quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A noite de minha vida.

Um gosto amargo na boca. Vaga recordação. Saudade impotente. Angústia e tristeza. Um aperto no peito vazio.
Um raio de sol distante. Vãs ilusões. Ínfimas impressões. Devaneios de memórias perdidas, indecisas, incontidas. Infinitas e perdidas para mim. Feridas desmedidas, adornadas, inesquecidas. Cambiando entre o passado e o presente. Fantasiando a esperança decaída, na noite da minha vida. Adentrando minha alma....

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Movimentos e lutas e populares: ofensiva da direita e crise da esquerda.

Faz uns dias que estou querendo escrever sobre movimentos e a luta por moradia. Desde a queda do prédio da PF no Paiçandu em SP, precisamente. Isso por duas razões, primeiro pra rebater a criminalização perversa aos movimentos de luta por moradia, segundo pra romper com o senso comum e a idealização/romantização que balizam o debate. Antes, porém, esclareço que não escrevi anteriormente pelos seguintes motivos: não acho produtivo escrever no calor dos acontecimentos e, não pretendo que minha linhas tragam novidades, tampouco espero que sejam esclarecedoras, sequer lidas. Espero, se muito, que se lida instigue alguma dúvida.

Desde 94 que acompanho isso mais ou menos de perto, como simpatizante, militante e sociólogo. Nessa caminhada, já estive em lutas e projetos relacionados à moradia e urbanização como interlocutor de ambos os lados - poder público e sociedade. Em meio urbano e rural, em várias cidades e comunidades em SP, RJ, RN, BA. Atuei como técnico social, analista socioambiental, militante político de agitação e propaganda, responsável pela formação política, mobilização, articulação e organização comunitária. Grosso modo, em todas essas atividades a ideia era incentivar a participação popular de forma organizada - associações de moradores, cooperativas, conselhos comunitários, comissões de acompanhamento de obras, etc. Desnecessário dizer que a participação é condicionada pela correlação de forças entre as partes envolvidas no processo.

A questão habitacional e urbana se inscreve nos marcos do Estatuto da Cidade e no debate acerca o Direito a Cidade. Esses são parâmetros novos que vem sendo construídos não sem atritos, resistências, contradições e conflitos no interior do Estado e da sociedade, conforme a dinâmica da luta de classes no interior da ordem global - capitalismo. Grosso modo, conforme o projeto progressista-neodesenvolvimentista dos últimos 15 anos, os movimentos populares de luta por moradia - entre outros direitos - foram incorporados como interlocutores políticos ao poder e, assim, as suas pautas passaram a compor a agenda estatal em termos de políticas públicas. Por essa razão é importante destacar que se tratam de conquistas sociais, a despeito do caráter reformista, compensatório, conciliatório, funcional e/ou do modo - paternalista, assistencialista, clientelista, etc - em que tais movimentos aderem ou são incorporados a esse projeto político.

Conforme esse processo, em que o Estado apresenta-se como o "provedor" - nem sempre "gestor" -, temos a um só tempo, a expansão das políticas, projetos, agentes privados, interlocutores populares, sociais e interesses diversos, até contraditórios e conflitantes. Nessa perspectiva, há a primazia do aspecto "técnico" em detrimento do "político", conforme o Estado não seja o "gestor", promovendo a ideia a um só tempo do "Estado ineficaz" ou "mau gestor" e da "iniciativa privada" ou "sociedade civil" como a panaceia, de modo, que a política pública - direito social - passa a ser encarada como assunto privado, da competência de burocratas e tecnocratas "despolitizados." Esse processo, trouxe consequências bastante nefastas para os movimentos populares: 

1 - "Desqualificação" de lideranças e interlocutores populares e/ou tradicionais - tornaram-se nessa perspectiva, "obsoletos, retrógrados, sectários, idealistas, etc";

2 - Invasão, captura e ampliação de atores "técnicos" nos espaços populares de luta - políticos e sociais -, deslegitimando, marginalizando e/ou descaracterizando lideranças e movimentos;

3 - Esvaziamento do conteúdo reivindicatório, classista e revolucionário do discurso pelo paradigma da conciliação, funcionalidade, focalização, parceria, inclusão, etc;

4 - Esvaziamento do caráter do Estado como arena de disputa ideológica para espaço de gerenciamento das mazelas do capitalismo;

5 - Marginalização, desqualificação, exclusão, repressão, criminalização dos movimentos populares de luta, ligados ou não a partidos políticos de esquerda, conforme recusem o paradigma estabelecido da conciliação, parceria, negociação, em oposição as táticas de enfrentamento do Estado e da ordem estabelecida;

6 - Renúncia deliberada ao trabalho de base de formação política, mobilização e organização popular por amplos setores da esquerda, em função da adesão ao modelo técnico-burocrático elitista, excludente, autoritário e despolitizado; 

7 - Cooptação e aparelhamento do movimento popular por grupos e/ou interesses criminosos - tráfico, seitas religiosas, terceiro setor, políticos, etc. 

Até o inicio dos anos 2000, nos movimentos populares nas comunidades periféricas ainda predominava o caráter político-reivindicatório - estratégias de mobilização e organização pra luta -, mesmo que capturado pelo imediatismo condicionado pelas necessidades imediatas de sobrevivência - seja na luta por habitação, urbanização, transporte público, acesso a educação, saúde, etc. O novo marco regulatório do terceiro setor (1999) e a ascensão do projeto petista ao poder ampliaram, significativamente, as políticas sociais e os espaços da sociedade civil organizada no Estado. O incremento das políticas públicas agitou as bases populares e amplos segmentos sociais, por sua vez, promoveu mudanças que privilegiaram modelos técnicos, conciliatórios, focalizados e funcionais. Esse padrão promoveu a "gestão" de caráter técnico-empresarial da política pública, conduzida em termos de "negócios" por gestores sociais capazes de gerenciar recursos financeiros, materiais e humanos. Os que defendem esse modelo argumentam que isso "profissionalizou" e "modernizou" os movimentos populares e sociais, por sua vez, a evidente  despolitização e desmobilização caminha de mãos dadas com as arcaicas práticas de apadrinhamento e/ou clientelistas e criminosas no balcão de negócios  estatal. 

A queda do prédio público ocupado em São Paulo evidenciou, mais que o velho problema da moradia no Brasil - e da omissão, negligência e violação de direitos -, a onda neoliberal e autoritária que se avulta e avança, criminalizando, intimidando e reprimindo os movimentos e lutas populares. Por outro lado, é interessante notar como nesses momentos, à demonização corresponde a romantização e/ou idealização dos movimentos e lutas populares, sobretudo, por setores da "esquerda" (progressistas, anarquistas, socialistas, comunistas) - o avesso do materialismo-dialético. Assim, na vala-comum em que são atirados os complexos, dinâmicos e contraditórios movimentos populares, cabe tanto a generalização enviesada da facção criminosa, quanto a da classe trabalhadora coesa, coerente e revolucionária. Nem um, nem outro, por diversas razões que não caberiam nessas linhas, e, por isso, indico só aquelas que já experimentei na prática. 

A despeito das perspectivas mais românticas, indolentes e irresponsáveis, bem como, das tendenciosas, maniqueístas e criminosas, é uma realidade contundente a disputa sistemática, nas diversas comunidades periféricas Brasil afora, na cidade e no campo, de seitas reacionárias neovans, terceiro setor e crime organizado - loteando espaços e barganhando demandas. Ao lado disso, a política do curral e cabresto eleitoral também não é exclusividade dos sertões do país - qualquer pessoa minimamente informada sabe que a compra de votos é uma realidade nas periferias e bolsões de pobreza das grandes cidades. Vi e vivi isso em, maior ou menor grau, em São Paulo - Vargem Grande, Pirituba, São Matheus -, baixada santista - Bertioga, São Vicente, Santos e Cubatão -, Rio de Janeiro - Providência e Nova Iguaçu -, Vila de Ponta Negra em Natal e em comunidades Quilombolas na Chapada Diamantina na Bahia. 

Na comunidade do Vargem Grande a Associação UNIFAG surgiu como entidade organizadora e fundadora da ocupação que gerou o bairro - inicio dos anos 80. No fim dos anos 90 e inicio do século 21, conforme o bairro mantivesse crescimento constante e as demandas por infraestrutura, habitação e urbanização seguissem em descompasso, atores "técnicos" passaram a assediar e "orientar" o movimento popular de luta no sentido de "modernizar" a organização. Assim, surgiu a ACHAVE (Associação Comunitária Habitacional do Vargem Grande), gestada no interior da outra, com o objetivo de subsidiá-la e apoiar a comunidade em questões de caráter jurídico, financeiro e técnico, conforme essas demandas e a burocracia se avolumassem comprometendo as ações políticas e sociais. Importa saber, no entanto, que a os técnicos e burocratas ambiciosos e sem escrúpulos da ACHAVE, perceberam o potencial de negócios e a oportunidade e deram o golpe na UNIFAG, constituindo-se em organização formal capitalizando em cima das demandas comunitárias, prestando serviços de consultoria e assessoria técnica, captando projetos e recursos com parceiros privados e políticos com interesses eleitoreiros, intermediando mediante pagamento os trâmites burocráticos entre os moradores incautos e o poder público. Essa situação, além de dividir a comunidade e enfraquecer a UNIFAG, levou-a à desmobilização e apatia política. Foi preciso a ferrenha determinação de alguns dirigentes da UNIFAG e militantes comunistas - no caso o PCO -, ao lado da ameaça de remoção de diversas famílias do bairro pelo poder público, para que a entidade pudesse se reorganizar e recuperar seu status junto a comunidade. Detalhe, o fundador do bairro e da UNIFAG é ex-padre, ligado a Teologia da Libertação, perseguido e exilado durante a Ditadura, um gaúcho octogenário, bastante espiritualizado e espirituoso, muito esclarecido e coerente. Dos membros mais ativos da entidade - totalizando dez pessoas - três eram evangélicos muito reacionários e intransigentes. Eis o quadro, grosso modo, que o partido e o militante comunista irá se deparar nos movimentos populares das diversas comunidades Brasil afora. 

Em São Vicente a situação foi pior, embora a comunidade não chegasse a uma centena de pessoas. Contudo, a situação em toda a baixada santista reflete a da capital - domínio absoluto da facção criminosa em todas as comunidades periféricas. É bom que se diga; a relação do crime organizado com as comunidades não é homogênea, aberta ou deliberada/consentida, muitas vezes, há uma articulação discreta com alguns elementos, estabelecendo uma convivência mais ou menos forçada, em que a tolerância se sustenta através do medo e intimidação de um lado e, os vínculos de confiança - familiares e comunitários -, além de certas vantagens, decorrentes das privações e adversidades, de outro. 

Para o crime organizado, importa cooptar certas figuras emblemáticas nas comunidades, quando não mobilizar determinados membros da facção em um local estratégico, ocupar e construir a sua própria comunidade, organizada no tripé: tráfico, administração das necessidades e controle social pela força. O fluxo do tráfico, por si só, mobiliza e articula uma série de indivíduos e negócios, movimentando a economia formal e informal do entorno, de modo que se torna lucrativo para outros tantos além dos traficantes - materiais recicláveis, cigarros, álcool, objetos furtados, etc. Por fim, nesses casos, a própria comunidade se constitui em barricada entre a polícia e o tráfico, posto que um só existe em função do outro - é no vácuo do Estado, ausência de políticas públicas, negação e violação de direitos e na omissão das organizações dos trabalhadores que o crime e a direita avançam!

As relações do tráfico com as comunidades, além de arbitrárias são complexas e dissimuladas, se insinuam, conforme a confiança aumente no convívio cotidiano. Assim, diversos interlocutores - parceiros, simpatizantes, estudantes, militantes, ativistas, agentes públicos ou políticos -, conforme mantenham contatos pontuais e vínculos restritos, raramente conseguem apreender essas relações - a coisa não é como em muitas comunidades no RJ e nem como quer o José Padilha. Pode-se perceber nessa estratégia - o grau de profissionalização, por meio dessa trama imbricada - a capacidade do crime organizado em buscar formas diversificadas de expandir-se e se legitimar nas comunidades,  por meio da organização e inserção em movimentos populares e pautas sociais, articulando interesses econômicos e políticos - trata-se de um ambicioso e sistemático projeto de poder. 


Por fim, a atual ofensiva reacionária e autoritária que vem há três anos enterrando o projeto neodesenvolvimentista e o partido da ordem,  recolocou-o forçosamente após década e meia junto as bases. Esse fato, por sua vez, também trouxe consequências nocivas para os movimentos populares, na medida em que aqueles que se acostumaram as institucionalidades e aos acordos e conchavos com a direita, esqueceram-se ou renunciaram deliberadamente ao trabalho de base, passando a assedia-los com o objetivo de capitalizar as suas demandas e manipular as suas pautas conforme interesses eleitoreiros. Trocando em miúdos, ao invés de colaborar para construir uma organização popular que represente a comunidade, o "político profissional" preferiu cooptar e legitimar uma "liderança" - o "linha de frente" - pra "representá-la" - convenientemente o sujeito mais ambicioso, deslumbrado, limitado, truculento e manipulável possível. Assim, a um só tempo, indicando o "representante" mais "apropriado" - para manipulação -, conforme interesses eleitoreiros e a conveniência dos poderosos de plantão - poder público municipal, judiciário e e proprietária do terreno, todos interessados em remover a comunidade da área -, conseguiu desmobilizar a comunidade, deslegitimar o coletivo, reiterando a velha e nefasta lição que sustenta que "não precisa organização ou luta popular", basta "o salvador pátria" - líder político - para "negociar" e "barganhar" com os poderosos. 


A tática de conceder o acesso aos espaços de poder e aos poderosos políticos, pra diversos interlocutores populares, sobretudo, aqueles mais limitados e marginalizados, ainda é poderosa e eficaz - maquiavelicamente falando. Não há discurso, formação, apelo a consciência ideológica ou ética, capaz de resistir à sedução, para o sujeito comum, ocasionada pelo olhar ou aceno da "autoridade" e ser recebido no gabinete. Trata-se de tática sórdida e perversa, posto que ilude e manipula, reduz a pauta coletiva de direitos a conchavos de gabinete e barganhas ou concessões, desmobiliza e deslegitima a  organização e luta popular. Por si só isso já bastaria para desqualificar e enfraquecer os movimentos populares, mas, isso ainda não é tudo. Completa a tragédia grupos e/ou indivíduos ANCAPs, conforme a agenda neoliberal, cumprindo a missão de "demonizar" o Estado e os "partidos políticos" de esquerda, "endeusar a sociedade civil" - indiscriminadamente, a despeito da luta de classes -, promover a "liberdade do indivíduo" - o avesso da igualdade -, "idealizar as comunidades" - a despeito das determinações objetivas e contradições - e a "autogestão", evidentemente sem qualquer referencial teórico ou metodológico, posto que o caráter idiossincrático burguês e o bovarismo pueril dispensam a crítica, a objetividade, o materialismo histórico, a dialética e ignoram a práxis - Bakunin, Proudhon, Ravachol, Flores Magón, Malatesta, Voltairine de Cleyre, Thoureau, Di Giovanni, Leuenroth, Florentino de Carvalho devem estar se revirando no túmulo. Enfim, o problema da criminalização dos movimentos populares é histórico, todavia, o processo de criminalização não se encerra na repressão judicial e policial, sustenta-se na tradição autoritária da sociedade e na alienação e/ou omissão/negligencia da esquerda em relação as suas contradições e estratégias de organização. Ou retornamos conscientes e determinados as bases, enfrentando a ofensiva da direita organizada e infiltrada nos movimentos populares, ou resignamos à ruína, arrasados como o prédio da PF em Sampa.














       










segunda-feira, 23 de abril de 2018

Educação e a miséria do mercado


Estou deixando, paulatinamente, de procurar emprego na educação. São muitas as razões, além da retração da oferta de vagas formais, achatamento dos salários, precarização das relações de trabalho e elevada concorrência de trabalhadores. Não são recentes, porém, essas questões, há dois anos que pairam sobre a sociedade - não subestimo o interlocutor com explicações desnecessárias, não faltam informações a esse respeito.   

Faz 15 meses que estou desempregado. Desde então, todos os meses - até mais de uma vez ao mês - sou chamado a participar de processos seletivos. Conforme a minha formação, tenho amplas experiências e conhecimentos em educação, pesquisa, projetos sociais e movimentos populares. Assim, estive em diversos processos seletivos, sobretudo, no Sistema S. 

Conforme a minha formação, são muito poucas as oportunidades de trabalho na minha área, sobretudo, em decorrência da indefinição formal das suas competências e campo de atuação. A ausência de regulamentação do exercício da profissão, dentre outras razões levam a essa marginalização no mercado, permitindo que profissionais de outras áreas disputem e ocupem espaços, assumindo funções que não são, necessariamente, da sua competência. Esse é o panorama em que se insere essa reflexão – “crise” do mercado (política e econômica), precarização sistemática do mundo do trabalho, ausência de regulação do exercício da profissão. 

Todavia, esses são os fatores exteriores e evidentes que incidem sobre os trabalhadores na atualidade e, em especial, sobre a minha profissão. Existem outros, porém, subjacentes que dissimulam características arraigadas na nossa sociedade, destaco duas delas; a cordialidade e a intolerância. A cordialidade é um conceito elaborado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil. O senso comum, por sua vez, associa cordialidade à gentileza, afabilidade, doçura, simpatia. Entretanto, a cordialidade expressa a “razão” da emoção, caracterizando sujeitos movidos por paixões, afetos, motivações pessoais de ordem subjetiva. O indivíduo cordial é aquele que ignora e/ou desdenha a objetividade, impessoalidade, imparcialidade e a universalidade. Ele é o avesso do direito, da democracia e da ética. Por essa razão é contraditório - e deprimente -, constatar pessoas supostamente qualificadas, afirmarem ao mesmo tempo, tendências corporativas "modernas", e que a empresa ou a equipe funcionem como "uma família", ou seja, opera na ordem dos afetos e vínculos pessoais, nada a ver, portanto, com competências ou qualificações avaliadas de forma objetiva.

A intolerância, por sua vez, é intrínseca à cordialidade, posto que o homem cordial tem aversão ao desconhecido, ao estranho, ao outro. A sua racionalidade opera na lógica pessoal, o oposto da universalidade da democracia, da impessoalidade da ética, da imparcialidade da justiça e da objetividade do direito. O intolerante é um dogmático, repudia o diálogo, o debate e a dúvida – é inconcebível para ele quaisquer divergências, questionamentos, problematizações e a crítica, esta, no sentido estrito, ou seja, radical, que aprofunda e busca a raiz da questão. Conforme funcione na lógica das emoções, também tem pouco apreço pela ciência, posto que o método pressupõe a especulação, a pesquisa e a universalidade. 

A cordialidade e a intolerância, são as características latentes e arraigadas que marcam o mercado de trabalho na atualidade. Faz 15 meses que estou desempregado e, como disse, participando de inúmeras seleções, em diversas cidades e organizações, na educação, projetos sociais, ambientais, pesquisa, políticas públicas e organização comunitária. No entanto, essas características são anteriores, apenas mais acentuadas recentemente, conforme a onda reacionária avança na sociedade. 

Na última seleção em que estive – Senac de São Paulo para atuar na Fundação CASA -, algumas coisas me chamaram a atenção, quais sejam: a presença maciça e acachapante de candidatos egressos ou vinculados a instituição, a cordialidade indisfarçável dos selecionadores com os candidatos da casa, a disparidade na formação dos candidatos – um sociólogo, uma assistente social, uma psicóloga, um engenheiro, um administrador de empresas e uma pedagoga -, indicando pouca objetividade no processo seletivo, a convocação de todos os candidatos que estiveram na “dinâmica de grupo” para a próxima etapa - “aula teste” e entrevista. Não sou selecionador, mas, a despeito da minha longa experiência na educação e da adquirida em diversos processos seletivos, me parece suspeito que pessoas que “travem” durante a dinâmica, chorem, exponham argumentos, ou melhor, opiniões equivocadas, contraditórias e até preconceituosas sejam aprovadas para participar de outra etapa da seleção.  Nesse processo, um candidato admitiu que não tinha perfil para a função, outra tentou problematizar e aprofundar uma questão, perdeu-se no raciocínio, travou e terminou aos prantos. Isto, porém, não é tudo, conforme a vaga fosse para “docente de desenvolvimento social”, a pérola veio da pedagoga, afirmando que o problema dos adolescentes pobres cumprindo MSE em meio fechado é “falta de amor em casa”, que “muitos não conhecem carinho”, por isso "são violentos, agressivos, marginais." Enfim, para essa educadora, com diversas passagens pelo Senac e experiências na Fundação CASA de Osasco, Guarulhos, São Paulo e Franco da Rocha, a questão não é pública, é assunto privado – de família -, não é de direito, mas, de ordem afetiva, não é política ou técnica, antes de caráter individual, quase escolástica, posto que basta aos indivíduos "amarem-se uns aos outros." Trata-se de um procedimento perverso, de punição da pobreza e responsabilização da família e do indivíduo, pela condição de desigualdade da qual são vítimas.

Em um dado momento da atividade, um tanto entorpecido, lembrei que o “combate a pobreza e as desigualdades sociais”, por exemplo, são questões políticas e sociais, não da esfera individual ou privada, posto que consta dos Princípios Fundamentais da Carta de 88 – silêncio absoluto, olhares de espanto e reprovação, seria eu “o comunista”, em meio aos liberais ignorantes que desconhecem ou desprezam o postulado básico do liberalismo, o Estado de Direito? Enfim, esses foram alguns alguns dos aprovados na dinâmica, convidados para a próxima etapa – aula-teste e entrevista – é bom que se diga, os selecionadores não eram da área de RH, eram o coordenador da área de desenvolvimento social e a coordenadora pedagógica, portanto, pessoas da área educacional e projetos sociais. 

Até aí, a cordialidade prevalecia, a despeito da intolerância mais ou menos dissimulada, conforme problematiza-se e se questionam contradições e equívocos em algumas falas, durante as atividades propostas. No dia da aula-teste e entrevista, porém, chega a hora da intolerância mostrar-se sem retoques. Conforme havia indicado, na fase anterior, todas as questões relacionadas ao cumprimento das MSE, educação e desenvolvimento social, abordava a partir da dimensão institucional – ECA, LDB, PCNs, Lei da Aprendizagem –, técnica – método construtivista e sociointeracionista - e da primazia dos Direitos Sociais e Humanos que consagram a nossa Carta Democrática, afinal, são questões públicas, políticas, sociais. 

As aulas-testes são um espetáculo à parte. Duas características chamam a atenção: a pirotecnia disposta em parafernália tecnológica apropriada para entreter e distrair, e o adestramento para o mercado de trabalho sem qualquer estímulo ao senso crítico, na perspectiva da autorresponsabilização e autoajuda. Além disso, chega a ser constrangedor – para dizer o mínimo -, o mal-estar indisfarçável dos selecionadores quando se coloca a questão fora dessa ordem, ou seja, na perspectiva POLÍTICA, SOCIAL E DE DIREITOS. Em um dado momento da seleção, lembrei que os objetivos da educação, dentre eles, a profissionalização consta da LDB e são direitos dos adolescentes, portanto, a apropriação, valorização e defesa dos seus direitos, bem como o fortalecimento da democracia, passam pela promoção e o conhecimento desses direitos – percebi na hora que a questão é outra, direitos é extravagância, alegoria, luxo, retórica vazia para cínicos depravados. 

Para finalizar, tudo muito bem enfeitado com trechos e citações de autores consagrados na educação, ciências sociais, psicologia, filosofia, como Paulo Freire, Erich Fromm, Célestin Freinet, Pierre Bourdieu. Seria cômico, se não fosse trágico, constatar o nível exorbitante de cinismo, oportunismo e demagogia com que se utilizam, da obra e nome desses grandes intelectuais, como grife e/ou pedigree para ornamentar projetos indigentes, cujo único objetivo é justificar elevados “custos” e proceder a manutenção do status quo. É nauseante observar como descolam, deliberadamente, a obra e o nome desses autores da sua biografia. Paulo Freire foi um intelectual-militante popular e socialista, dedicou sua vida e obra as questões populares e sociais do seu tempo, sua obra articula educação e política, foi ainda um quadro político de esquerda e fundador do PT. Erich Fromm foi um dos grandes psicanalistas e filósofos da Escola de Frankfurt, capaz de articular marxismo com psicanálise, foi ainda membro do círculo comunista alemão ao lado de Wilhelm Reich e um dos grandes estudiosos e combatentes do nazi-fascismo. Freinet foi educador popular, membro do partido comunista francês, marxista-stalinista, fundador da Escola Moderna, combateu na Resistência Francesa e viveu um tempo na URSS. Bourdieu foi um sociólogo francês estruturalista, em “O poder simbólico”, analisa as produções simbólicas como instrumentos de dominação, destacando os aspectos políticos dos sistemas simbólicos, afirma que a classe dominante impõe a legitimidade da sua dominação através de instrumentos como a arte e a educação. 

Enfim, durante o processo, muitas contradições vieram à tona, muitas críticas à boca, sentimento profundo de indignação, revolta, asco. Engoli tudo – ou quase -; lembrei apenas que muitos dos citados não eram meros intelectuais de gabinete, todos foram homens públicos e comprometidos com as causas populares e sociais de seu tempo. Se a desonestidade fizesse concessão ao pudor, se envergonhariam de citar esses grandes homens, militantes, intelectuais! Cansado de tanta farsa, dissimulação, encenação, oportunismo, desonestidade. Exausto do mercado e de tanta mediocridade. Não procuro mais emprego no Sistema S, não quero mais participar dessas farsas de processos seletivos e projetos, porque denunciar e resistir a isso é também lutar pela educação.







   

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

"Os sertões": olhares sobre a tradição autoritária e movimentos populares no Brasil.

No capítulo intitulado "A luta", Euclides da Cunha inicia-o chamando a atenção para o contexto de conflitos que permeavam a região. Esses conflitos se inserem no contexto da Lei de Terras de 1850, na tradição Messianista na sociedade e na ampliação das Forças Armadas na política após a Guerra do Paraguai. Com o objetivo de disciplinar o direito agrário no país a Lei de Terras acabou por consolidar a terra como mercadoria, fortalecendo o latifúndio e as oligarquias, promovendo problemas de natureza política, social e religiosa; posto que a reorganização oligárquica da terra favorecesse a manutenção da concentração de terras e a exploração pelos grandes proprietários.
As oligarquias agrárias, cuja origem remonta as sesmarias passando à aristocracia imperial, insatisfeitas com o centralismo político da monarquia, reivindicavam cada vez mais autonomia para administrar os seus negócios. Do ponto de vista objetivo, tratava-se de consolidar em cada província, sua própria estrutura de poder assegurando o domínio regional sem a interferência do governo central – conforme a época das sesmarias em que cada capitania respondia pela administração política, jurídica, militar e eclesiástica do domínio territorial. Com efeito, após a Guerra do Paraguai ocorre à organização sistemática desse processo pelo Estado, quando se inicia a “politização dos militares e a militarização da política brasileira.[1]” Ao lado destes aspectos políticos, a questão climática causa o horror e o desespero nas populações camponesas do nordeste. As secas que devastaram os sertões de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará ocasionaram a crise na produção, a fome e o deslocamento em massa de populações para as capitais e a região sudeste – secas de 1877/79[2].
De fato, os movimentos pré Canudos como o do Reino Encantado e da Pedra Bonita surgem nesse contexto como uma reação dos camponeses a estrutura social e condições materiais a qual estavam submetidos. Liderados por beatos que surgiram após a Confederação do Equador, produto da miséria e seca que flagelavam os sertanejos ao lado do centralismo e da ordem senhorial dos grandes proprietários. O Reino Encantado de 1836, na divisa de Pernambuco e Paraíba, acabou vencido pela Guarda Nacional e destruído em 1838. Ainda em 1838, o beato José Pereira de Pedra Bonita em Pernambuco, inspirado pelo Sebastianismo organizou uma matança e após ceifar a vida de animais, velhos, crianças e as mulheres do povoado acabou assassinado pelo próprio irmão quando, a seguir, a Guarda Nacional atacou a comunidade executando os sobreviventes.[3]

O governo da Bahia, quando confronta o povoado de Canudos, já enfrentava diversas insurreições e desordens em diversas cidades e vilarejos do sertão, como em Lençóis, Lavras Diamantina, Jequié. Por diversas razões, sobretudo, ligadas a terra, ao clima, a miséria e o fanatismo religioso, mobiliza camponeses e jagunços contra os poderes locais e a ordem estabelecida. Produto da tradição positivista de tendência darwinista, a “genealogia euclidiana” se estende da terra ao homem, culminando na luta entre civilização e barbárie. Nessa perspectiva, atribui o modo de vida e a cultura do homem sertanejo - caráter predador, errante, ocioso, displicente - às condições adversas do ambiente em que ele desenvolve-se, posto em uma sequência linear que avança do colono desbravador, aventureiro e "saqueador da terra" ao jagunço "saqueador de cidades", cujo fim último é apenas a sobrevivência.

Gilberto Freyre em “Casa Grande e Senzala” chama a atenção para esse traço da colonização portuguesa, de modo que salienta a empresa da colonização lusitana a se sustentar sob a “corajosa iniciativa particular” do colonizador português que “concorrendo às sesmarias, dispôs-se a vir povoar e defender militarmente, como era exigência real, (...)”. Freire argumenta que assentada na “família rural/patriarcal”, desenvolveu-se aqui uma sociedade “(...) defendida menos pela ação oficial do que pelo braço e pela espada do particular”. Assim, estavam lançadas as bases em que estabelecer-se-iam os padrões que determinariam as relações sociais no Brasil; em vez de servidão, submissão; no lugar de movimento social; coragem pessoal. 

Assentada na família rural patriarcal, essa ordem se constituiria em uma “(...) força social que se desdobra em política”. Freire vai argumentar que do século XVI ao XVIII a colonização portuguesa no Brasil caracterizar-se-ia pelo domínio quase que exclusivo da família rural e semi-rural. Assim, a obra da colonização brasileira deveu-se a organização familiar de caráter senhorial, não ao Estado português ou a alguma companhia burguesa de comércio[4].

Raimundo Faoro, por sua vez, ressalta que a Península Ibérica caracteriza-se por constituir a sua sociedade “(...) sob os signos da guerra e da conquista”. O período turbulento de consolidação do Estado português, observa Faoro, privilegiou o desenvolvimento de uma “concepção ibérica da natureza humana”, uma “cultura da personalidade”, que definia-se pelo valor dado a autonomia do homem e a ausência de qualquer tipo de dependência[5]. Assim, o centro de toda organização na colônia seria a família rural patriarcal, assentada no latifúndio, estabelecida na ordem do Estado patrimonial português, caracterizada por relações de poder mediadas pela violência. Deste modo, nesse contexto, cada estrato social elabora e justifica a sua conduta através de um sistema organizado assentado em relações de poder que estabelecem o "outro" não apenas como “estranho”, mas como o “inimigo” e a "mentira" que se opõe à "verdade" e/ou o "mal" que se opõe ao "bem" numa ordem estabelecida pela dominação e exploração - luta de classes em estado bruto.

Produto do Positivismo do século XIX, em Euclides tudo revela as contradições entre a terra e o clima, entre os homens e o ambiente, a civilização representada pela República e a barbárie pelos que a rejeitam, compondo um mosaico aonde estas se mesclam e adaptam-se, produzindo homens e cultura singulares, amalgamando uma complexa trama de relações sociais determinadas pela força, pelos "contrastes e confrontos", titulo bastante apropriado de outra sua obra. Minucioso observador, a crítica de Euclides não se abstém dos aspectos estruturais relevantes na composição do meio sertanejo - a força política da Igreja e das oligarquias latifundiárias diante da complacência estatal -, tampouco ignora, no entanto, as notáveis qualidades do camponês simples e rústico.

Assim, destaca que Antonio Conselheiro era homem cuja reputação de místico, profeta e justo sobre as paragens do sertão, atravessava todo o nordeste já há duas décadas, incomodando os poderes locais - políticos, econômicos e eclesiásticos. Entre o confronto do Conselheiro e o povo de Canudos com o magistrado local - motivado por determinações econômicas, políticas e sociais, dissimulado por razões comerciais -, passaram-se 15 dias até o enfrentamento com as tropas militares - surpreendidas por outra tropa de jagunços apoiada por habitantes das cidades satélites fiéis ao Arraial do Conselheiro. O desfecho desse primeiro combate nos arredores do povoado de Uauá, a despeito das reduzidas baixas entre os soldados em comparação com o elevado numero de mortes entre os Canudenses, consagrou a bravura e a ousadia da tropa de Canudos espalhando o mito do “heroísmo santo e abençoado” entre a população local, sobretudo, devido à retirada apressada, desorientada e abatida dos soldados.

Após a primeira retirada das tropas oficiais, organizou-se a segunda expedição com efetivos redobrados - em armamentos, suprimentos e homens -, no esteio das noticias e boatos que se espalhavam nos povoados e nas capitais sobre o fracasso militar. Observador atento - dos fatos, do meio, dos homens e da historia -, Euclides logo identifica os motivos do fracasso de uns e o sucesso de outros. Assim, chama a atenção para o “combate de movimento” dos jagunços - tropas móveis, irregulares, "agindo folgadamente" conforme as vicissitudes do terreno e da luta, em oposição à guerra de posições levada a efeito pelas tropas regulares. Deste modo, o historiador Euclides não negligencia o traço característico do sertanejo, herdeiro do “colono e do bandeirante”, guerreiros e conquistadores que com forças reduzidas subjugaram tribos, quilombos organizados e revoltas nativas - "dividir para fortalecer". Nesse sentido, sustenta que tanto o jagunço "solerte e bravo" impunha esse tipo de luta as tropas, quanto "a natureza excepcional que o defendia" – atento observador da historia e do campo de batalha. Amparado na luta pela natureza “tão rude e hostil quanto si próprio”, o jagunço - um “esquadrinhador nativo da caatinga” -, torna-se o "guerrilheiro-tugue, intangível..." Eis a aliada que o estrategista teórico ignora, apegado as suas infalíveis táticas, sofisticada parafernália bélica e rigorosa disciplina militar.

Como Euclides apreende, a natureza não apenas esconde o jagunço, mas, o ampara transformando o campo de batalha em labirinto de emboscadas promovidas por "atiradores invisíveis" - tanto na emboscada, quanto na espionagem às tropas nas cidades e acampamentos, misturados, escondidos e dissimulados entre a população."A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado fazendo vacilar a marcha dos exércitos." (Anteu, filho de Poseidon e Gaia, na mitologia grega, foi um Titã cuja invencibilidade resultava do contato direto com a Terra. Foi derrotado por Hércules quando este o suspendeu no ar em combate). 

Conhecedor da Historia e Filosofia, Euclides é preciso e objetivo nas metáforas, ao mostrar-nos, assim, a simbiose entre o homem e a terra. Euclides era, além de dedicado cientista, um homem público comprometido com o desenvolvimento do seu país. Deste modo, estava atento as determinações políticas por trás da “cortina de fumaça da artilharia”, lançando o olhar sobre as motivações regionais e nacionais, naquilo que considerou - não sem algum exagero - a nossa Vendéia (conflito civil que se seguiu a Revolução Francesa, de caráter camponês, religioso e contrarrevolucionário que estendeu-se pelo norte da França durante cerca de cinco anos causando aproximadamente 200 mil mortes). Guardadas as devidas proporções, em todos os aspectos, havia naquele período, sobretudo, entre os protagonistas da recém criada Republica brasileira, um enorme temor em relação a movimentos de caráter contrarrevolucionário – monarquistas - nas forças armadas, políticas e civis. Embora não tenham encontrado resistência de caráter monarquista, as forças Republicanas enxergavam com extrema desconfiança e hostilidade qualquer manifestação critica ou mesmo exterior aos círculos republicanos, sobretudo, após as Revoltas da Armada e o movimento Federalista gaúcho.
Na incipiente República, o olhar atento do homem público tampouco ignora os embates entre o Estado e a União, determinados mais por interesses locais no jogo do poder do que por aspectos de caráter constitucional, em termos de independência e autonomia entre os poderes e/ou Estados e União. Percebe, assim, que as diferenças - veleidades e vaidades - entre o governador baiano, suas forças e os comandantes militares da União os dividem, fortalecendo os jagunços - sobremaneira subestimados em numero, disposição e competência por ambos. É nesse contexto de construção da "soberania nacional" que se lança o olhar euclidiano sobre o movimento de Canudos. 


A importância da natureza como aliada do sertanejo, diante das condições adversas em que viviam os homens daquelas terras, em termos de recursos naturais e materiais - espécie de cumplicidade ambígua -, caracteriza o seu relato minucioso, preciso e contundente. Não há meias palavras, tergiversações, retórica. Euclides se posiciona e não minimiza a revolta, a desilusão e a critica em relação a Republica que havia idealizado, lutado e ajudado com sacrifícios e altruísmo a construir. Na sua pena, além do cientista, jornalista e político, sobretudo, revela-se o homem solidário com os seus iguais, porem, não idênticos.
 
A esse respeito, seguem suas impressões sobre o povoado de Monte Santo:
"O povoado triste e de todo decadente reflete o mesmo abandono, traindo os desalentos de uma raça que morre, desconhecida a historia, entre paredes de taipa." (pp.112)


O relato de Euclides, antes, porem, diz-nos muito tanto sobre a dureza do sertão e a resiliência do sertanejo, quanto à visão do homem urbano, cosmopolita e esclarecido que ele representava. Apreende-se, nos seus relatos, o impacto e o atrito ocasionado pelas contradições entre a "civilização" – urbana e republicana - e a "barbárie" - o sertão messiânico. A distancia entre os homens não era apenas material, geográfica e temporal - posto que se considera no arcabouço do conceito de civilização, antes as características de desenvolvimento cultural, científico, moral e político. Assim, o seu olhar atento revela não apenas os antagonismos de ordem cultural, sobretudo, aqueles assentados nas condições materiais estabelecidas pelo latifúndio e as oligarquias locais. Deste modo, a campanha de Canudos, de ambos os lados, caracteriza-se por determinações estruturais. Do lado dos militares, além do forte traço positivista, percebe-se a crença na superioridade incondicional e irrestrita da civilização e tudo o que ela representa - o Estado, as leis, a ordem, o progresso. Por sua vez, ao lado dos populares, a convicção na fé, no bem, na verdade e na justiça divinas, revela a realidade de privações e abandono materiais que subjugavam o sertanejo, abandonados as relações sociais de subserviência, violência e dependência da terra às quais se submetiam há três séculos. Desse modo, percebe-se em ambos a condição que se impõem de antagonismo latente e deslumbramento hostil e prepotente, assentado na convicção da superioridade - mística ou material -, que se afirmava na ignorância e desprezo em relação ao outro – incompatível com qualquer projeto republicano.

Enquanto pela manhã os oficiais militares acreditavam que "almoçariam" em Canudos, o profeta tinha a convicção que a sua "vitória era fatal" e, mais ainda, que "os invasores não veriam sequer as torres das igrejas sacrossantas". Esse foi o ambiente encontrado por Euclides, pano de fundo perfeito para um morticínio de proporções épicas. As forças do governo - exercito e polícia -, conforme a mais estrita e rigorosa tradição militar francesa e prussiana - táticas, estratégias, armamentos -, rendiam-se impotentes diante da incompatibilidade imposta pelo terreno acidentado e o adversário guerrilheiro, disperso, invisível e indelével; batidos Pires Ferreira e Febrônio de Brito – oficiais militares -, ressabiados pela assombrosa derrota, ressentindos pelo clamor da opinião pública, apelam ao governo, resignavam em apelar ao experiente, condecorado, emblemático e sanguinário coronel Moreira Cesar. 

Moreira Cesar era produto da era Floriano Peixoto – o jacobino da Republica. Condecorado veterano das Revoltas daquele período - Armada e Federalista. Assim, havia naquele momento componente perigoso na sociedade, resultante do clima tenso e de temor ocasionados pelas constantes revoltas que caracterizaram os primeiros anos da Republica recém inaugurada. Clima por sua vez, propício aos excessos, desmandos e a consagração de homens severos e bárbaros como Moreira Cesar. Assim, no vácuo da Republica e das Revoltas subsequentes, temos o surgimento e o embate de um lado, de movimentos de caráter nativista exacerbados e, de outro, uma espécie de jacobinismo no âmbito do governo republicano. Nesse contexto, o Exercito consagrava-se como protagonista e Moreira Cesar como o seu estandarte. Em Canudos a sua expedição traria o seu emblema e se consagraria como a vingadora contra os inimigos da República.
  
A mobilização e o assalto vertiginoso e célere a Canudos viriam acompanhados pelo previsível e inexorável fracasso, conforme o militar e historiador Euclides avistava. A megalomania de Moreira Cesar subestimava tanto o sertão quanto o sertanejo e, exigia uma espécie de "Blitzkrieg" da época – campanha arrasadora, implacável e aniquiladora. Penso quanta falta não lhe fez breve leitura das campanhas de Aníbal e Napoleão – sintomático do desprezo militar brasileiro pela historia. Subestimava que as vitórias dos sertanejos granjeavam cada vez mais simpatizantes e adeptos, avolumando as suas tropas, posto que Canudos fosse também o principal povoado daquela região – estima-se em 25 mil habitantes a população do povoado, menor apenas que a capital baiana. A mística do arraial santo crescia com a fé e a crença na invencibilidade contra o "mal" republicano, personificado no "Anticristo" Moreira Cesar, representante da República, expressão máxima do governo maldito – laico, republicano, urbano, liberal. 

A terceira expedição fez-se no final do verão de 1897, consumida sistematicamente pelo clima e natureza inóspitos e implacáveis. Assim, além disso, a disposição do soldado brasileiro, conforme a sua tradição, diferente das tropas europeias rigorosamente treinadas e disciplinadas, moldava-se de um lado, pelo seu espírito intrépido e, de outro, pelo caráter do seu líder - Moreira Cesar. Deste modo, Euclides observava os perigos que se apresentavam a tropa naquele contexto:
"Os grandes estrategistas têm, instintivamente, compreendido que a primeira vitória a alcançar nas guerras está no debelar esse contágio de emoções violentas e essa instabilidade de sentimentos que com a mesma intensidade lançam o combatente nos mais sérios perigos e na fuga". (pp.143)

De tal modo Moreira Cesar ordenou o assalto rápido, renunciando a artilharia, oferecendo o combate no terreno inimigo. Assim perdeu-se no labirinto do arraial, entre os escombros das casas, abandonado pela artilharia; desfez-se e sucumbiu ao assalto sorrateiro da jagunçada dispersa, furtiva, ágil e em vantagem numérica e estratégica. Diante do iminente fracasso, restava o desespero e a cavalaria e, com ela pereceria o grande coronel Moreira Cesar.

Impôs-se assim a retirada - fuga desesperada - e o fim da terceira expedição, sob os despojos de farto armamento e munições, centenas de cadáveres, entre eles os dos veteranos oficiais Moreira Cesar e Tamarindo. Solapada a imponência do governo, aliada a brutalidade dos combates, revigorava-se o "misticismo e a rudeza" do jagunço. Se a segunda expedição já causara comoção publica na capital federal, a queda da terceira, com os seus oficiais mártires, precipitariam o terror. O pânico, aliado a ignorância, prepotência e a desinformação, era o combustível da reação e do ódio. Afinal, não só era imperativo vencer, como ainda justificar o fracasso, assim, os jagunços miseráveis e abandonados do sertão foram promovidos a artífices da contrarrevolução monarquista a serviço das casas nobres lusitanas – o terror antirrepublicano. Eis o mantra do desatino:
"A República estava em perigo; era preciso salvar a República."
"Não há quem há esta hora não compreenda que o monarquismo revolucionário quer destruir com a República a unidade do Brasil." (pp.158)

A guerra tornara-se total - incondicional e irrestrita -; travada nas ruas da capital e nos gabinetes oficiais, nas redações inflamada pela pena da imprensa. Assim, não bastava à mobilização federal, era imperativo acionar as forças policiais dos Estados e arregimentar batalhões civis para a revanche. A guerra de desinformação e terror seguia célere e sem limites:
"É que estava em jogo, em Canudos, a sorte da República. (...) Diziam-no informes surpreendedores: aquilo não era um arraial de bandidos truculentos apenas. Lá existiam homens de raro valor — entre os quais se nomeavam conhecidos oficiais do Exército e da Armada, foragidos desde a revolta de setembro, que o Conselheiro avocara ao seu partido." (pp.161)
Com um enorme contingente de soldados - totalizando cerca de um terço (perto de 12 mil homens) de todo o efetivo à época, mobilizados em 17 Estados pelo próprio Ministro da Guerra - e reforço de artilharia pesada, iniciou-se a quarta expedição contra o arraial de Canudos. Em junho de 1897, duas colunas estavam em ação, à primeira sob o comando do General Silva Barbosa vê-se em situação desesperadora diante das emboscadas levadas a efeito pela jagunçada entocada sob as ordens do líder Pajeú. No Morro da Favela, (...) "a primeira coluna estava aprisionada. Por mais estranho que se afigure o caso não havia aos triunfadores um meio de sair da posição que tinham conquistado." O seu comandante, veterano da Guerra do Paraguai, assegurava ainda em relatório que nem naquela guerra havia presenciado cerco e fogo tão implacável quanto ao que estavam ali submetidos.
"(...) o chefe expedicionário se confessou impotente para descrever a imensa "chuva de balas que desciam dos morros e subiam das planícies num sibilo horrível de notas", que atordoavam. Por sua vez o comandante da 1.ª coluna afirmou em ordem do dia, que durante cinco anos, na guerra do Paraguai, jamais presenciara coisa semelhante." (pp.176)

A segunda coluna, sob o comando do General Savaget, após longa e penosa marcha e inúmeras emboscadas, consegue em fins de junho chegar ao campo de batalha em socorro da primeira. A tempestade de fogo de artilharia vinda do Morro da Favela duraria meses. O destemor da jagunçada diante do fogo dos canhões impressiona, atemoriza e abala o moral da tropa. Em julho, exauridos pelas privações, sacrifícios e baixas dos combates, é organizado o "Grande Assalto" a Canudos. Todo o efetivo foi mobilizado - cerca de 3,5 mil soldados investem contra o povoamento. Recebidos com emboscadas e fuzilaria, são forçados a recuar ao final do dia com quase mil baixas - dentre eles os comandantes de brigadas, Carlos Teles, Serra Martins e Antonino Néri. O "Grande Assalto" é um retumbante fracasso. Eis o panorama perturbador e fatal naquele momento:
"A luta pela República, e contra os seus imaginários inimigos, era uma cruzada. Os modernos templários, se não envergavam a armadura debaixo do hábito e não levavam a cruz aberta nos copos da espada, combatiam com a mesma fé inamolgável. Os que daquele modo se abatiam à entrada de Canudos tinham todos, sem excetuar um único, colgada ao peito esquerdo em medalhas de bronze, a efígie do marechal Floriano Peixoto e, morrendo, saudavam a sua memória — com o mesmo entusiasmo delirante, com a mesma dedicação incoercível e com a mesma aberração fanática com que os jagunços bradavam pelo Bom Jesus misericordioso e milagroso (...)"(pp.202)
Traço do “jacobinismo” no qual se assentava à primeira Republica – ímpeto vingativo, ensejo de fúria que nada diz respeito à construção de uma ordem nacional que se impõem para além da força bélica. Quando Euclides chega a Salvador, no inicio de agosto e diante do fracasso do "Grande Assalto", o General Artur Oscar já havia mobilizado cerca de 5 mil reforços e a famosa "Brigada Girard", temida pela sua ferocidade demonstrada em combate, formada por 1.090 homens apresentou-se no campo de batalha no dia 15 com menos de 800 homens - tendo inclusive declinado o seu comandante. "De 25 de junho, em que trocara os primeiros tiros com o inimigo, até 10 de agosto, tivera a expedição 2.049 baixas." 

No final de agosto o próprio Ministro da Guerra, Marechal Carlos Machado Bittencourt, instala-se em Monte Santo - local em que se instalou a base de operações - com um novo reforço de três mil homens, seguindo-se combates ferozes a cada dia mais difíceis devido ao cansaço e as privações, ocasionados pelo esgotamento de recursos materiais e suprimentos – água, remédios e alimentos. Em setembro, o exército toma a Fazenda Velha, ponto estratégico para o bombardeio a Canudos. Bloqueada a estrada da Várzea da Ema, fecha o cerco ao arraial após 04 meses de luta. 

O Marechal Bittencourt era homem experimentado no Paraguai, de temperamento frio, impassível, lacônico. Disciplinado, completava a sua frieza o rigor extraordinariamente técnico-burocrático. Assim, venceu a guerra antes superando as dificuldades de ordem logística que o terreno impunha organizando "(...) um corpo regular de comboios, atravessando continuamente os caminhos e ligando de modo efetivo, com breves intervalos de dias, o exército em operações a Monte Santo. Este resultado pressagiava o desenlace próximo da contenda."

Todavia, apenas em outubro, após a mobilização de cerca de seis mil homens as suas tropas conseguem tomar as ruínas da "igreja nova." A despeito do reduzido efeito prático, tal feito foi bastante celebrado. No entanto, a guerra ainda não havia terminado, as tocaias dos jagunços seguiam espreitando por entre os escombros da vila, através de túneis, buracos, becos, arbustos, morros. Diante das elevadas baixas o exército incendiou o que havia restado da terra, queimando tudo o que sobrara - corpos, casas, animais, armas. Assim, a campanha de Canudos estava encerrada. O Conselheiro falecera ainda em setembro de 97, encerrando o reduzido ânimo que ainda sobrava nos combatentes moribundos que restavam. Ao final, sobram apenas alguns poucos resistentes, muitas mulheres, crianças, idosos e moribundos famélicos para a sanha feroz das tropas ensandecidas e embrutecidas.
"Numa das refregas subseqüentes ao assalto, ficara prisioneiro um curiboca ainda moço que a todas as perguntas respondia automaticamente, com indiferença altiva:
"Sei não!" Perguntaram-lhe por fim como queria morrer. "De tiro !"  "Pois há de ser a faca!" contraveio, terrivelmente, o soldado. Assim foi. E quando o ferro embotado lhe rangia nas cartilagens da glote, a primeira onda de sangue borbulhou, escamando, à passagem do último grito gargarejando na boca ensangüentada: "Viva o Bom Jesus !..." (pp.212)
 
O final é trágico e vergonhoso, de formação militar, Euclides repugna a ação do exercito: "Os soldados impunham invariavelmente à vítima um "viva à República", que era poucas vezes satisfeito. Era o prólogo invariável de uma cena cruel. Agarravam-na pelos cabelos, dobrando-lhe a cabeça, esgargalando-lhe o pescoço; e, francamente exposta à garganta, degolavam-na. Não raro a sofreguidão do assassino repulsava esses preparativos lúgubres. O processo era, então, mais expedito: varavam-na, prestes, a facão. Um golpe único, entrando pelo baixo ventre. Um destripamento rápido... Tínhamos valentes que ansiavam por essas cobardias repugnantes, tácita e explicitamente sancionadas pelos chefes militares. Apesar de três séculos de atraso, os sertanejos não lhes levavam a palma no estadear idênticas barbaridades." 

Por fim, não renuncia a consciência, assumindo a missão de denunciar o crime, posto que a "(...) História não iria até ali." A despeito da denuncia, da analise e da crítica contundente de Euclides, o exercito brasileiro, poucos anos depois levaria a efeito campanhas vergonhosas e assassinas contra o próprio povo – Contestado e 1924 em São Paulo. No Brasil da República Velha, segundo a visão da classe política e das oligarquias que ela representa, “a questão social é caso de polícia[6]”. A clareza de Euclides sobre o papel da Republica deveria ser a divisa do Estado:
"Decididamente era indispensável que a campanha de Canudos tivesse um objetivo superior à função estúpida e bem pouco gloriosa de destruir um povoado dos sertões. Havia um inimigo mais sério a combater, em guerra mais demorada e digna. Toda aquela campanha seria um crime inútil e bárbaro, se não se aproveitassem os caminhos abertos à artilharia para uma propaganda tenaz, contínua e persistente, visando trazer para o nosso tempo e incorporar à nossa existência aqueles rudes compatriotas retardatários." (pp.226)

Canudos inaugura o século XX republicano brasileiro. É emblemático que aconteça durante a vigência do primeiro governo civil. O conflito “republica versus monarquia”, dissimula à questão agrária latente, o fardo das elites oligárquicas representantes dos barões do Império incrustadas no Estado e todas as contradições do antigo regime de uma sociedade assentada na dominação, exploração, concentração do poder político, econômico e da terra. Canudos não cabia nem no antigo regime oligárquico, tampouco nesse novo ideal republicano civilizado e urbano de elites. Quando o jovem jornalista Euclides foi ao Arraial de Canudos, o moribundo ideal republicano pelo qual havia se entregado com dedicação e entusiasmo jazia sob a cova rasa de homens, mulheres e crianças trucidados impiedosamente pelas forças armadas republicanas. Contemporâneo de Machado de Assis logo percebeu a miséria do jornalismo que estigmatizava o sertanejo, a pobreza e o Conselheiro e criminalizava as suas reivindicações e modo de vida – tal qual João do Rio e Lima Barreto uma década depois. Mais de um século depois e após três décadas de democracia, ainda hoje ignoramos o  “inimigo mais sério a combater” e, “a questão social” continua sendo “caso de polícia”.



Referencias

CARDOSO, F. H., Autoritarismo e Democratização, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
CUNHA, Euclides, Os Sertões, acessado in: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000091.pdf (em maio de 2015).
FAORO, Raimundo, Os donos do poder: formação do patronato brasileiro. 8ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 1989.
FREIRE, Gilberto. Casa grande e senzala, Brasília: UnB, 1963.





[1] CARDOSO, F. H., Autoritarismo e Democratização, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
[4] FREIRE, Gilberto. Casa grande e senzala, Brasília: UnB, 1963.
[5] FAORO, Raimundo, Os donos do poder: formação do patronato brasileiro. 8ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 1989.
[6] Frase atribuída ao ex-presidente e ex-governador de São Paulo Washington Luis.
http://observatoriodaimprensa.com.br/tv-em-questao/a-questao-social-como-caso-de-policia/