sexta-feira, 24 de maio de 2013

A filosofia da existência e da angustia.

Há duzentos anos Sören Aabye Kierkegaard nascia em Copenhagen na Dinamarca - 05 de maio de 1813. De formação protestante, cresceu em um ambiente impregnado pelo fanatismo religioso, ouvindo o pai ler a Bíblia e os seus sermões. Consta que o pai de Kierkegaard levasse uma vida pouco ortodoxa para os padrões da época e que ele mesmo, na juventude, tivesse experimentado alguns excessos – como Baudelaire, Rimabaud, Dostoievski, Van Gogh. Sua mãe, por exemplo, foi à segunda esposa do seu pai, sendo antes disso a criada da casa. Esse ambiente contraditório e ambíguo levou-o a desenvolver um caráter religioso fervoroso, obcecado pela visão de pecado e culpa e as suas implicações. Assim, passou a maior parte de sua vida como um pensador solitário, experimentando os infortúnios ocasionados pelos conflitos pessoais na relação com o pai e a seguir na sua própria vida afetiva e social, culminando com a própria Igreja e a ciência.
Homem do século XIX, sua obra revela o seu tempo. É no contexto de crise da religião e embates entre ciência e fé que a obra kierkegaardiana se insere. As transformações decorrentes da Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX), combinadas aos avanços científicos em todos os campos e o recuo da Igreja na Europa pós Iluminismo (sec. XVIII) leva o homem a angústia e ao desespero, na medida em que assiste as verdades incontestáveis da religião desmoronar uma após a outra.
As cidades se tornam metrópoles urbanas e industriais. Eis o contexto em que o jovem Kierkegaard vive e se desenvolve. Sendo assim, de um modo geral, ele ocupou-se das questões que o acometiam e entendia serem as fundamentais da filosofia do seu tempo, quais sejam: a crise do homem diante do mundo em constante e acelerada transformação. A comunicação, os meios de transporte, a física, a astronomia, a química e a biologia ampliam-se de forma rápida e constante, transformando o cotidiano das pessoas e colocando em xeque as diversas verdades, crenças e instituições seculares anteriores. A Revolução Industrial transforma a natureza e o homem, as relações sociais e a sociedade pavimentando o caminho do liberalismo. Nada resiste a “mão invisível.” A tudo se impõem e submete. É o triunfo do Capital sobre o homem, a natureza, o trabalho e a sociedade.
A filosofia de Kierkegaard insere-se nesse contexto, implica uma abordagem de um lado humanista e, de outro, existencialista, na medida em que postula uma visão individual dos problemas do mundo – colocando o homem impotente diante do poder da “mão invisível.” No âmbito de variadas crises, conflitos e contradições acentuadas, volta-se para o divino, entendendo que o homem enquanto individuo, dotado de livre arbítrio, pode por meio da consciência relacionar-se com a divindade e buscar viver de acordo com ela. Kierkegaard supõem que cada um pode fazer escolhas independentes e que elas determinam a sua existência[1].
Homem do seu tempo dialoga com a filosofia de Hegel[2], criticando o excesso de subjetividade que estabelece que a essência do homem seja tão somente abstrata, uma manifestação do pensamento. Assim, afirma que o pensamento e os sistemas de pensamento é que são abstratos, enquanto que a realidade é concreta. Para ele o anseio pela universalidade dos filósofos é mera abstração do singular, posto que apenas pode se apropriar da verdade subjetivamente. Afirma com convicção que a realidade se impõe aos sistemas e é ela que determina a vida das pessoas – anos mais tarde Marx[3] afirmará que “não é a ideologia que determina a vida, mas a vida que determina a ideologia.” Nessa perspectiva, nenhuma estrutura imposta do exterior - até os preceitos bíblicos - pode mudar ou diminuir a responsabilidade de cada indivíduo perante si e o criador. Na medida em que somos indivíduos únicos e que vivemos apenas uma vez, dá-se assim a importância do ser concreto – a parte que é mais que o todo. Temos aqui a primazia da existência e do individuo – pode-se dizer que há ainda algum estoicismo[4] na sua filosofia.
Kierkegaard entendia que cada pessoa existe em três planos de existência: o estético, o ético e o espiritual. Para ele, a maioria das pessoas vive uma vida estética superficial, incapaz de ir além da aparência, prazer e felicidade – uma espécie de epicurismo[5] depravado. Aqui ele entende que não há livre arbítrio, apenas subordinação aos desejos – oposto da vontade - dessa esfera e das convenções sociais. Os que vivem na esfera ética, por sua vez, buscam a verdade e o bem, colocando os interesses coletivos acima das veleidades individuais – espécie de platonismo. Por fim, a esfera mais elevada para ele seria a da fé – uma renuncia total de si e entrega ao criador. Assim, entendia ele que esta seria a única maneira de superar o plano da estética e da ética. Porque se a divindade é o criador-infinito, apenas no encontro dela é que se pode superar a condição humana (finita), o desespero e a morte.
Kierkegaard foi homem de poucas obras, seus textos reúnem-se em coletâneas, tendo publicado apenas O Desespero Humano, que trata da questão do desespero como o único mal para o qual não há cura. Para ele, nem a morte supera-o, posto que na concepção cristã já fosse vencida. Com efeito, a vida pessoal de Kierkegaard influencia e transparece na sua obra e, embora seus escritos reflitam a sua melancolia, trata, pois, de analisar a liberdade humana a partir da angústia e do desespero que fazem parte da sua vida e do homem cristão. Densa, complexa e sujeita a problemas de interpretação e significado, a sua obra suscita polemicas e controvérsias até hoje, na medida em que coloca questões humanas no âmbito do temporal e do eterno. Por outro lado, percebe-se que Kierkegaard é ousado, na medida em que esta tratando de questões que se baseiam na estrutura ontológica do ser humano - sentimentos. Ao contrário de muitos outros filósofos ele busca entender a existência e a liberdade humanas não pela racionalidade, mas pelos sentimentos que estão conectados a existência. Para ele a existência individual é para ser vivida, dispensando ser explicada racionalmente como buscavam os hegelianos. Diante do quadro que se apresentava a sua frente – as diversas desordens de ordem social, moral, filosóficas e cientificas e as suas pessoais/afetivas – restava-lhe a compreensão da própria existência, a única realidade experimentada, concreta e finita. Falece em novembro de 1855 aos 42 anos, solitário, incompreendido, rejeitando a metafísica e a igreja.  


Referencias

KIERKEGAARD, Soren – Diário de um sedutor. Ed. Martin Claret, São Paulo: 2002.
_____________________ O desespero humano. Ed. Martin Claret, São Paulo: 2002.
PENHA, João da – O que é existencialismo. Ed. Brasiliense, São Paulo: 1989.




[1] Sartre e Camus, entre outros, a partir do postulado da primazia da existência e da oposição homem x sociedade desenvolvem as suas idéias incorporando o materialismo-dialético, dialogando com o socialismo, o anarquismo e a psicanálise.  Por outro lado, Nietzsche e Heidegger debruçam-se sobre o caráter ontológico do Ser e da sua existência, aprofundando a critica ao escolasticismo e o positivismo. O alicerce axiológico da filosofia de Nietzsche se assenta no postulado imanente da existência, sustentado perspectiva existencial de modo que rejeita qualquer conotação normativa e universalista, emancipando-se de qualquer traço positivista.
[2] Georg Wilhelm Hegel (1770-1831) foi um dos principais filósofos alemães do século XIX. Sua obra de caráter historicista foi uma das principais influencias do marxismo.
[3] MARX, Karl – A ideologia alemã.
[4] Estoicismo – Pensamento filosófico (Marco Aurélio) que estabelece que o homem deva viver de acordo com a razão e ser indiferente a desejos e paixões. A verdadeira felicidade não está no sucesso material, mas na busca da virtude. Trata-se de uma filosofia que busca harmonizar a razão a natureza dando primazia à existência em relação à subjetividade.
[5] Epicurismo – Pensamento filosófico (Epicuro) que sustentava que por meio do conhecimento seria possível proceder a moderação dos prazeres e a limitação dos desejos, levando a tranqüilidade e a paz.

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