segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pesos e medidas, ficção e realidade



Um quarto de hotel, garrafas de vodca, dias trancados sem comer e dormir. Delírios, angustias, muitas pedras de crack. Sexo com diversos desconhecidos. Durante dois meses em 2005, Bill Clegg, 30 anos, gastou 70 mil dólares com apenas três coisas: diárias de hotel, garrafas de vodca, pedras de crack. Após esse longo e tenebroso inverno nas trevas, hoje o jovem Clegg passou de agente literário a escritor consagrado pela obra: “Retrato de um viciado quando jovem.” Excetuando-se a crônica, talvez honesta, sobra muito pouco. Da “originalidade” do titulo as angustias existenciais pueris, da degradação contundente as estórias e comparações previsíveis, tudo revela apenas a origem e procedência do jovem Clegg – classe media alta americana. Nenhuma novidade, a degradação da burguesia é sempre mais dolorosa, contundente, franca, simpática, palatável, comercial.

“Abandonei marido e filhos por causa do crack. Mandei a mais velha para o Canadá. Fumava quinze pedras por dia.” Relato de uma jovem mãe de Porto Alegre.

“Morava na Granja Viana e trabalhava em um restaurante no Itaim Bibi. Passei um ano inteiro fumando todos os dias.” Relato de um interno da Clinica Alamedas na Alameda Franca em São Paulo.

“Comecei a cheirar aos 17. Aos 27 passei para o crack. Sempre fumei sozinho em hotéis ou motéis. Uma vez cheguei a ficar dois meses em um deles. Gastava 500 reais por dia. Cheguei há ficar três anos limpo, mas, voltei a beber e recaí.” Relato de um pecuarista de 37 anos internado em Itapira.

"O jovem ex-vendedor de concessionária da Chevrolet ganhava cerca de dez mil reais ao mês no inicio da década. Após um ano de uso do crack perdeu o emprego, largou o curso de publicidade e roubou celulares em casa. Há quatro anos está limpo e abriu a sua própria clinica."

Todos os relatos acima foram colhidos na revista Veja. Sem duvidas que são todos deprimentes e chocantes, mas, tenho tanta raiva, repulsa e medo do crack que uso de muita cautela em tudo que ouço, leio, vejo, penso e escrevo sobre ele. Percebo porem, em quase todos eles certo exagero emocional deliberado, idiossincrasias, preconceitos próprios da imprensa classe media e com ela identificada. Claro está que os relatos foram deliberadamente escolhidos por critérios de classe social. Selecionados entre indivíduos da classe média e elite. Todos os indivíduos são retratados com generosa parcimônia, compaixão e compreensão, vitimizados e superestimados.

A imprensa e a mídia, em geral, são burguesas. Os formadores de opinião são burgueses ou com eles se identificam - por afinidade, interesses ou ignorância. As vitimas da violência, por exemplo, são os indivíduos da classe media ou da elite que merecem a sua pena. As suas tragédias é que são dramas, deliberadamente manipuladas para causar comoção publica.

“Empresário ciclista é atropelado e morto por ônibus em São Paulo.”

“Jovem advogada é morta em colisão de transito com um Porsche em São Paulo.”

“Jovem empresário é atropelado e morto na calçada por carro de luxo blindado em São Paulo.”

Mortes brutais e estúpidas em situações inaceitáveis caracterizadas pela violência, pelo caos urbano e desprezo a vida, pela negligencia e a injustiça. Quando essas mortes aconteceram, amplamente divulgadas pela mídia, uma jovem empregada domestica foi atropelada no Guarujá na ciclovia por um caminhão conduzido por um jovem sem habilitação. Ela deixou dois filhos pequenos e voltava do trabalho de bicicleta. Apenas noticiou-se o “acidente” no jornal local, sem comoção ou protestos. Igual a ela morrem aos milhares, entretanto, o varejo não causa repudio ou comoção na imprensa, na mídia e nos formadores de opinião.

Falou-se incansavelmente da jovem advogada – bonita, parente de ex-governador baiano, moradora do Itaim Bibi, morta no seu carro de alto padrão. Falou-se do jovem atropelado na calçada – trabalhava em uma ONG (como se isso fosse sinônimo de idoneidade, competência ou abnegação), professor da FGV, formado em Administração pela London Business School. Falou-se do empresário acionista da Lorenzetti atropelado no Sumaré e até “reabriu-se” (?) a discussão sobre as ciclovias em São Paulo e a relação entre motoristas e ciclistas na cidade. Em comum eles tem a sua origem e procedência, estirpe, grife. Alguém duvida que se fossem empregados domésticos, subalternos, desempregados teriam a mesma atenção? Será que se fossem pobres e tivessem sido atropelados ou colhidos no Grajaú, São Mateus ou em Perus estampariam as paginas dos jornais, revistas, sites ou seriam noticia no Jornal Nacional?

Em suma, em seis anos de uso do crack eu nunca o fiz ou conheci um único usuário que se hospedasse em hotéis ou motéis para consumir a pedra. Por outro lado, conheci inúmeros e eu mesmo frequentei os baixos de viadutos e passarelas, com restos de animais mortos ao lado, fezes de animais e humanas, lixo, entulho, insetos e ratos passando sobre os pés. Fumei muitos mesclados também na linha do trem – entre as estações de Pirituba e do Piqueri. Debaixo de uma arvore, atrás dos vagões abandonados, embaixo ou dentro deles, atrás do mato alto, em frente o córrego, fora da trilha da estação servindo meu sangue envenenado aos pernilongos e mosquitos.

Conheci diversos usuários nesses trilhos. Fumei ainda em outros becos, vielas, escadarias na baixada santista, no interior, em casa, mas, nunca em um quarto de hotel ou motel. Só ouvi estorias de gente que diz que já fez isso ou conhece alguém assim. Soube também de relatos em jornais, revistas, livros e pela televisão. Alias, a realidade esta nas ruas, espreitando nos becos e buracos. Hotéis e motéis ficam bem nos livros, reportagens, na ficção. Finalizando, conforme conste desses “relatos”, eu também nunca fiz sexo com “diversos desconhecidos.” O crack é uma droga tão possessiva que é impossível fazer qualquer coisa – até pensar – quando se esta consumindo ele – na verdade é ele quem te consome. Do ponto de vista físico, ele ainda inibe a libido e a taquicardia causada também impedem a ereção. Enfim, a cartilha do romance comercial barato não pode dispensar o clichê típico da ficção marginal: sexo vulgar irresponsável e inconsequente. Quem não gosta de ler pode encontrar isso nos folhetins televisivos, a formula é a mesma. Quem quiser conhecer a realidade é só abrir a porta e os olhos. Porque os ratos, as fezes e o lixo também não ficariam bem nas paginas dos livros ou nos folhetins. Finalizando, sobra o quê mais? Nada além da velha cantilena individualista da força de vontade em oposição a fraqueza, a despeito das condições desiguais e da omissão publica e social.

3 comentários:

  1. Na contra mão do que vc comenta, sobre os holofotes e indignação causadas pela violência contra a burguesia - aconselho a assistir a tv Record...rsrs...a tv do bispo.
    Lah tudo gira en torno de um mundo terrível sem solução, em que os pobres são vítimas e algozes!
    abrzo

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  2. oh! que novidade.
    palavras bonitas e horríveis atitudes = nova vítima de um coitado solitário.

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