segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Pai



O pai era um tipo rústico. Do tipo que resmungava. Era tão tosco e limitado que se orgulhava disso. Orgulhava-se da sua grosseria, da sua ignorância. Não que fosse burro, não era; apenas não era dado ao dialogo e afabilidades. Vivia em silencio e mal-humorado. Seu habito era a reclamação – sempre reclamava de tudo e todos. Muitas vezes não falar era recurso para ignorar, demonstrando de forma solene seu desprezo pelo outro. Deboche era para ele demonstração cínica de simpatia. Dissimulado, debochava do outro de forma pouco perceptível. Avaro, mesquinho, sovina. Escondia e controlava rigorosamente a comida da casa. Nada servia ou fazia com gosto, prazer, satisfação aos outros. Comprava tudo sempre do mais barato e da pior qualidade. Sempre em quantidades mínimas. Sempre era ele quem comprava. Não permitia que ninguém o fizesse porque era inimaginável para ele que outras pessoas pudessem manipular o seu dinheiro. Todos deviam comer apenas o que ele comia, na quantidade que ele desejasse, do modo como ele queria e na hora que ele o fizesse. Exemplo: se alguém estivesse na sua casa e acordasse antes dele, ficaria com fome até a hora que ele despertasse e comprasse os pães. Impossível encontrar uma moeda para comprar um pão que fosse sem precisar pedir para ele. Ou se fica com fome ou se come o que tiver – quase sempre uma água e sal da pior possível – ou se espera a sua boa vontade em levantar e comprá-los. Quando ele sabia que eu estava acordado antes dele, esperava eu sair para levantar e comprar os pães para que eu não os comesse. Ele, por sua vez, comia vorazmente beliscava escondido o dia todo para não comprometer a sua falsa imagem de austeridade. Sua filosofia era: “ralo abaixo.” Dentro da sua lógica miserável, tudo ia para o “ralo abaixo”, portanto, nada valia à pena comprar – principalmente itens de higiene pessoal.
Na verdade a sua grande questão era o dinheiro. Detestava gastá-lo com qualquer coisa que não fosse exclusivamente por ele decidido. Alias, mal gastava consigo mesmo – apenas com jogos de loteria e do bicho. Não aceitava compartilhar o seu dinheiro com ninguém. Seu prazer e desgosto era obrigar as pessoas a pedir-lhe. Nesse momento podia te humilhar de várias maneiras – com questionamentos, dúvidas, desprezo, deboche. Assim, o stress começava antes. Porque era certa qualquer dessas manifestações da sua parte, restava apenas saber se após isso ainda recusaria a quantia – sempre barganhava também, oferecendo menos dispondo de mais ou exigindo que se pedisse a quantia rigorosamente exata para dar com desgosto. O seu deboche consistia quase sempre em resmungos de desdém ou risos sutis e sarcásticos. Soberbo, buscava sempre desprezar, ignorar ou desqualificar qualquer demonstração de conhecimento, senso crítico ou pensamento abstrato. A única prova axiomática, incontestável e irrefutável de saber para ele era econômica – dinheiro, bens, posses.


Sujeito deliberadamente intratável. Extremamente reservado, metódico, medíocre. Empenhava-se em tornar a vida de quem não gostava - fosse quem fosse - insuportável tanto quanto lhe fosse possível. Para tanto não media esforços: ignorava, desprezava, desdenhava. Não tinha o menor pudor em fechar a porta na cara de qualquer pessoa sempre que possível – fazia isso todos os dias na minha. Nem em desligar o telefone na cara. Nem em cobrar sem cerimônias. Jogava na cara qualquer favor e negava tudo sempre que possível – até água, comida. Quando minha mulher estava grávida nos tratava com desprezo na sua casa e nunca nem por educação ofereceu-nos a cama nem um único dia. Nunca teve o menor pudor também em fazer distinção entre os filhos e demonstrar preferência por um em detrimento do outro. Isso transbordou para as noras e netos. Sem pudores, culpa ou vergonha. Antes de usar drogas e cometer todas as insanidades que cometi já era ausente, omisso, negligente. Nunca se interessou pelos meus estudos – do infantil a pós-graduação -, pela minha vida afetiva ou sexual, pelas minhas amizades, gostos, hábitos, objetivos, sonhos. Antes disso tudo também já demonstrava sua preferência. Penso que começou quando fui trabalhar, aos 15 anos e logo comecei a tomar as rédeas da minha vida, sem referência alguma, orientação, diálogo, admiração, incentivo, confiança e respeito. Assim, logo comecei a buscar outros referenciais no trabalho, na rua, na escola. A ausência de tudo errei muito e descontava minhas decepções, raivas e frustrações nos vícios. Nunca se interessou por saber o que pensava ou sentia sobre qualquer situação, mas, não hesitava em depositar ou transferir a culpa de tudo nas minhas costas. Em tudo, eu só podia ser o único culpado ou responsável.

Homem de hábitos simples e moderados, fumou muito pouco - parou antes do meu nascimento -, nunca usou drogas e após dez anos de Brasil e três de namoro casou-se. Bebia sempre no mesmo dia – as sextas – as mesmas bebidas, com as mesmas pessoas, no mesmo lugar e a mesma quantidade. De casa para o trabalho e do trabalho pra casa. Sem escalas, sem conversa, sem surpresas. Em 36 anos não me lembro dele assistindo um filme sequer uma única vez nem na televisão. Em casa a rotina era banho, janta e cama. Para ele, um bom “pai de família” resume-se a isso, nada mais – comida na mesa e contas pagas.
Tem até hoje a convicção de que fez e faz mais do que a média e por isso acha que o mais é favor. Conforme não tenha consideração, respeito ou afeto pensa que não tem obrigação alguma com os filhos maiores de 18 anos então tudo o que faz é contrariado, com raiva, desgosto e má vontade.
Justiça seja feita, nunca nos bateu e sempre foi homem trabalhador; dedicou sua vida ao trabalho – trabalho é vida? Fez a fortuna alheia e mendigou a Previdência. Alem do trabalho tudo o mais lhe era indiferente. Filhos, mulher, política, cultura. Nada de musica, cinema, política, história, poesia, filosofia, arte. Interessa-se apenas pelo futebol, raramente por outros esportes. A isso se resume a vida de um homem digno.

2 comentários:

  1. é nesse espelho por qual você se inspira Mario? jogando tudo para ao alto, desmerecendo pessoas que acreditam em ti? é tudo muito simples quando se elege um culpado, um desafeto. é tudo tão simples quando se machuca os outros. nisso tudo você se esqueceu de que pessoas possuem sentimentos. boa sorte nos estudos.

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  2. Nao entendi o que é "dez anos de Brasil"

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