sexta-feira, 29 de julho de 2011

Nobre arte


O senso comum julga o boxe violento. Julga-o um esporte para brutos. Julga que se trabalha apenas os braços e a parte hepática. O boxe é muito mais que isso. Sou suspeito para falar, pratiquei-o por três anos. Asseguro, no entanto, que um treino decente - não necessariamente preparatório para um combate – não dura menos de duas horas. Envolve corrida, corda, exercícios abdominais, alguns exercícios de braço – resistência e musculação -, sombra, exercícios de saco e uns três rounds de luvas – luta treino. Chegava a perder até dois quilos em um único treino bem puxado! Alias, quem pensa que o combate também é fácil deve saber que três minutos, batendo e apanhando no ringue, esgota o individuo mental e fisicamente. Apenas para fazer uma comparação, dependendo do adversário, três minutos no ringue, me cansavam tanto quanto quando subir o Pico do Jaraguá correndo!

O Jeferson e o Daniel eram desses. Sujeitinhos difíceis de cair e de lutar. Eu também devia era, afinal, em três anos nenhuma queda. Ambos estavam, alias uma categoria acima da minha – pena (57 kg). Na minha não tinha ninguém, apenas um abaixo e todos os demais acima – eu era galo (54 kg). Esse, no entanto, não era o meu principal problema – fora a balança. Meu maior adversário no boxe era a baixa estatura e envergadura. Em três anos nunca enfrentei um adversário da minha estatura ou menor, portanto, era sempre eu quem tinha que procurar o adversário e dar o combate. Assim, me expunha mais e corria mais riscos. Minha vantagem era a velocidade, força e o jogo eclético – modéstia a parte, tinha um bom repertorio de golpes.

Todos os dias pela manhã treinávamos eu, Jeferson, Vanderlei – campeão brasileiro de Muay Thai na categoria dos médios – e o seu Leocádio – arbitro aposentado da Federação Paulista de Pugilismo. O seu Leocádio já devia ter seus sessenta e poucos anos, mas treinava quase todo dia. Ele gostava da minha disciplina e do meu jogo, então me emprestava seus vídeos para que eu pudesse aperfeiçoar minha técnica. Vendo eles pude conhecer Sugar Ray Robinson, Muhammad Ali, Ken Norton, Eder Jofre, Joe Louis, Rubin Carter. Vi as melhores lutas de Chiquita Gonzalez, Michael Carbajal, Pernell Whitaker, Julio Cesar Chavez, Felix Trinidad, Roberto Duran, Vinny Pazienza, Sugar Ray Leonard, Mike Tyson e Evander Holyfield. De todos esses, no entanto, não me esqueço de um ilustre desconhecido: Cecílio Espiña – campeão norte americano dos leves ou dos galos, nem me lembro mais. Nunca tinha visto um boxe tão rápido e preciso e uma variação tão complexa de golpes! Impossível decorar a luta dele, cada round era outro pugilista!

O Jeferson teve a infelicidade de conhecê-lo por meio dos meus punhos dias depois. O capacete e o protetor de boca dele foram parar fora do ringue, mas, ele terminou o combate em pé. O Valdevino não se empolgava. Veterano de boxe tinha o seu estilo peculiar de treinar e motivar seus atletas. Foi três vezes campeão brasileiro em duas categorias, em meados dos anos 80 – pesos galo e pena. Motivava quando se estava na lona e freava quando se estava no ringue ou no pódio, ou se pensava estar no seu lugar mais alto. Para ele ninguém nuca perdia. Ao final de um combate quando perguntavam sempre dizia: "ganhou experiencia." Na época eu não tinha a maturidade necessária para entendê-lo, então muitas vezes me frustrava. Foi mais por isso que deixei o boxe, embora já admitisse que não fosse possível continuar na medida em que percebia cada vez mais que o boxe é incompatível com uma vida comum: ou se dedica exclusivamente a ele ou contenta-se em ser saco de pancadas dos que podem fazer isso.

Quando parei de treinar trabalhava e estudava a noite, ou seja, treinava no máximo três vezes por semana e ainda após um dia de trabalho, quando faltava a aula. Minha ultima luta foi logo que completei vinte anos. Foi com um rapaz do São Paulo que estava visitando a academia como preparação para o Kid Jofre. Para piorar ele era uma categoria acima da minha e, obvio mais alto. Embora treinasse pouco, tinha um excelente preparo de pernas e meu jogo era bom. Seu Leocádio dizia que eu era “esgrimista.” O meu adversário era do tipo “mata cobra.” Tinha raiva deles. Levei uma surra homérica. Terminei o combate em pé e abalei a convicção do rapaz. Afinal, mais pesado, com envergadura maior e mais treinado, ainda assim saiu machucado e não me derrubou. Quando eu conseguia entrar e encurralar nas cordas, era uma maquina de bater. Alternava os golpes e não deixava muitas alternativas: era sair ou cair! Enquadrei ele algumas vezes. Golpes curtos, potentes e precisos! Era bom em uppers. Batia bem de esquerda. Judiei dele. Upper de esquerda e cruzado curto de direita. Em compensação em todos os rounds era pelo menos um direto certeiro. No ultimo round tomei uns dois ou três seguidos, perdi por completo a noção de distancia e só não cai porque tinha um excelente preparo de pernas, elas não dobraram. Acho que o cara também não tinha mais força para tanto. Desci do ringue e fui bater saco ainda – pouco folgado! Fiz a serie toda de sacos e fui tomar banho – três sacos de areia (30, 40 e 60 kg). Fui para casa, comi e desmaiei no sofá. A hora que eu acordei é que percebi o estrago. Tenho marcas até hoje dessa luta, dezesseis anos depois. Passei uma semana com o lado esquerdo do rosto destruído, mal podia abrir o olho, quase fui demitido! Cerca de um mês depois treinei. Treinei novamente uma semana antes da luta do Tyson com o Mcneeley. Depois abandonei o boxe. Fiquei tão frustrado que passei a beber, voltei a fumar e passei a usar drogas.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

CAPS-AD: desumanização, vício e medicina.


O Doutor Paulo era o típico médico do SUS. Atendia no CAPS-AD, até hoje não sei a especialidade dele. Penso que seja clinico geral. Conversamos apenas uma vez. Acho que o Assistente Social deve ter comentado com ele que eu era Sociólogo. Ficou interessado e curioso. Quis saber aonde eu havia estudado e o que fazia um Sociólogo. Interessante notar como as pessoas mais instruídas quase sempre oscilam diante de um Sociólogo entre a curiosidade insolente e o interesse solene. O Doutor Paulo não foi diferente.

Com a arrogância típica dos “doutos” da pequena burguesia inquiriu-me apressado e não sem algum ar de deboche sobre a minha formação. Respondi-lhe diretamente: Escola de Sociologia e Política com pós em Direitos Humanos pela Universidade de São Paulo. Fim da curiosidade insolente; inicio da conversa sóbria e respeitável. Em segundos transforma-se a sua expressão - está diante de um jovem "esclarecido." Pensei comigo: que merda! Minha doença passa a ser assunto secundário e de menor importância. Preciso lembrar-lhe que estou lá por causa do vício.

Ato contínuo, o Doutor Paulo assume o papel de medico do SUS. Abaixa os olhos para o meu prontuário e com movimentos rápidos e mecânicos passa-os pelo documento, rabisca algumas palavras ilegíveis e bate o carimbo com má vontade diversas vezes. Parece tão anestesiado quanto um usuário de crack, tão ansioso para sair dali quanto aqueles. Faz tudo: fala, lê, escreve sem levantar os olhos para o impaciente - eu. Após esse rápido procedimento, levanta os olhos e me pergunta sobre o que faço. Digo-lhe que nada, estou em recuperação desde que cheguei à cidade e deixei São Paulo. Digo-lhe que anteriormente que era Coordenador de Educação Social pela Funap no CDP de Sorocaba. Percebi que não poderia sair dali sem lhe dar uma resposta satisfatória, ou seja, falar o que um Sociólogo faz na pratica. O senso comum pensa que Sociólogo ou intelectual não sabe fazer nada, do ponto de vista pratico. Alias, é bom que se diga, nem todo Sociólogo é intelectual – eu não sou. Entendem que quem pensa ou escreve não é capaz de executar coisa alguma, opõe deliberadamente a teoria a pratica, conforme o preconceito e a ignorância disseminem essa falácia. Explico, afinal, que era coordenador pedagógico em um presídio no interior paulista auxiliando os educadores da cadeia.  

Insisto em voltar ao meu problema e pergunto sobre meus exames. Diz entediado como quem está ali por obrigação e deixando entrever o quanto detesta aquilo tudo que estou “bem”, que eu não devo me preocupar com a minha saúde. Informo-lhe que sou pai e tenho uma filha e ele diz que meu problema é adquirido, portanto, não devo me preocupar com a hereditariedade da minha doença. Pensei em dizer-lhe que embora não seja medico não sou ignorante em matéria de biologia elementar. Resolvo não polemizar. Percebo que pulou de um assunto ao outro automaticamente mesmo, de modo a ter sempre o controle da situação e falar apenas o quanto e sobre o que lhe apetece. Sem eu perguntar me informa que sairá de licença pelos próximos dias, está fazendo um pós-doutorado em Genebra. Peço-lhe que mande lembranças ao Rousseau. Ele faz cara de espanto e ri sem graça. Talvez não saiba ao certo quem ele foi ou tenha ficado impressionado por eu saber. Não importa. Após essa ocasião vi-o apenas mais uma vez, uns dois meses depois.

Absolutamente desinteressado e absorto nem levantou os olhos ou me perguntou nada, como se não se lembrasse de mim. Pensei em perguntar-lhe sobre Genebra, mas, eu absolutamente não estava interessado. Percebi então que talvez não fosse isso. Na verdade já não era mais objeto de curiosidade e conforme estivesse ali merecia o mesmo respeito e atenção que todos: nenhum. Percebi que ainda que já não estivesse mais usando o crack e, embora esse Doutor Paulo nunca o tivesse usado – quem sabe? -, estava tão desumanizado quanto qualquer dos viciados que estavam ali em tratamento. Era incapaz de enxergar os outros enquanto seres humanos e apenas pessoas. Via apenas viciados infelizes e doentes, moribundos, dignos de piedade e/ou desprezo. Reafirmava assim a sua superioridade moral, intelectual, material, física sobre aquela turba de derrotados, atordoados, bestializados e desqualificados. Massa amorfa e indiferenciada, eis a que se resume o acolhimento e a visão humana no tratamento publico. Eu, naquela situação, embora fosse o Sociólogo, era a prova cabal de que minhas teorias, ideologia e conhecimentos de nada valiam, reafirmando o preconceito, aversão e desprezo típicos da pequena burguesia pela cultura, intelectualidade e crítica. Isso o Doutor Paulo, como tantos outros, não deixava de demonstrar, alias, era zeloso em fazê-lo.  

Doutor Paulo devia ter cerca de 60 anos. Saudável, articulado, asseado, sóbrio, soberbo, vivia em Santos - espécie de "Dr. Pacheco." Demonstrava pela fala pausada, gestos contidos e olhar altivo que nunca sequer havia passado por dificuldades ou privações. Sem duvidas que era um sujeito de "boa índole”, origens e formação intelectual, técnica e moral. Penso que cursou o ensino médio e o superior com o incentivo e a vigilância paternas. Barganhando notas e promoções, deve ter passado incólume as bebedeiras, brigas, drogas, contravenções, noitadas e outras baixarias que poderiam comprometer a ilibada reputação da sua família ou o seu caráter cristão-burguês. Deveria ser filho de medico também, família bem estruturada, sem duvidas que vinha da classe media ou elite santista. Antes que os mais precipitados me acusem, não se trata de preconceito, antes observação. Roupas, gestos, relógios, carros, celulares, postura, expressões, vocabulário, viagens, gostos, hábitos, enfim, uma serie de coisas e objetos dizem muito a nosso respeito.

O Doutor Paulo nunca me disse nada, nunca me despertou nada. Nem raiva, nem pena, nem desprezo, nem admiração, nem consideração, nada. Não aprendi nada com ele e, talvez, se não fosse por isso nem me lembraria dele ou me chamaria tanto à atenção. Como pode existir alguém como ele nesse tipo de função e trabalho? Como pode alguém assim tão apático e indiferente fazer esse tipo de trabalho? Como alguém que nem imagina o que seja qualquer miséria, privação, violência, medo ou os efeitos colaterais do crack sobre o individuo e a família pode pretender olhar nos olhos de alguém que sofre? Deve ser por isso, talvez, que ele não se atreva a olhar. Evidente que ele deve ter estudado isso tudo, mas, como diz o poeta, “escrever sobre o amor não é amar, pensar sobre a vida não é viver.” Nada alem de controle e profilaxia sociais, levada a efeito por médicos, psicólogos e assistentes sociais de forma arbitrária e indiferente. Pior ainda é o controle sobre os medicamentos, posto que se verifica que o SUS pratica a política da contenção de gastos procedendo ao racionamento sistemático de remédios. Afirmo categoricamente: a medicação, acompanhada da Terapia é no mínimo 3/4 no tratamento contra o vício do crack - o crack produz uma reação química no organismo que só pode ser contrabalançada por outra. Receio, no entanto, que nada disso mudará nas próximas décadas.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Acusadores



O que mais sentia na ausência era pela minha filha – sinto até hoje, sentirei sempre. Remorso, raiva, culpa, tristeza profundas. Até hoje não entendo como pude deixá-la diversas vezes, embora saiba e admita o porquê. O maldito vício te arrasta, domina, engana.

Impossível pensar sob efeito da substancia – isso acontece na abstinência também. Ninguém sabe o que é isso, embora todos sintam-se no direito e muito a vontade para julgar - moralmente, clinicamente, legalmente, afetivamente, socialmente, espiritualmente. Os técnicos, cientistas, estudiosos, pesquisadores, altruístas, abnegados combatentes ou repressores. Conforme Hesíodo, “primeiro o lar”, lá também se inicia o sofrimento, o julgamento e a punição. Pior que a punição é sempre o julgamento. Sofre-se mais com ele do que com a punição. Alias, curioso como mesmo quando a punição acaba persiste o julgamento. Sempre serei julgado, sempre haverá um juiz. Entretanto, sempre me julgarei e condenarei, embora todos prefiram faze-lo ou não me concedam esse direito - como se o pudessem!

A criança não julga, ela só ama. Ama na sua pureza, inocência, potencia. Até quando sofre não julga, só ama. Embora tenha mentido, enganado, me omitido, fugido, me escondido, negligenciado, sofri mais que fiz sofrer. Sofro ainda, sofrerei sempre. Eu perdi duas vezes, elas apenas uma – minha filha e a mãe dela. Seria demasiado estúpido e presunçoso se pretendesse relativizar o sofrimento! Cada um sabe o quanto sofre, falo apenas que s minha perda representa duas pessoas, duas saudades, duas ausências, duas culpas. Admito, no entanto, que os mais vulneráveis sofrem mais – mulheres e crianças - e, ter consciência disso apenas aumenta a minha dor e culpa.

Até quem não te conhece ou a sua vida julga. Até quem não conhece nada que não seja a sua própria realidade e nunca deixou a sua zona de conforto. Até quem não conhece realidade alguma. Até quem ignora a realidade. Até quem nunca viveu essa realidade ou conhece a dor e a miséria, todos pensam e se sentem a vontade e no direito de julgar Todos julgam! Terra de justos e justiça! Mereço cada dia de sofrimento por isso, mas, basta de julgamentos alheios, cínicos, oportunistas e aviltantes!

Quando me lembro das lagrimas, da insegurança, da ausência, da confusão e da tristeza causadas, chego a pensar que só o sofrimento não basta, talvez a morte. Considero minha filha e não me sinto no direito de julgar por ela, resigno-me a sofrer, ainda que considere que a esteja fazendo sofrer um pouco mais, devo submeter-me ao julgamento dela. Até esse dia tenho obrigação de viver e envidar toda a minha vida para recompensá-la e fazê-la feliz. Se a minha ausência definitiva a fizer farei.

As lagrimas que fiz cair descem aos milhares pela minha face. Todos os dias. Se eu pudesse fazer um único pedido pediria que ela não seja como eu. Pediria que ela não tivesse jamais me conhecido. Que a mãe dela não tivesse me amado. Porque tem gente que só sabe sofrer, fazer sofrer. Tudo esteve diante das minhas mãos e dos meus olhos. Tudo escapou. Tudo destruí, afastei e perdi. E tudo me foi dado e tirado do que um dia nem sequer havia sonhado. E agora em minhas mãos vazias só cabe o meu rosto deformado. Quanto peso pode caber numa consciência? Odeio o meu vício todos os dias mais que tudo e todos os que pensam sobre ele, que vivem dele, que dissimulam sobre ele, sobre o sofrimento e a morte. Na dor não cabe teoria, não cabe ciência, não cabe ideologia, não cabe dogma, não cabe técnica. A ciência é uma técnica, a teoria uma hipótese, a ideologia uma visão de mundo, uma representação. E a vida ou a dor e as esperanças? Não pode haver certezas. O amor e a vida não se aprendem em livros e nem nas cátedras. O amor e a solidariedade ou são intrínsecos ou não são. Ainda fazendo sofrer amava e sofria, ainda amo, ainda sofro. Sei pensar, sofrer, respeitar e sou solidário, sei mais que poderia saber e do que julgam os donos do saber e do poder. Só restou o amor e a dor e aceito a ambos. Tenho fé na vida, na luta e que o amor é maior. Porque "aquilo que não me mata me fortalece", e isso é também vontade de potencia.

domingo, 24 de julho de 2011

Tiros em Oslo


Os ataques em Oslo são emblemáticos. Eles revelam muito menos sobre o indivíduo que a sociedade e política. Haverá tantas explicações, hipóteses e especulações quanto os especialistas dispostos a comentar esse fato. Psicólogos buscarão psicopatias, psiquiatras patologias, crentes possessões. Advogados apontarão leis liberais que permitem o acesso às armas clamando por maior controle e leis mais rigorosas. As pessoas, sobretudo, nas sociedades mais complexas e ocidentais têm uma inclinação a individualizar as motivações e explicações sobre os fatos ou os acontecimentos. Tendência que se explica pela primazia do individualismo que caracteriza essas sociedades.

Todas as hipóteses podem estar corretas, entretanto, como sociólogo olho para a sociedade e as suas estruturas. Esse debate insere-se na perspectiva da pós-modernidade. Ela se caracteriza por uma atitude de rejeição às macro teorias, privilegiando a fragmentação e a superficialidade. Ocorre a exclusão seletiva dos debates dos grandes paradigmas, interpretações e teorias determinando-se que estejam definitivamente superadas. Os pós-modernistas descartam a ideia de revolução como caminho natural ou necessário para uma “nova sociedade", um "novo homem” e uma sociedade sem exploração. Na esfera moral, há a tendência a tolerância, o respeito às diferenças e certo pluralismo radical, paradoxalmente caracterizando-se como um mundo sem inimigos ou contradições a superar; espécie de panglossismo. Decerto também parecem se posicionar numa atitude de neutralidade moral frente às discussões que se encaminham para polarizações rejeitando os antagonismos.

No campo da educação, prevalece o discurso que privilegia o ensino e a pesquisa inter ou transdisciplinar. Do ponto de vista epistemológico, o sujeito pós-moderno opõe-se aos grandes modelos teóricos. A atuação política pós-moderna desqualifica e dissimula a ação política tradicional (Estado, partidos políticos, sindicatos, movimentos populares, etc), preferindo atuar por meio de ações voluntárias através de ONGs, bem como nos atos mais ou menos espontâneos de grupos e/ou de sujeitos políticos protagonistas ou representantes de demandas sociais especificas (ambientais, gênero, jovens, etc) ou de grupos excluídos. Caracteriza-se por uma tendência aberta ao individualismo e utilitarismo dissimulado por uma espécie de hedonismo socializado pela mídia. Esvazia os conteúdos ideológicos intrínsecos ao campo político e reduz o papel do Estado a mero financiador ou prestador de serviços públicos. Nesse contexto é que se inserem as interpretações sobre os fatos históricos e os acontecimentos políticos ou sociais na atualidade.

Isso posto, o massacre norueguês do final de semana diz mais sobre o contexto político europeu e ocidental do que sobre o indivíduo isolado, porque é a sociedade quem o influencia e não o contrario. Nessa perspectiva, sua ação se insere em um contexto de rejeição a perspectiva pós-moderna no campo político de um lado e, de outro, ao fortalecimento da extrema direita na Europa devido à desilusão com a esquerda socialista/comunista. A esquerda européia não conseguiu oferecer respostas teóricas e tampouco praticas a sociedade após a queda do Muro e a hegemonia americana. Desde a época Thatcher – Reagan que a política européia submete-se as orientações da Casa Branca. O ataque em Oslo insere-se ainda num amplo contexto de fortalecimento da extrema direita européia resultante da paranóia estabelecida pelo pós 11 de Setembro. Essa paranóia verifica-se pelas ações caracterizadas por políticas de enfrentamento do ponto de vista exterior – conforme a cartilha de Washington. Do ponto de vista interior são condicionantes, restritivas, xenófobas, autoritárias.

A Europa e o europeu fecharam-se, sobretudo, para os países árabes e islâmicos. Nesse contexto todos os movimentos e partidos autoritários, nacionalistas, cristãos conservadores e arianos se fortaleceram. Antes reservados aos Bálcãs e ao leste europeu, hoje tem grande aceitação e visibilidade junto a Europa central e ocidental, mesmo nas democracias mais sólidas, liberais e nos países de tradição socialista ou centro-direita – como a França, a Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, Dinamarca e agora a Noruega.

O indivíduo isolado que atira em jovens participantes de atividades do Partido Trabalhista norueguês mostra a face autoritária que se choca contra a imagem de tolerância cosmopolita estabelecida no distante pós-guerra. Em 2001 acabou o vácuo que havia entre os pós-guerras – Segunda Guerra e Guerra Fria. Esse massacre, de um lado, mostra que as alternativas fascistas ainda resistem e seduzem setores insatisfeitos com as respostas oferecidas pela política tradicional e os relativismos estabelecidos pela pós-modernidade. O Welfare State europeu do pós-guerra não pode mais resistir ao Capitalismo global e a hegemonia americana.

Não é sem motivo que nos lugares tradicionais de conflito e competição – trabalho, política, moral, sexualidade, cultura – em que inexistem limites definidos ou claros é que encontramos a crise instalada nessas sociedades. Essa crise verifica-se em indivíduos frustrados, insatisfeitos, infelizes, deprimidos, doentes. Esse mal-estar Freud associou-o a crise da modernidade, Reich foi mais visionário e avançou mais. Se a modernidade vislumbrava a felicidade por meio do progresso científico ou de uma revolução, a pós-modernidade promete por meio da tecnologia, globalização e democracias neoliberais o fim das fronteiras, ideologias e história, enfim, um nada que pretende ser o solo fértil para tudo.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Combate


O combate é a única condição.
Golpes, dor, suor, sangue, fúria, disciplina, concentração.
As palavras se inscrevem na alma.
Perfuram os olhos.
Dilaceram o coração.
Perturbam a consciência.
A paz é uma ausência de palavras.
Uma espécie de ignorância.
Um estado de alienação, afetação, distração.
As palavras não foram feitas para os olhos.
Há os que lutam e os que sobrevivem.
Não pode prescindir a palavra à luta!
Apanham, caem, levantam, tombam.
Ela é a filha dileta do combate.
Existem os que se furtam, espreitam, morrem antes.
Se calam, se omitem, se distraem, vacilam.
Suas palavras nada dizem.
O artista que sofria privações,
Aquele que viveu nas trevas,
Que morreu e renasceu no cárcere,
Lutou, combateu, renunciou, morreu.
Porque a luta é a vida,
E a vida é a sua obra,
Escrita com sangue, suor, fúria, disciplina e palavras.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Segmentos Sociais II – Assistência e Serviços



Meus primeiros contatos com Assistentes Sociais começaram há dezenove anos – 1992. Começaram como “usuário”, digamos assim, durante seis meses de Liberdade Assistida. Chamava-se Noé e tinha cerca de 50 anos. Um tipo caricato; oscilava entre a disposição severa e a brandura. Durante seis longos meses esse foi o meu tormento. Quando não me lembrava um professor autoritário do fundamental que parecia um padre. Antes de ir lá e bem depois ainda continuei pixando - serviu pra nada.

Depois desse contato, considero relevante o que tive com os Assistentes Sociais da CDHU no Programa de Recuperação Socioambiental da Serra do Mar em Cubatão – SP. Eles eram os responsáveis pelo atendimento social dos moradores das comunidades invadidas pelo programa – porque o governo invade as comunidades sem consultá-las. Eles, na verdade, eram elas – todas eram mulheres. Eram, digamos assim, a face do programa nas comunidades. Representavam o governo do Estado nessas comunidades como interlocutores dele no âmbito do programa. Esse atendimento social consistia, grosso modo, no cadastramento das famílias, informações e esclarecimentos de duvidas nos postos de atendimento, mobilização e organização comunitária, coleta de dados e mapeamento das áreas.

Haviam duas equipes: a social e a de urbanismo. A primeira compunha-se por 90% de Assistentes Sociais e os outros 10% de Sociólogos e Psicólogos. A outra era predominantemente composta por Arquitetos e alguns Geógrafos. Se não conhecesse os profissionais de Serviço Social, na ação cotidiana por meio dessas experiências, poderia pensar que se trata da mais ampla e humanista formação das ciências humanas, conforme a abrangência do escopo de atuação – de adolescentes infratores a dependentes químicos, vitimas de violência a famílias em situação de remoção, passando por prisões, escolas e políticas públicas. No entenato, nem uma coisa nem outra.

Qual a importância da II Guerra Mundial para uma formação na área de humanas? Nenhuma, se não fosse o evento mais importante do século XX, de importância capital para a compreensão da atual hegemonia ocidental e a consolidação dos direitos humanos. Qual a importância da Historia? Nenhuma, se não fosse pelo fato de que somente por meio dela pode-se compreender a dinâmica da sociedade. E do domínio de conceitos da Ciência Política e da Filosofia – Democracia, Cidadania, Justiça, Ética? Nenhum. Para trabalhar com o publico, setor publico, comunidades, política publicas, educação, aprendi com elas que na pratica do “trabalho social” basta apenas “comprar” o discurso padrão, “empacotado” e pronto do mandatário do dia, venha de onde vier e repeti-lo ad nauseaum! Basta conhecer a LOAS, SUAS, ECA e levantar uma barricada com elas para usá-las contra quem quer que seja, inclusive aqueles que elas deveriam ser os beneficiários,  protegidos e atendidos pelo cabedal institucional. E escrever? Desenvolver um texto ou argumentação sobre qualquer assunto com coerência, objetividade e profundidade? Bastam frases de efeito, clichês, chavões, tudo rigorosamente impreciso, ambíguo, superficial e, óbvio, politicamente correto! Demagogia, paternalismo e assistencialismo autoritário, absolutamente incompatível com a democracia e a cidadania, nada mais.

Como é possível trabalhar com organização comunitária e movimentos sociais ou populares sem conhecer Ciência ou Filosofia Política? Como podemos realizar um trabalho desses sem saber o que seja democracia ou cidadania? Como realizá-lo sem conhecer os direitos – civis, sociais, políticos, humanos? Alguns mal conheciam a LOAS e o ECA! O fato de não conhecerem absolutamente nada sobre a II Guerra – sequer o ano que começou e terminou! – é relevante porque se constata o total desinteresse que se tem pela Historia e a mediocridade da formação.

Em 2009, em comemoração aos 70 anos do inicio da II Guerra, resolvi fazer uma atividade com os presos para constatar que as assistentes sociais do CDP em que trabalhava também ignoravam o fato! Para eles e muitos advogados, pedagogos e psicólogos que conheci na minha trajetória é razoável pensar, discutir e analisar as questões relativas aos direitos humanos, violência, autoritarismo, democracia sem considerar o nazifascismo, o Holocausto, a II Guerra e o surgimento da ONU.

As comunidades que habitam as encostas da Serra do Mar não são homogêneas. A exclusão tornou-se um fenômeno complexo. Existem ocupações por diversos motivos, algumas, paradoxalmente, excluem a miséria e a ausência de moradia. Por outro lado, a despeito dos aclamados programas, investimentos e direitos formalmente garantidos, o déficit habitacional e a negação ou violação de direitos ainda são uma realidade brutal. Do ponto de vista objetivo, essas observações são relevantes no que diz respeito às estratégias de mobilização e atendimento a essas comunidades. Como é possível planejar o trabalho social sem conhecer as determinações políticas, econômicas, e culturais em que se estabelecem relações sociais e de poder no interior dessas comunidades? Como podemos considerar as estratégias de ação e/ou políticas públicas de intervenção sem conhecer o contexto em que se constroem as suas demandas, interesses e lutas? Como pensar qualquer ação ignorando que o contexto seja heterogêneo, vulnerável e dinâmico? Simples, conforme seus preconceitos e idiossincrasias desprezam-se os seus direitos e considera-se deliberadamente que sejam todos miseráveis, ignorantes, despolitizados, apáticos, carentes. Massa amorfa e homogênea sugestionável e manipulável. Nada mais conveniente!

As estratégias para esse tipo de ação consistem no controle, omissão ou negação deliberada de informações; repetição sistemática de mentiras e meias verdades; produção e divulgação de informações desencontradas com o propósito de causar e/ou criar fatos e confusão para desfocar a questão; enfraquecimento e deslegitimação de lideranças, instituições e estratégias de mobilização popular; ocupação dos espaços e equipamentos públicos; cooptação e ou intimidação de lideranças formais ou informais; desqualificação e criminalização de lideranças, instituições e estratégias de luta e resistência.

A combinação dessa estratégia com uma visão preconceituosa e formação deficiente resulta no autoritarismo aberto, no desprezo manifesto pelo outro e na indolência e servilismo profissionais. Para cumprir com esses objetivos, exclui-se a ética de todas as relações – sociais e profissionais. A mentira, a desonestidade, a empulhação, a ignorância e o escárnio são considerados ferramentas ou técnicas, como outras quaisquer no trato cotidiano com as pessoas dessas comunidades. A lógica é a seguinte: conforme sejam moradores em áreas consideradas de ocupação irregular ou ilegal, exclui-se ou negam-se arbitrariamente os seus direitos de cidadania. À negação da cidadania consiste em um processo sistemático que passa pela restrição do acesso a informação e aos canais institucionais.

A dinâmica das relações cotidianas caracteriza-se por padrões orientados por regras não formais. Essas regras resultam de tradições, preconceitos e idiossincrasias e escapam aos controles formais e técnicas. No cotidiano, esse processo resulta em uma convivência forçada, caracterizada, via de regra, pela desconfiança e desprezo mútuos. A posição daqueles que representam o poder estatal e detêm o controle e o seu acesso determina relações assimétricas e possibilita desvios e abusos. Desse modo corroem-se as possibilidades de uma relação produtiva e positiva, pautada pela confiança, solidariedade, cooperação e respeito mútuos, concorrendo para a baixa autoestima das pessoas dessas comunidades, fechando o ciclo da exclusão com a desumanização perene dos indivíduos.


Trata-se de um traço de notória orientação autoritária, incompatível a democracia e a cidadania. De um lado, caracteriza-se pelo assistencialismo tutelado que desqualifica, desmobiliza e aliena os indivíduos, de outro, pela negação e violação de direitos e participação no processo político, marginalizando-os e criminalizando as suas ações. Assim, esvazia-se o conteúdo ideológico intrínseco da política reduzindo-a a mera prestação de serviços e concessão paternalista de direitos. Tanto no presídio, quanto no trabalho social comunitário foi o que eu vi, deliberadamente ou ingenuamente, sem diminuição dos prejuízos causados a sociedade, aos indivíduos e a política. Que fique claro: descrevo situações e contextos específicos e determinados profissionais, portanto, não cabem generalizações.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

As pedras no caminho


Que nos dizem as ruas?
Elas dizem muito.
O silencio daqueles sem voz fala.
Eu já estive nelas.
Um senhor que usa uma Montblanc.
Vestido de terno e gravata.
Apóia-se em leis, tratados, decretos, teorias, números.
Confronta a trágica, miserável, infeliz e fatal realidade.
Sua ignorância e preconceito só não são maiores que a sua arrogância.
Essa espécie de gente é que irá nos salvar?
Essa espécie de gente acostumada a enxergar a realidade por cima ou através de livros?
Gente que tem pena, raiva, desprezo ou repulsa?
Que ignora o que seja frio, medo, fome, raiva, angustia, dor ou desespero?
Em qual Doutor você acredita? Naquele que leu ou no que escreveu?
Será o político ou o homem de fé? O do martelo, da cruz, da arma, ou o da caneta?
Nenhum ouve as ruas. Nenhum conhece elas. Nenhum frequenta ou as frequentou.
Uma coisa eu sei: só se transforma aquilo que se conhece. Apenas se arrepende aquele que compreende o mal que fez. Só o amor nos faz melhor e nos faz fazer melhor. Só posso amar aquilo que conheço. Não creio que esses senhores conheçam ou amem, portanto, que sejam capazes de transformar a realidade que é o vicio. E isso não se aprende em livros. Simples assim!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Afronta


Eu sou aquele homem da rua.
Aquele que luta pela vida.
Eu sou aquele que os dias engolem.
Em sua caminhada infinda.
O meu repouso é a fadiga.
O meu sono é um torpor.
Eu sou aquele que sonha.
Os sonhos dos que não dormem.
Que é esse homem sem razão, sem ambições, sem nada?
Que apenas existe. Que sobrevive e ri?
Existem homens feitos para a derrota.
Eu quero a vida porque a morte é certa.
Eu sou aquele que perturba.
Que afronta a queda.
Que pode o pó, sopro de vida?
Tudo é nada diante do infinito.
E o tempo é a vida.
E o tempo ignora o homem.
E tudo passa na vida.
E sobra apenas o pó e nada.
Acaba antes quem não luta, não vive, não morre.