma vida ou de uma pessoa podemos perder? Quanto vale uma vida? Qual é a medida da vida? Viver por viver? Viver porque a vida nos foi dada?! Todas as vidas equivalem-se? São tantas as falacias e os sofismas da moral burguesa judaico-cristã para justificar a vida, mas não podem justificar a miséria, a desigualdade, a fome, a violência, a morte, a corrupção e a exploração. Quanto uma vida suporta de sofrimento? Jesus sofreu, São Francisco sofreu, o Che sofreu; Rimbaud, Van Gogh,  Garcia Lorca, Sá Carneiro, Maiakovski, Lima Barreto, Lamarca, Jesse James. Muitos tombaram antes dos 40 - Lima Barreto como Glauber partiu aos 41. Todos tiveram as suas razões e o seu quinhão de dor. Todos lutaram e tombaram. Eu lutei, luto, estou derrotado e não quero mais lutar. Lutar por que, pelo que? Dinheiro? As putas, os gigolôs, mercenários, ladrões que fiquem com ele. Quero apenas ensinar a ela que a vida é muito mais do o que o vil metal! Só os pobres de espirito e medíocres fazem dele a sua vida. O fato é que ela não precisa de mim agora, já não precisa mais e nem sei se algum dia precisou ou precisará e, nesse mundo, apesar da hipocrisia da moral burguesa, nenhuma vida vale muita coisa. Tudo passa e eu também passarei..... E como disse um poeta, passarei sozinho.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Recaídas

Faz 4 meses da ultima recaída. Ela ainda não acabou. Ele havia passado dez meses limpo e saudável. Pleno de esperanças, fé, animo. Foi motivada pela raiva. Raiva, ira, ódio. Raiva da vida, de Deus, das pessoas, da mediocridade. Sempre tem um idiota para julgar a sua vida sem vive-la, sequer pode imagina-la! O emprego chegou após 19 meses desempregado. Tempo demais! Tarde demais! Desaprendeu a acreditar no trabalho e, sobretudo, nas pessoas. Durante esse tempo trabalhou bastante em troca de promessas e ilusões. De graça, voluntariamente e em troca de falsas expectativas. Muitos se aproveitaram da situação e exploraram seu trabalho. Participou de incontáveis seleções - uma mais "rigorosa" e ridícula do que a outra. Afinal, o emprego chegou no meio da recaída. Não havia mais esperanças, expectativas, sonhos, fé, animo. Apenas raiva, ira, ódio, descrença, indiferença, desconfiança. Que importa agora a porra do emprego? Que importa agora a porra do dinheiro? Fodam-se! A alegria acabara-se há bem mais tempo, desde que elas partiram. A tristeza é grande demais! O buraco é fundo demais! Depois de um tempo, o homem acostuma-se com tudo. A tristeza e a desesperança tornaram-se companheiras inseparáveis! Passou-se muito tempo e não é possível cogitar a hipótese de se pensar em mais tempo: para recomeçar, refazer, reconstruir. É preciso paciência e confiança para isso e ele as perdeu pelo caminho.
Não é possível construir coisa alguma com o que sobrou, apenas destruir de vez o que restou! Porque não é possível se viver sem amor, esperança, alegria e fé. Alguns filósofos sustentam que a partir da destruição é que se pode construir algo. A ciência e a academia também já não me interessam. Perfeição demais, rigor demais, clean demais, frivolidades, demagogia e cinismo demasiados. Sabe que nada se constrói por meio do ódio e da indiferença. Não é possível reconstruir mais nada também porque os cacos foram despedaçados e dispersos. Reduzidos a pó. O tempo pode destruir um homem de várias maneiras, sobretudo pelo cansaço. O homem não precisa de justificativas para viver e a vida basta-se por si só. Tambem não pode pretender justificar morte alguma.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Amanhã

"Eu não sei o que o amanhã me reserva" - esta foi a ultima frase escrita em inglês por Fernando Pessoa. Só sei que as vezes pode ser tarde demais. O tempo é demasiado. Até para recomeçar. Tarde  demais. Os dias tornaram-se pesados. Tarde demais para acontecer algo bom. Eu esperei tempo demais. Não importa. Ela se foi e não há nada que possa ser feito. Que importa o dinheiro? O trabalho? O sexo? Ou a vida se eu nem sei o que ela come ou o que faz quando acorda?! Ela cresce, sonha, brinca, chora e ri longe dos meus olhos. E eu penso se ela esta rindo ou chorando todo o tempo. Que importa hoje ou amanhã se eu nem sei mais como viver sem ela.....

domingo, 8 de janeiro de 2012

Excessos


Toda violência é um excesso. Uma apelação. Existem varias formas de violência e pode-se expressa-la de varias maneiras. São diversos os pontos de vista, as teorias e os campos do saber que se dedicam a estuda-la – entende-la e até justifica-la. Passa pela moral, pela ciência, pela cultura, perpassando toda a sociedade, suas diversas instituições e os indivíduos. A psicanalise talvez seja o campo do saber que nos oferece as melhores respostas no que diz respeito a pensa-la e entende-la.
Toda violência é uma relação de poder. O poder  daquele que se supõem mais forte e capaz de subjugar o outro, domina-lo. A violência, portanto, deve corresponder o medo e a obediência. Quando isso não ocorre percebe-se a sua nulidade e a impotência daqueles que a exercem.
O sargento da Policia Militar era um sujeito truculento. Em meio a uma abordagem por suspeita de consumo de drogas, imediatamente fez aquilo que demonstrava ser a sua expertise, oficio e prazer.  Desferiu-lhe um tapa no rosto, seguido de um cruzado. Um subornidado entendeu aquilo como um convite e acertou-lhe as costelas. Agressões físicas e verbais. Questionamentos diversos e desordenados seguidos de ofensas e acusações. Evidente que não se pretendia esclarecer coisa alguma, o objetivo era apenas demonstrar força e se divertir com o terror que ela pode causar.
O sujeito estava cercado de PMs e, naquele local e situação não era possível identificar qualquer patente, portanto, o fazia conforme falavam entre si. Após 20 anos da primeira abordagem, percebeu que as praticas da PM continuam as mesmas. Do ponto de vista objetivo, rigorosamente nada mudou no procedimento dela, apenas nas cartilhas e manuais de conduta, nos discursos oficialescos e nas propagandas institucionais.
O PM mais jovem, por sua vez, embora tivesse postura de oficial, era apenas um soldado. Conversava com calma e com seriedade, chamava-lhe de cidadão e pedia autorização para revista-lo e os seus pertences. Fazia perguntas de forma pausada e com clareza, sem ofensas, gritos e qualquer outra forma de intimidação. Sua postura sóbria e profissional prevaleceu.
O sujeito, por outro lado, conhecia há tempos à postura truculenta – como vítima, observador e pesquisador. Havia sido ainda boxeador, sabia apanhar e bater. Em momento algum acusou os golpes, demonstrando medo, raiva ou subserviência. O PM jovem abriu o dialogo e o sujeito entendeu que com ele isso fosse possível e válido. Identificou-se como trabalhador, pai de família, sociólogo e pós-graduado em Direitos Humanos pela USP. Silencio. Olhares de cumplicidade, medo, raiva, dúvida, curiosidade e apreensão. Ele não era um só mais um usuário qualquer, como aqueles que vagam pelas ruas e que eles estão acostumados a espancar por diversão ou para manter o costume, ele era um usuário esclarecido. Embora fosse pobre, questionava-se sobre o por que todo sujeito mais ou menos esclarecido é confundido com a elite e a classe media, Simples: a boa educação é reservada a elas e a policia aqueles. Fim da violência física e reinicio da verbal e da intimidação, porem, ficou evidente a mudança da sua motivação.    
Após breve silencio e mais interrogatório, o sargento começou o discurso padrão da tropa na rua, diferente daquele que consta dos manuais e propagandas institucionais. Trata-se daquele típico das formações militares tradicionais – “lei do mais forte” e “manda quem pode e obedece quem tem juízo.” É um tipo de poder que respeita apenas um seu igual ou que é considerado superior – mais forte. Ilegítimo e ilegal porque ignora quaisquer princípios morais ou éticos, assenta-se exclusivamente na força física.
“Direitos Humanos é o caralho! Eu cago pros Direitos Humanos! Coisa de vagabundos e defensores de bandidos! Direitos Humanos comigo é no tapa e na bala!”  Ele tinha vontade de rir e sentia pena ao mesmo tempo – pois, como podem existir pessoas tão fracas, baixas e pobres intelectualmente, moralmente e espiritualmente?! Como podem pessoas assim, representarem o Estado e pretenderem defender a sociedade e reivindicarem para si autoridade legal e boa fé publica? Portarem armas?! Era notório o seu desconforto, insegurança e descontrole diante do seu silencio e uma ou outra resposta curta - porque não é possível dialogar com um troglodita que fala com os punhos. 
Receoso e curioso acerca das suas informações, questionou sobre o por quê dessa sua formação  ao que ele respondeu que deu-se devido os seus estudos e experiências na área de  Segurança Publica – SSP e Funap. Conversas a parte: “O cara não é bandido, que merda, só usuário nessa porra.” “É, mais um filho da puta viciado.” “Como pode? O cara trabalhou na SAP e na SSP?” “Que merda?” “Como pode, sociólogo e pós graduado em Direitos Humanos usando drogas?” Do terror e deboche passou-se a apreensão sobre como proceder e resolver a questão. Debates a parte e muitos PMs pensativos andando de um lado para o outro. O mais jovem acompanhado de outro conversam com o sujeito de lado e respeitosamente perguntam-lhe sobre seu trabalho e formação. Ele explica-lhes que faz uso eventual e recreativo – se é que se pode falar assim – e que raramente usa na via publica, posto que também tenha família. Explica que fazia mapeamento de homicídios e atuava no CDP de uma cidade do interior. Não conseguem disfarçar certa tristeza e desconforto pelo seu vicio e ao mesmo tempo admiração pelo seu trabalho e formação. Assim é o ser humano, instável, incompleto, imperfeito, infeliz e incrível.
Após isso os que checavam seus documentos constatam uma ocorrência pela lei 9.099. O PM interroga-o e provoca: “Você que trabalhou na SAP e SSP sabe de cór o que é a 9.099? Após alguns anos e naquele momento não podia lembrar-se, afirma. Agressão motivada por uma briga de família afirma o soldado, ao que ele responde que se deu devido uma confusão entre inquilinos, quando o marido agredia a esposa em casa com um filho recém-nascido e ele e o irmão interviram. “Não aceito covardia no quintal da minha casa”, disse, ao que o sargento acenou com a cabeça concordando. Nessa altura prevalecia o respeito. Já não havia mais agressões de nenhum tipo e nem rigor algum no trato ou procedimento – mãos soltas e conversa de igual para igual.
O sargento chamou-o de lado e disse que tudo iria acabar bem. Disse que a agressão se deu devido o uso da droga próximo da viatura, que esse era o procedimento para impor respeito e intimidar o usuário que quisesse fazer uso próximo da policia afrontando-a. Ele respondeu que não costumava fazer isso, sobretudo porque também tem família e não concorda que crianças vejam uso de drogas. O sargento ressaltou que o caso era intolerável apenas devido à proximidade da viatura. Disse que ele seria liberado e que tudo resolver-se-ia na paz, contudo, se ele o denunciasse ele iria busca-lo até no inferno. Disse que sabia que ele observava todos os nomes e pediu para que o olhasse os olhos que iriam conversar agora apenas de homem para homem. Admitindo que embora tenha sido um tanto truculento, ele ainda não tinha visto nada e que, homens estão acostumados a apanhar e apenas um tapa, não deixa marcas ou sequelas, portanto, da parte dele estava tudo resolvido e eu podia ir em paz, etc, etc, etc. Encerrou dizendo que se eu estivesse em casa nada disso teria acontecido, mas, que esse é o trabalho deles - espancar, humilhar?! Ele disse que não iria denunciar nada, que estava errado, entendia a postura e o trabalho policial – e estava sendo sincero nisso porque entender é diferente de compreender – e que diante disso estava no lucro. O soldado jovem entregou-lhe os documentos e pertences. Ele agradeceu. O jovem PM perguntou se tinha alguma duvida ou queixa com relação ao trabalho da PM. Ele afirmou que não o chamando pelo nome. Ele perguntou se havia decorado o seu nome. Ele deixou escapar um sorriso e disse que não era o caso. O jovem PM perguntou por que ele riu e ele disse que não via razão em preocupar-se com isso porque apenas o chamava pelo nome por uma questão de respeito, não que fosse decorar ou tomar qualquer atitude contra eles. Ele foi dispensado. Os PMs aconselharam-no a ir para casa, cuidar da família e da vida e não mais fazer isso, que numa próxima ocasião ou em outras circunstancias ele poderia até ser preso, ferido ou morto.
Foi-se pensando em como a violência é estupida, burra, ignorante, desnecessária e inútil. Foi-se pensando que se a abordagem demorasse mais cinco minutos terminariam chamando-o de doutor e desculpando-se, alias sutilmente e a sua maneira todos se desculparam – inclusive ele. Pensou ainda em todos os prejuízos que a droga ocasiona e se chegará o dia em teremos uma outra polícia, um outro Estado – mais eficaz e menos corrupto e indolente -, uma verdadeira democracias e cidadania, uma outra e verdadeira justiça - republicana. Até lá, e diante de tantas perguntas sem resposta, também não se sabe o que fazer para sobreviver a isso tudo.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Homens, crimes e prisões


Ele era alto e forte, muito forte. Intimidava. Peso pesado e eu leve. Um pouco mais novo do que eu e já estava há uma década no sistema. Tínhamos em comum além da idade e o trabalho o gosto pelo boxe. Por isso éramos bons colegas de trabalho e nos respeitávamos como profissionais e homens. Estava sempre no portão da ala com a 12 em punho. Apesar do porte, da expressão dura – talvez devido o ambiente e o ofício - era um sujeito simples e amável. Calmo, de conversa mansa e agradável, divertido. Passava tranquilidade aos demais, inclusive para os presos. Quando conversava com alguns deles – o que não era raro -, tratava-os por “filho” ou “jovem” – inclusive os mais velhos que ele.
Contei a ele sobre minha curta carreira de pugilista amador e ele sobre suas experiências no boxe e no Muay-Thai. Falávamos sobre as técnicas, os estilos, golpes, os grandes lutadores e as lutas memoráveis. Contei-lhe sobre minha experiência na Secretaria de Segurança de Guarulhos e o trabalho nos DPs e Batalhões da PM, as manipulações e inconsistências nas estatísticas e registros de homicídios. Contou-me sobre suas experiências com o Grupo de Intervenção Rápida (GIR) e as rebeliões que enfrentou – tanto em presídios quanto na Fundação Casa.
Causou-lhe espanto saber ainda que eu havia atuado em comunidades cariocas – Providência, Maré e Nova Iguaçu. Contei-lhe sobre o tráfico e o seu poder de fogo – mostrei-lhe diversas fotos de cartuchos deflagrados pelo tráfico, disparados em solidariedade ao “partido” durante a madrugada no dia dos ataques em São Paulo em 2006, ocasião em que eu trabalhava na Providência. Contei-lhe sobre os disparos de “traçante.” Sobre a “biqueira” na entrada da comunidade - em cima de um bar na via principal daquela região - no mesmo quarteirão da creche, Associação dos Moradores, escola, internet grátis da prefeitura, Cemitério dos Ingleses e em frente à Cidade do Samba (região portuária no centro da cidade). Expliquei-lhe como funcionava o ponto – 24 horas por dia sempre com três soldados, dois para segurança e contenção armados com FAL ou AK-47 e um para servir a freguesia. Os olheiros ficavam próximos em outro ponto melhor localizado. Estavam sempre prontos e dispostos para o confronto e, talvez, por isso, nunca vi uma viatura parar – apenas passavam e ignoravam o trafico como se ele não existisse ou fosse “parte da paisagem” -, embora o ponto fosse acintosamente visível.  Contei-lhe sobre a precariedade das condições da PM carioca e da sua baixa autoestima – o que sem duvidas colaborava para a corrupção da tropa.
Sempre me ouvia com atenção e interesse. Uma vez me contou sobre uma ação do GIR na Fundação Casa. Contou-me que já existia há tempos uma espécie de PCC-Jovem. Disse-me que agiram em uma rebelião para retomar a unidade que estava sob o controle da facção. Relatou sobre as mordomias – TV, DVD, celular e até frigobar - e privilégios – visita intima - dos lideres juvenis dentro da unidade, bem como seu prestigio e poder junto aos demais menores e até alguns agentes. Contou-me sobre o armamento e as táticas usadas na contenção e invasão. Balas de borracha, spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral. Escudos, capacetes, coletes, cassetetes. Armas não letais, mas com alto poder de intimidação e lesão. Explicou que após a retomada da unidade, a técnica utilizada era a do “cú no chão.” Todos nus com a cabeça entre os joelhos abraçando as pernas. Tal técnica servia – do ponto de vista da segurança - para assegurar que todos estavam desarmados e indefesos, bem como para humilhá-los. Explicou que as agressões e torturas eram parte da técnica – socos, tapas, chutes, sufocamentos e enforcamentos. Contou-me que muitos eram constrangidos e intimidados a participar disso e, que por isso, havia deixado o grupo. Por outro lado, frisou que muitos praticavam com prazer e zelo. Não aceitava covardias e entendia que a humilhação não recupera, corrige ou provoca qualquer atitude ou pensamentos positivos/produtivos. Depois de um tempo estava tornando-se embrutecido, calado, nervoso, tenso, insone e passando tudo para a família. Nesse momento decidiu que era a hora de sair, ainda que fosse necessário romper com alguns colegas e ser visto com desconfiança e desdém por outros. A paz consigo mesmo e em casa vale mais que a consideração e o respeito de alguns sádicos e o bônus no salario por cada ação.  Hoje é um simples AEVP – Agente de escolta e vigilância prisional.
A cadeia por si só já é uma tortura. A ausência de liberdade e privacidade. A convivência forçada. O medo e a desconfiança. A incerteza e a tristeza. A miséria e a violência extremas, em todas as suas formas e expressões. Constantes e perenes. A cadeia é o mundo virado do avesso, uma insanidade, uma aberração. Percebe-se, contudo, que é no pior dos lugares, nas piores situações e entre as piores pessoas que se pode também encontrar as melhores e o melhor do ser humano. Ele foi uma dessas gratas surpresas – tive outras entre funcionários e presos.
Numa ocasião a cadeia estava em obras. Construía-se um alojamento para a tropa. O diretor era também o comandante da tropa. A tropa era um seu produto, motivo de orgulho para ele e de referencia de politica de segurança para o Estado. Assim, recebia convites para apresenta-la e até dar consultoria e palestras em outros Estados. Desse modo angariou patrimônio e prestigio.
A obra, em uma cadeia, evidentemente era publica. Por outro lado, embora seja requisito indispensável da administração publica, transparência é ficção ou piada, tanto quanto a impessoalidade ou o respeito aos Direitos Humanos nas cadeias paulistas – meras formalidades que não vão além dos documentos e discursos. Os trabalhadores eram presos de outro presidio. Nunca vi a entrega de material de construção no local, embora a obra nunca estivesse parada. Nunca vi um engenheiro ou outro técnico de construtora contratada pela licitação. Também nunca vi um fiscal publico – de obras ou do trabalho - acompanhando a obra. É impressionante a quantidade de presos que trabalham dentro de um presidio, tanto na administração quanto na manutenção dele. O rapaz da informática, por exemplo, era estudante de medicina e ex-seminarista – discutia Sartre e Merleau Ponty comigo.
Havia um preso evangélico que trabalhava na regional da Funap. Era chamado pelos outros de reverendíssimo. Consta que fosse pastor. Tenho uma intuição boa para esses tipos e, muitas vezes, ela é reciproca. Embora falasse sobre a Bíblia e Deus, não fazia proselitismo comigo e evitava falar comigo. Não que tivesse medo ou demasiado respeito, apenas me olhava e falava com desconfiança e, algumas vezes até comum certo deboche. Procurava se mostrar outra pessoa para mim – menos severo e mais descontraído. Porem era nítido o seu desconforto diante de mim e a sua postura e discurso forçados. Nunca me olhou nos olhos e falava de forma indireta, com meias palavras e de maneira breve. Evitava ficar a sós comigo. Disse-me apenas uma verdade: “não existe nada mais corrupto no mundo que diretor de presidio. Basta comparar o patrimônio de qualquer um deles com a sua renda.” Falou-me na cozinha, durante o almoço, na semana em que sairia de condicional após cumprir 18 anos no regime fechado. Nunca me interessei e nem me interessa saber o crime que cometeu, pela sua pena pode-se deduzir que só pode ter matado uma pessoa. Penso, porem, que essa sua observação, aparentemente despretensiosa, tenha sido uma denuncia velada, um ultimo ato de revolta contra o sistema e orgulha-me ter sido digno disso. 
Soube que o diretor do presidio era proprietário de uma gráfica. No final do ano estava de férias e tinha ido a um Spa para perder peso. Depois iria para os Estados Unidos atravessar o país de moto com uns amigos. Tinha esposa e duas filhas menores. Tudo bastante compatível com a renda de um diretor de presídio – um ASP com quase vinte anos de serviço e bacharel em Direito. Tinha uma gráfica também e, assim, pensava que fosse um homem rico que buscasse prestigio politico e social no serviço publico em uma cidade do interior paulista, posto que sua riqueza viesse de outros meios e da sua origem. O AEVP riu: “lavagem de dinheiro.” A realidade é dura e simples, o resto é ilusão, demagogia, cinismo ou retorica.