terça-feira, 19 de abril de 2011

Desencontros urbanos


São muitas as historias com a polícia. Elas são muito anteriores ao crack. Começaram a época do pixo, exatos 20 anos - 1991. A primeira levou-me direto a três delegacias - 4° DP na Augusta, 78º Jardins e 1º na Sé. Um domingo a tarde saímos para pixar eu meu irmão e mais dois caras. No tunel da 9 de Julho com a Paulista fomos pegos pela GCM. Logo eram tantas viaturas que parecia uma ocorrência de roubo a banco ou sequestro. Recusei entrar na viatura e fui atirado pra dentro com um empurrão. Não contente, fui o caminho todo debatendo com os guardas e contrariando meus parceiros. Nunca fui dado a moralismos e autoridades. Quando questionado sobre o por que pixar respondi: "Ninguém pergunta sobre o dinheiro do IPTU!" Fui chamado de revoltado e subversivo inconsequente. No 4º DP o delegado recusou-se com vigor a fazer o B.O., contentou-se em nos esculachar a todos - inclusive os GCMs! Se ferraram, mas, não desistiram e nos levaram ao 78º. Distrito de bacana, quase não tem ocorrências, na falta do que fazer o delegado lavrou o B.O. De lá fomos fazer o exame de corpo de delito no 1º DP. Curioso é o policial que te esculacha entrar na sala junto com você. Assim silenciei sobre o tapa, pontapé e empurrão pra entrar na viatura. De lá fomos levados ao SOS Criança no Brás. Recolheram nossos documentos, tiraram nossos cintos, cadarços, entre outros objetos e nos levaram para os assistentes sociais. Depois almoçamos - domingo era macarrão com frango - e ficamos jogando dominó esperando nossos pais nos buscarem. Tinha um quadro grande para os pixadores e deixamos nossa marca lá ao lado da de vários amigos e conhecidos. Quando fui ao banheiro, enquanto esperava conversei com um ladrãozinho que havia chegado um pouco antes. Me contou que tinha assaltado uma padaria e que não tinha nada contra pixadores. Um pouco antes do jantar meus pais chegaram, minha mãe chorou, meu pai resmungou e eu e meu irmão não víamos a hora de contar as estórias para os amigos! Isso aconteceu cerca de um mês antes de completar 17 anos. Pegamos seis meses de liberdade assistida. Nunca me perguntaram a época o que pensava desse atendimento. Espécie de terapia conduzida por um assistente social de meia idade. Quase sempre oscilava entre as lições de moral com ar professoral e as aproximações forçadas na tentativa de entender nossas razões. As vezes partia para a ameaça e o esculacho puro e simples, como quando tentando se aproximar perguntou como "dois jovens inteligentes, de família e trabalhadores podiam sair um domingo à tarde para se arriscar e sujar a cidade?!" Meu irmão respondeu: "e ficar em casa vendo o Faustão?" Ele se chamava Noé e nós sempre dávamos um jeito de sacanear ele discretamente com ironias! Quando ele sacava ficava doido, como quando dessa vez retrucou meu irmão dizendo: "olha aqui moleque, eu detesto ironias! Não me venha com ironias!!!" Não conseguíamos levar a sério de tão despreparado que era todo esse pessoal. E eu havia acabado de completar 17 anos e meu irmão 15. Ainda hoje temos que nos submeter, aceitar e acreditar que são os velhos frustrados, preconceituosos e acomodados que sabem sobre os jovens ou o que é melhor para eles. Pobre Noé, quantos Noés existem no serviço publico, até menos altruístas e/ou competentes? Após isso eu ainda pixei prédios na Lapa, Santana, Centro, Paulista. Fiz linha de trem de Pirituba até Mauá! Cheguei a escalar um edifício de 4 andares pelo cabo de aço. Pixei até as vésperas de completar 18 anos, antes porem, passei uma vez pelo 33º DP e alguns apuros com a policia sem precisar chegar a qualquer DP. Fomos pegos porque saiamos para pixar de dia, porque eramos abusados e tínhamos que trabalhar na segunda. Não era vandalismo puro e simples, antes protesto e revolta inconsequentes aliados ao tédio, movidos pela falta de opções de cultura e lazer e, sobretudo, pela adrenalina, excesso de testosterona, necessidade de auto-firmação. Hoje entendo que também era uma espécie de egoísmo e desprezo pela sociedade. Nunca é tarde para auto-critica.

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