quarta-feira, 20 de abril de 2011

Noites cariocas


Eu era louco, insano, deliberadamente inconseqüente. Pensava como Wilde:"a moderação é fatal, nada cai tão bem quanto o excesso!" Pensava como Bukowski:"qualquer um pode ser sóbrio, é preciso talento pra ser bebâdo!" Essas idéias norteavam minha conduta ousada e irresponsável. Antes de conhece-los, porem, eu já era assim impetuoso e desmedido. Entre muitas historias, lembro de uma absolutamente ousada, inconseqüente e surreal! Quando cheguei a Nova Iguaçu em fevereiro de 2005 me instalei em uma pousada com outros dois paulistanos que trabalhavam comigo. Quando recebemos nosso pagamento, na primeira semana de março, ambos viriam a São Paulo me incumbindo de receber para eles - a prefeitura os estava enrolando para pagar! Contrariado, mas, solidário, resolvi pegar o pagamento deles. Entretanto, conforme estivesse sozinho e me enturmando, aceitei o convite de uma simpática que trabalhava lá com a gente e resolvi sair pra conhecer a noite da cidade - com 7 mil no bolso! Saímos e fomos a uns três bares e uma boate - Rio Sampa. Bebi incontáveis cervejas e alguns Smirnoff Ices.

Quando estavamos no barzinho mais famoso da cidade -Abracadabra - fui apresentado a dois colegas dela. Loucos se identificam e logo estava no carro de um deles dirigindo-nos a uma boca na Dutra. Chegamos a um conjunto habitacional espécie de Cohab. Fiquei no carro enquanto ele desceu para buscar o pó. Foi a primeira vez que vi fuzis tão de perto desde o dia que havia me apresentado no exercito. Saímos e logo cheiramos duas carreiras. Guardei um papel no bolso. Farinha boa, amarelada, forte. Chegamos a Rio Sampa e mais cerveja. Tinha uma banda cover tocando rock nacional  - Cazuza, Legião, Ira, Engenheiros, Capital, Lobão, Titãs. Conforme seja discreto, se alguem desconfiou de algo até hoje não disse nada. Alias, tudo isso sempre me foi muito natural - que estivesse drogado. Não sou otário e nem comecei ontem, então estava sempre atento. Tanto que entrei no banheiro e logo saquei um segurança esperando para pegar algum usuário. Nem me atrevi. De repente me deu os "cinco minutos". Quando me dá os "cinco minutos" eu me levanto, aceno e vou me embora. Dito e feito! Saí, paguei minha conta e fui embora.

Chegando na rua, imaginei que o caminho de volta fosse para o lado que me virei naquela hora. Não sei porque mas achei que o rumo que tomei estava certo. Fui caminhando pela pista local da Dutra até uma passarela que cismei que devia atravessar. Atravessei atravessado. Do outro lado, fui caminhando pelas ruas já me admitindo meio perdido, porem, completamente perdido! Nessas horas suponho que o instinto se impõem. Penso: "ande, continue em movimento, não demonstre estar perdido." Foi o que fiz. Parei apenas em um telefone, estiquei mais uma carreira e segui. Num determinado momento, as ruas desertas, sentei no meio fio e cheirei outra. Continuei sorrateiro até perceber uma via férrea ao meu lado. Lembrei-me de uma ferrovia no caminho da pousada aonde estava e pensei: vou segui-la! Fui cabisbaixo, ao levantar a cabeça, estava as portas de uma favela. Adiante vi uma elevação com uns três caras armados em cima. No instante que eu olhei passaram-se mil coisas pela minha cabeça e tive duas certezas: são do tráfico e não posso parar. Nessa fração de segundos entre levantar a cabeça, ver e pensar eu continuei andando de modo que não perceberam nada. Se parasse era o meu fim. Passei como se fosse da comunidade e andei perdido naquela favela como se fosse local.  Entre inúmeras ruas e vielas, não encontrei ninguém, nem um cachorro vadio, graças a todos os Santos e Deuses.

Em alguns momentos pensei que nunca mais fosse conseguir sair dela, porem, do mesmo jeito que entrei, saí - sem saber. Não cheirei mais e a essa altura o dia amanhecia. Logo encontrei em uma rua uma senhora lavando a calçada. Perguntei a ela como fazia para chegar a pousada do Padre Renato e ela me explicou. Andei mais uns 30 minutos de ônibus. A pé não ia chegar nunca. Cheguei lá já dia amanhecido, passei na padaria, comprei pão, tomei café, banho e fui dormir. São, salvo e com quase todo dinheiro - menos o que eu gastado. Quando meus colegas chegaram paguei todos. No dia seguinte a garota foi a pousada saber como eu estava. Contei a ela e me julgou completamente louco! Ficamos juntos outras vezes depois. Não sei mais dela.

Desde então tenho tentado não abusar tanto da sorte e nem de mais nada ou ninguem..... Nas ruas os conhecimentos teoricos de nada servem, a vida exige outros conhecimentos e, sobretudo, bom senso e humildade. Duas semanas depois aconteceu a chacina da baixada, naquele trecho da Dutra que havia passado dias antes, quando trinta pessoas foram assassinadas por PMs. 

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