domingo, 30 de março de 2014

Homenagem ao poeta.

O poeta foi um homem das letras e da política. Há exatos cem anos nascia no México – 31/03/1914. Octávio Paz foi um combatente dos homens. Colocou os seus versos a serviço da beleza e da luta. Em um mundo entregue a exploração e a acumulação, celebrar a beleza, a justiça, a igualdade, a liberdade, o amor e o homem são atos de libertação, contestação, emancipação, sublimação, revolucionários.

O poeta foi um combatente da causa do homem e fez da linguagem cotidiana a sua arma. Cresceu ouvindo as historias do seu avô que precederam a Revolução (1910-1920) e as lutas do povo mexicano contra a ditadura de Porfírio Diaz – os irmãos anarquistas Flores Magon e o liberal Francisco Madero.  Na infância testemunhou a efervescência revolucionaria da Praça de Mixcoac e os diversos grupos envolvidos – políticos, militares, burgueses, operários, camponeses, intelectuais, indígenas, entre outros. Partidários de Villa e Orozco ao norte e Zapata no sul. Seu pai era um radical anti-hispanista que juntou-se ao movimento zapatista em 1914, mudando-se da cidade do México para o povoado de Mixcoac, permanecendo lá até o final da revolução em 1917 - avô e pai defendiam fervorosamente Zapata e participaram da Convenção Revolucionária contra Carranza.

Após o assassinato de Zapata e a ascensão de Carranza, insatisfeito e contrariado com o desenrolar da revolução, seu pai acaba por exilar-se nos EUA com a família nos anos 20. Essa mudança e o contraste no retorno ao México causariam grande impacto na sua formação. Ao retornar a pátria, o poeta começou a frequentar a Escuela Nacional Preparatória (antigo Colegio de San Ildefonso) – antes frequentada por Rivera, Siqueiros, entre outros renomados artistas mexicanos. Foi aqui que ele conheceu as ideias libertárias, apresentadas por um jovem catalão chamado José Bosch.

No final da década de 20 o jovem poeta militava junto ao movimento estudantil pela autonomia da Universidade do México. A despeito da sua precocidade, imiscuiu-se em um mundo de reivindicações que forjaria as suas ideias e atitudes diante das questões humanas, sociais e políticas. Foi nesse contexto que Octavio Paz formou-se enquanto homem, crítico, poeta e, como muitos do seu tempo, durante a militância comunista dos anos 20 e 30, considerou a esquerda como a sua interlocutora natural por toda a vida. 

É durante os anos 30 e o governo de Lazaro Cárdenas que desenvolve os seus estudos superiores. Cárdenas foi o responsável por completar as aspirações da Revolução, promovendo a reforma agrária e a nacionalização do petróleo, implementando ações que atendiam as reivindicações da classe trabalhadora e do campesinato, reconhecendo-os como interlocutores no processo político. Foi ele quem ainda em 36 concede asilo político ao revolucionário russo Leon Trotski.  Nesse período o país vive intensas transformações e consolida os processos políticos e sociais há muito reivindicados pela imensa maioria da população mexicana, desenvolvendo-se o patriotismo e a identidade nacional. Nesse contexto, experimenta na universidade o desenvolvimento intelectual decorrente das grandes transformações na vida política e social do país. Assim, colabora com a produção acadêmica por meio das revistas literárias Contemporáneos, Cruz, Raya e Sur, promovendo discussões e as idéias políticas do pensamento marxista e libertário, dialogando ainda com a estética do surrealismo francês e o pensamento de André Gide e Paul Valéry, escritores como Malraux, Kafka, Saint-John Perse, T. S. Eliot, Thomas Mann, Herman Hesse, Gorki e William Faulkner. Afinal, a época esses autores – tal qual a maioria deles – conciliavam espontaneamente a modernidade estética e a radicalidade política. Como não poderia ser diferente, alguns autores da literatura espanhola moderna também os influenciaram, sobretudo, Claudio Guillén, García Lorca e Ortega y Gasset.

No contexto mundial pós-guerra, desenrola-se a Revolução na Rússia, a depressão na America e a ascensão do nazi-fascismo na Europa. Na Espanha, a Guerra Civil representa a aurora de uma “nova era”. Inflamam-se os debates em torno do que representaria a Revolução na Espanha para o mundo, revelando não só a efervescência desse período bem como o caráter dinâmico e  heterodoxo dos processos políticos e da intelectualidade na época, na medida em que opunham-se ao fascismo os comunistas, socialistas e anarquistas tanto quanto discordavam entre si.

Em 1937 Octavio Paz é convidando para participar do II Congresso Internacional de Escritores Antifascistas em Valência na Espanha, cujo objetivo era reafirmar e organizar a resistência ao franquismo - ditadura do general Francisco Franco (1939-1976). A experiência espanhola despertou no poeta uma nova forma de pensar. Os embates políticos, a luta feroz, o contato com diversos artistas e intelectuais europeus lhe desperta e aguça a critica e a necessidade de independência, liberdade intelectual e identidade latino-americana. Assim os seus escritos mostram as rupturas e as tentativas de reconciliação, a instabilidade e a insegurança, os confrontos entre os homens e a natureza, o reencontro do homem com as suas origens.

Ainda na Europa descreve os horrores da guerra civil espanhola. Na obra Itinerário denuncia o franquismo como um terror caracterizado pela “forte atuação da autoridade e de seus instrumentos: a polícia e o exército.” Espécie de “violência institucionalizada, que possuía somente duas opções: o capitalismo profano ou o fascismo homicida.”  Á tentativa frustrada em 1938 de combater no front da revolução pelo Exército Republicano, retorna ao México com a missão de promover a luta do povo espanhol contra o fascismo, colaborando na fundação do periódico El Popular, descrevendo a situação na Espanha e promovendo as idéias da esquerda mexicana. Conhece Gide e Péret, Hemingway e Dos Passos, Buñuel e Dali. Sem precedentes, a Guerra Civil Espanhola despertou a solidariedade de artistas e intelectuais por todo o mundo, forjando as obras de George Orwell, Pablo Picasso, Ernest Hemingway, entre diversos outros nas mais variadas expressões artísticas.

Quando a Guerra Civil Espanhola termina inicia-se a II Guerra Mundial. Com o fim do conflito na Europa, aos 31 anos por meio do serviço diplomático mexicano passa seis anos na França. Identificado com as ideias trotskistas e o surrealismo, Péret apresenta-o a André Breton e Albert Camus.  A influência de ambos acentuam às suas posições surrealistas, libertárias e antimarxistas. Nesse período trava contanto ainda com André Malraux, Cornelius Castoriadis, François Mauriac, Raymond Aron, Jean-Paul Sartre, incrementando os seus conhecimentos filosóficos e a critica literária e política.  

O pensamento inconformado, porem, não se entrega ao niilismo cínico, tampouco se submete a teoria da "lógica da historia" – inexorável, onipresente e onipotente. Esse período amadurece o seu pensamento e estabelece a ruptura com a hegemonia européia.  Volta-se para o homem e as origens. Percebe-se nesse momento o dialogo e a influencia de Freud e da psicanálise – a influencia do inconsciente que delineia a construção surrealista e a primazia da autonomia individual em oposição ao individualismo de mercado. Conforme somos seres incompletos que inventamos e nos afirmamos pela cultura, trata-se de buscar a transcendência, sublimar as imperfeições, propor novos enigmas que alicercem a existência humana. Essas inquietações levaram-no a pensar, sobretudo, a formação sócio-cultural mexicana e latino-americana. Talvez por isso aproxima-se da antropologia na França, conhecendo desde os Tristes Trópicos de Claude Lévi-Strauss a A erva do diabo de Carlos Castañeda.

Essas experiências trouxeram-lhe novas formas de pensar e se posicionar diante do homem e do mundo, expressando a sensibilidade em muitas das suas obras bem como os dramas, as complexidades e os sentimentos mais profundos do homem. O período que vive no oriente – Índia e Japão – e o contato com essas culturas torna-o ainda mais introspectivo, aprofundando a sua sensibilidade com relação ao homem e a natureza.

De volta à terra natal, Paz deu voz ao vento, a pedra, a água. “A palavra é o próprio homem.” A vida dos homens simples e os dramas do cotidiano. Quando da entrega do Prêmio Nobel, não se esqueceu das origens e da cultura dos povos indígenas, que “nos fala na linguagem cifrada dos mitos, das lendas, das formas de convivência, das artes populares, dos costumes. Ser escritor mexicano significa ouvir o que nos diz seu presente – essa presença. Ouvi-la, falá-la, decifrá-la: dizê-la”. O poeta se foi, mas, como o vento a sua voz segue... .

Referencias

“A modernidade no ensaísmo político de Octavio Paz” – Aline Pagotto http://www.acervodigital.unesp.br/handle/123456789/61224




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