domingo, 5 de agosto de 2012

Intervenção


Vi dia desses o programa Intervenção - Brasil no canal A&E. Era sobre a paulistana Vanessa, 32 anos, 4 filhos, usuária de crack há doze. A apresentação do seu cotidiano mostrou-nos que não é recente a presença do crack na classe média - pelo menos em termos do que se pode chamar classe média no Brasil. Ela não é favelada e nem mora em comunidade. Sua casa é um sobrado bem localizado, se não estiver enganado na Vila Mariana - SP/SP. Seu irmão, estudante de Direito e sua mãe aposentada. Ela vive com os filhos e eles. Uma realidade bastante confortável perto das favelas, ruas, cortiços, muquifos ou mocós da Crackolandia - não fosse pelo vício. Embora bastante superficial, conforme convém a televisão, quem conhece a realidade do crack e das drogas - muito diferente daquela apresentada pelos especialistas na TV e/ou nas teorias -  pode perceber o estrago que a edição causou ao episódio. A história ficou mal costurada, não foi capaz de apresentar de forma consistente algumas hipóteses sobre o que levou-a às drogas, causando mais dúvidas do que esclarecimentos, reforçando estereótipos e clichês. Tudo - das cenas em família, às suas falas e os poucos momentos em que fez uso ou sob efeito -, me pareceu demasiadamente artificial - editado, ensaiado, representado. Mostrou-nos, a maior parte do tempo uma garota descontrolada - alucinada sob efeito do crack -, resumindo as causas dos seus problemas familiares e com o crack a ausência do pai. O exagero que a caracterizava, beirava o histriônico, embora na realidade do crack isso não seja nenhuma exceção. De fato existem pessoas que se descontrolam e são excessivamente instáveis, como também existem os atores, os cínicos, os idiotas e os oportunistas. Na família, de acordo com os seus relatos e os da sua mãe, relacionamentos estáveis nunca foram a marca dela - o pai de Vanessa se foi antes dela nascer e ela sequer o conheceu, sendo criada pela irmã mais velha entre um eventual padrasto e outro. Conforme seu irmão relata, na adolescência conheceu o álcool, o tabaco e a maconha, respectivamente, indo a seguir para a cocaína e depois o crack - muito embora os "especialistas" e as suas mirabolantes e infalíveis teses e alguns dos defensores da liberalização da maconha  insistam que não existe relação entre as drogas - e entre o tráfico? - e que ela não é a "porta de entrada." O álcool ela conheceu dentro de casa - como acontece em muitas famílias. De acordo com esses relatos, no mundo do vício - até então só a maconha - ela conheceu seu atual marido - que está preso - e que a apresentou às demais drogas - cocaína e crack.
De um modo geral, pareceu que a história resumiria-se assim: a mãe que sempre teve relacionamentos instáveis buscou consolo no álcool e a filha sentindo-se desamparada e abandonada, vendo o exemplo da mãe, buscou apoio igualmente nele e nas drogas e, sem referências masculinas na casa, excedeu os limites e não soube se relacionar com homens. Grosso modo, indivíduos "fracos", que não sabem lidar com as frustrações e que se entregam aos vícios! Evidente que nessa perspectiva os indivíduos, as famílias, a sociedade e  o Estado sejam solidários, fraternos e responsáveis uns pelos outros! Óbvio que não existam pressões, coações, exclusões e omissões de forma alguma! Tampouco oferta e estímulos para o consumo excessivo - ou moderado, claro! - de substâncias legais ou ilegais que causam dependência! Ao final, o psicólogo ou psiquiatra que iria tratá-la - isso não fica claro - destila o sermão dos malefícios causados pelas drogas e segue o roteiro do original americano - família, drama, livre arbítrio. A mãe faz o seu mea-culpa, Vanessa chora, uma censura sutil ao consumo de álcool dentro de casa e nenhuma crítica ou referencia a omissão publica em relação aos estímulos promovidos pela indústria do álcool e o tráfico! Encerra o programa a nova Vanessa, um pouco menos histriônica - ou talvez adestrada ou dopada  -, condicionada ao discurso pronto, padronizado e dogmático da autoajuda e resignação. No mundo da sociedade de mercado pós moderna que se caracteriza pelos "ismos" - individualismo, consumismo, egoísmo, pragmatismo, utilitarismo - tudo deve ser individualizado e resolvido por ele, eximindo-se a sociedade, o mercado, a política e o Estado de responsabilidades quanto aos problemas sociais - como o vício, a exclusão, a violência e o crime.  Enfim, sem duvidas que não se espera que a TV se aprofunde sobre essas questões ou que ela seja o local adequado para tanto, por outro lado, como entretenimento - drama no caso - medíocre e ainda como veículo de caráter comercial para estímulos ao consumo ela cumpre o seu papel.

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