quarta-feira, 2 de julho de 2014

Homenagem ao escritor.



No ultimo dia 03 de junho fez 90 anos que Kafka morreu desconhecido e ignorado sob o entulho do antigo Império Austro-húngaro em Viena. Consta que Kafka tenha sido o inaugurador do realismo fantástico. Não sei. Não sou especialista na sua obra – mero leitor despretensioso e curioso. Só sei que o jovem Kafka respirava as convulsões da transição conturbada do século XIX para o XX. A Grande Guerra na Europa, o anarquismo e o socialismo afrontando o poderoso capital imperialista e a ordem burguesa. Kafka nasceu e vivia em Praga, cidade sob a égide dos sacros impérios germânico e Austro-húngaro. Veio ao mundo no ano em que Marx faleceu – 1883 – e como o gênio revolucionário alemão era também judeu. Desnecessário comentar sobre as dificuldades experimentadas pelos judeus na velha Europa cosmopolita, civilizada, secular e cristã – católica e protestante. 

Filho do século XIX, Kafka foi da geração que empenhou-se em enterra-lo. O longo século de Napoleão, Garibaldi, da hegemonia inglesa, do capital, das fabricas, da urbe e da mob. O complexo, contraditório e explosivo século do desenvolvimento das grandes potências econômicas, da máquina, da ciência, das metrópoles, da indústria e da exploração, miséria e agitações. Século em que a opressão, a miséria e a tradição convivem com o poder, a riqueza e a razão e os afrontam. O século impregnado pelo cheiro de óleo, gás, suor, sangue e pólvora.

Impossível ignorar. De um lado Tocqueville, Burke, Mill, Bentham, Comte, de outro Marx, Phroudhon, Engels, Bakunin. Quem viveu o início do século XX, estava ainda sob a influência do pensamento de Darwin, Freud e Nietzsche - por que não Kierkegaard?  Não podia ignorar Vitor Hugo, Balzac, Zola, Goethe, Tolstoi, Dostoieviski, Oscar Wilde, Charles Dickens, Jules Verne. Tampouco a poesia ardilosa de Baudelaire, Byron, Shelley e Rimbaud. A geração que o precedeu e a sua sepultaram de forma definitiva o século XIX do ponto de vista ideológico, filosófico, estético, científico, moral, ético. O horror da Grande Guerra encerrou de forma definitiva com as ilusões de desenvolvimento e grandeza. 

Kafka foi um homem do seu tempo – complexo, contraditório, conturbado. Um homem oprimido pela ordem burguesa – a moral e a razão onipotente, onipresente, onisciente.  Kafka vivia sufocado pela “mão invisível” da família patriarcal, da sociedade burguesa, do Estado burocrático, do Direito autoritário. Os temas dos seus livros são demasiadamente autobiográficos. Tratam sobre sujeitos medíocres esmagados por poderes superiores e irresistíveis - onipotentes, oniscientes e onipresentes -, além da sua compreensão, capacidade ou meios. Ele era um sujeito assim. Funcionário público subalterno e de função burocrática insignificante, judeu de família da baixa burguesia, graduado em Direito sem vocação ou apreço pelo oficio das leis.  

Foi contemporâneo de Freud, Rilke, Thomas Mann, Shaw, Ibsen, Proust, Joyce, Yeats, Pessoa.  Viveu o Realismo, Dadaísmo, Surrealismo, Naturalismo, Modernismo e os estertores do Romantismo. O Processo, A Metamorfose são em grande parte autobiográficos – Joseph K. é o homem impotente diante da onipotência e onipresença do Judiciário e da burocracia, Gregor Samsa é aquele que sente o peso da família, do trabalho e a angustia de constatar ser apenas útil, descartável, insignificante como um inseto. Carta ao Pai é algo além de um lamento, um protesto, uma confissão - a revolta do homem oprimido pela família patriarcal burguesa e judia. A obra de Kafka é um manifesto contra toda a opressão, uma homenagem a sublimação. Kafka é apenas o homem enquanto tal – inseguro, impotente, instável, limitado, falível. Aquele que diante da inexorabilidade das condições da existência sublima a injustiça, a miséria, o medo, a angustia, a opressão. É o homem que resiste com a lucidez e a serenidade dos insensatos e deslocados sem resignar, capitular ou ceder a obtusa ordem, moral e racionalidade burguesa. Aquele que recusa a autoridade, rejeita a moral, repudia a opressão burguesas. A grandeza de Kafka é a sua fraqueza pra soberba moral burguesa – a sua capacidade de sensibilizar-se e inquietar-se diante do absurdo da sociedade. Kafka é o homem sensível e frágil – não fraco ou fracassado -, diante da miragem do Leviatã onipotente e onipresente que tudo esmaga e consome. Kafka, Fernando Pessoa, Lima Barreto, Camus, Gabo.

2 comentários:

  1. O mais assustador, porém fascinante ao mesmo tempo é identificar no começo do século XXI, as mesmas inquietações dos séculos dois séculos anteriores. Consternante é perceber na literatura engajada de Franz Kafka (1883-1924), não apenas a atualidade, mas a sincronia no sentido literal com o sensibilidade humana dentro dos períodos flanados neste texto. Mário Miranda Antônio Júnior conseguiu contextualizar as vozes dos intelectuais comparados e trazer a nós, mais motivos para sempre reler os clássicos. O que pode ser complementado neste texto é a confirmação dada pela obra "Porque ler os clássicos" (1993), de Italo Calvino (1923-1985), sem comentar muito, pois o título já explica por quais razões. A correlação entre Kafka, Fernando Pessoa, Lima Barreto e Camus, apesar de não serem contemporâneos, também não precisa de comentários está de acordo com a ideia dos intelectuais e suas sociedades.

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  2. Valeu pelo comentário Sergio! Acho que qualquer coisa que dissesse sobre Kafka seria pouco, por isso apenas lembrei que como ele Lima Barreto e Fernando Pessoa experimentaram angustias parecidas - do trabalho burocrático maçante, das pressões sociais e familiares, dos fracassos nos relacionamentos pessoais. Por fim, penso que do ponto de vista literário, é incontestável a influencia de Kafka tanto na obra de Camus, quanto de Gabo, entre outros....E essa é maior homenagem ao tímido e angustiado escritor tcheco....

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