quarta-feira, 25 de março de 2015

Unifesp - (des)construindo o feminino.

O evento aconteceu na primeira semana de março de 2013 na faculdade de Serviço Social da Unifesp - campus baixada santista - na cidade de Santos/SP. Foi organizado por professores daquela faculdade com o apoio do Núcleo de Estudos "Heleieth Saffioti", reitoria e de estudantes. Fui convidado a participar da mesa "História do Feminismo no Brasil" - não por obra, conhecimentos ou contribuição relevante, apenas pelo fato de haver conhecido a professora Heleieth Saffioti e, assim, homenageá-la no evento. Escrevi um texto nesse blog - Lembranças da PUC -, relatando quando conheci-a na PUC-SP e não sei ao certo como foi lido pela professora responsável por esse núcleo da Unifesp. Assim fui convidado como "comentador" naquela mesa. Estavam presentes a mesa alem de mim, a militante feminista e ex-presa política Amélia Teles e a militante, ex-exilada e professora da Unicamp Maria Lygia Quartim de Moraes. Grosso modo, o debate apresentou duas questões: a importância do feminismo e da imprensa alternativa feminina no contexto da Ditadura. Amélia falou da resistência, da militância politica, da construção do feminismo diante do machismo "revolucionário" no interior do partido e das organizações de luta, da prisão e das publicações feministas naquele período. A professora Quartim falou sobre a história do feminismo no Brasil - as lutas, resistências e conquistas. Em cinco minutos falei sobre a professora Saffioti que conheci na PUC-SP e a sua grande contribuição para o feminismo como intelectual-militante que foi. Intelectual arrojada e crítica, professora generosa e rigorosa, militante coerente e corajosa! Procurei apresentar a intelectual rigorosa, sagaz, irônica, divertida, envolvente, ousada e leve, embora bastante crítica e exigente. Fiz questão de ressaltar reiteradas vezes a estreita e essencial ligação entre a sua obra e militância e o marxismo, de modo que não restem duvidas que para ela, feminismo e luta de classes são indissociáveis. 

O perfil do estudante da Unifesp da baixada santista, como de todas as universidades publicas paulistas, mesmo dos cursos de humanas é predominantemente classe média. A  clientela é composta pelos jovens filhos da burguesia e pequena burguesia santista. O estacionamento, as etiquetas, a parafernália tecnológica e a altivez não deixam duvidas quanto a classe social da esmagadora maioria. Percebe-se, ao lado da altivez típica da burguesia, algo entre o deslumbramento e uma postura blasé fútil e idiota deliberada. Por isso ressaltei o caráter militante, engajado e critico marxista da obra da professora Saffioti - "esqueçam patricinhas, não existe feminismo na burguesia e nem ele se esgota na academia! Feminismo e luta de classes são indissociáveis!" 

Por fim, chamou-me a atenção as diversas faxineiras - predominantemente negras - espalhadas pela universidade, espreitando pelos banheiros, pátios, cantinas, arrastando suas vassouras, rodos, sacos de lixo, completamente invisíveis diante da indiferença coletiva a presença delas. Algumas observavam atentamente de longe, outras cochichavam entre si sobre o alvoroço do evento, outras riam das meninas caprichosamente desleixadas e forçosamente radicais, iconoclastas, andróginas, antissociais, afetadas. Tudo rigorosamente preparado para escandalizar, talvez a vovó, a mamãe ou a titia carola e, nada além disso. Uma caricatura, um arremedo de feminismo superficial, vazio, diletante - bastante parecido com a dita "Femen" que alias, foi bastante citada de modo positivo pelas jovens presentes. Na sociedade do espetáculo, a aparência compensa a falta de ideias e a luta. Não sei como foram os outros dias da semana no evento, mas, uma "semana feminista" que ignora e exclui o proletariado e o lumpen-proletariado feminino não está a altura das bandeiras e lutas do feminismo e é apenas isso mesmo: sociedade do espetáculo - "a realidade surge no espetáculo, e o espetáculo é real. Essa alienação reciproca é a essência e a base da sociedade existente." (Guy Debord em A sociedade do espetáculo).

4 comentários:

  1. A Semana (Des)Construindo o Feminino foi realizada com muita luta, sem recursos e muita militância de um grupo que tenta fazer a diferença dentro da Universidade! A situação das trabalhadoras terceirizadas tem sido objeto de debates e lutas de um grupo pequeno ao qual o(a)s mesmo(a)s organizadore(a)s da Semana pertencem. Você retratou o perfil padrão do(a) universitàrio(a) no Brasil. Não é novidade que a Universidade é elitista. A questão é o que nós, que pensamos na emancipação do(a)s trabalhadore(a)s, fazemos no interior dela. Neste sentido, a Semana não foi um espetáculo, ao contrário tentou e tenta, a duras penas, consolidar o pensamento crítico, tal como fazia Heleieth Saffioti.
    Uma observação: você se auto-convidou! Foi bem recebido e fez questão de SOLICITAR o seu CERTIFICADO ACADÊMICO pelos seus 5 minutos de participação. A classe trabalhadora agradece!
    Renata Gonçalves
    (organizadora da Semana, feminista, marxista, anti-racista e, portanto, uma lutadora pelo fim da exploração e da opressão)

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  2. Auto-convidou? Não é o que dizem as mensagens trocadas. Por fim, "certificado", "pensamento critico" é obrigação e o minimo que se espera de qualquer universidade, sobretudo, das publicas e dos cursos de humanas que se pretendem marxistas. " "Duras penas"? Estou quase comovido! Duras penas sofre quem eu vi ignorado no evento e fiz a critica aqui! "A classe trabalhadora agradece" é o melhor! Eu não desqualifiquei o evento e nem rebaixei a critica, não reduza a luta e o debate ao ambiente elitizado acadêmico. Quero ver subir os morros santistas, entrar nas comunidades de São Vicente, Cubatão, Bertioga e fortalecer as entidades populares de luta - como eu cansei de fazer quando morava na baixada com o PCB e até com o PSoL! No mais, a observação pontual e critica não diminui o trabalho e o debate, senão pra aqueles que só esperam confetes e aplausos como convém as liturgias das elites acadêmicas....

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  3. Dos "auto-convites":
    Renata Gonçalves comentou a foto dela no grupo (Des) Construindo o feminino
    Oi Mario! Que tal vir prestar esta homenagem à...
    Renata Gonçalves 1 de março de 2013 13:16
    Oi Mario! Que tal vir prestar esta homenagem à Saffioti na abertura da mesa da noite, em 04/03 ?
    Histórico de comentário
    Mario Miranda Antonio Junior
    Mario Miranda Antonio Junior 1 de março de 2013 13:07
    Uma homenagem e pequena contribuição....http://pedranocaminho.blogspot.com.br/2013/02/lembrancas-da-puc-sp.html

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  4. Nem tudo está perdido! Era disso que eu falava e que observei ausente em 2013! Antes tarde do que nunca. O evento abaixo, coincidentemente ocorreu essa semana.Apenas o que se espera de uma universidade publica e um saber engajado e comprometido com as causas proletária e populares.....

    Centro de Educação em Direitos Humanos (CEDH), NETeG - Núcleo de Estudos do Trabalho e Gênero e Núcleo de Estudos Heleieth Saffioti convidam para o evento:

    "Mulher, Trabalho e Universidade"

    24/03:

    15h às 17h - Oficina: Organização Política - Mulher e Trabalho (com Diana Assumpção, profa Renata Gonçalves e profa Claudia Mazzei Nogueira)

    17:30h às 19h - Mesa proposta de pauta p "política da UNIFESP para mulheres trabalhadoras da comunidade universitária
    Debatedora: reitora Soraya.

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