segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Pai


O pai era um tipo rústico. Daqueles sem palavras e que apenas resmunga entre dentes. Era tão tosco e limitado que se orgulhava disso. Orgulhava-se da sua grosseria e ignorância. Não que fosse burro, não era; apenas não era dado ao dialogo e afabilidades. Vivia em silencio e mal-humorado. Seu habito era a reclamação – sempre reclamava de tudo e todos. Muitas vezes não falar era recurso para ignorar, demonstrando de forma solene seu desprezo pelo outro. Deboche era para ele espécie demonstração cínica de simpatia. Dissimulado, debochava do outro de forma pouco perceptível. Avaro, mesquinho, sovina. Escondia e controlava rigorosamente a comida da casa. Nada servia ou fazia com gosto, prazer, satisfação aos outros. Comprava tudo sempre do mais barato e da pior qualidade. Sempre em quantidades mínimas. Sempre era ele quem comprava. Não permitia que ninguém o fizesse porque era inconcebível para ele que outras pessoas pudessem ter acesso ao seu dinheiro. Todos deviam comer apenas o que ele comia, na quantidade que ele desejasse, do modo como ele queria e na hora que ele o fizesse. Exemplo: se alguém estivesse na sua casa e acordasse antes dele, ficaria com fome até a hora que ele despertasse e comprasse os pães. Impossível encontrar uma moeda para comprar um pão que fosse sem precisar pedir para ele. Ou se fica com fome ou se come o que tiver – quase sempre uma água e sal da pior possível – ou espera a sua boa vontade em levantar e comprá-los. Quando ele sabia que eu estava acordado antes dele, esperava eu sair para levantar e comprar os pães para que eu não os comesse. Ele, por sua vez, comia vorazmente beliscava escondido o dia todo para não comprometer a sua falsa imagem de austeridade. Sua filosofia era: “ralo abaixo.” Dentro da sua lógica miserável, tudo ia para o “ralo abaixo”, portanto, nada valia à pena comprar – principalmente itens de higiene pessoal. 
Na verdade a sua grande questão era o dinheiro. Detestava gastá-lo com qualquer coisa que não fosse exclusivamente por ele decidido. Alias, mal gastava consigo mesmo – apenas com jogos de loteria e do bicho. Não aceitava compartilhar o seu dinheiro com ninguém. Seu prazer e desgosto era obrigar as pessoas a pedir-lhe. Nesse momento podia te humilhar de várias maneiras – com questionamentos, dúvidas, desprezo, deboche. Assim, o stress começava antes. Porque era certa qualquer dessas manifestações da sua parte, restava apenas saber se após isso ainda recusaria a quantia – sempre barganhava também, oferecendo menos dispondo de mais ou exigindo que se pedisse a quantia rigorosamente exata para dar com desgosto. O seu deboche consistia quase sempre em resmungos de desdém ou risos sutis e sarcásticos. Soberbo, buscava sempre desprezar, ignorar ou desqualificar qualquer demonstração de conhecimento, senso crítico ou pensamento abstrato. A única prova axiomática, incontestável e irrefutável de saber para ele era sucesso financeiro – dinheiro, bens, posses.


Sujeito deliberadamente intratável. Extremamente reservado, metódico, medíocre. Empenhava-se em tornar a vida de quem não gostava - fosse quem fosse - insuportável tanto quanto lhe fosse possível. Para tanto não media esforços: ignorava, desprezava, desdenhava. Não tinha o menor pudor em fechar a porta na cara de qualquer pessoa sempre que possível – fazia isso todos os dias na minha. Nem em desligar o telefone na cara. Nem em cobrar sem cerimônias. Jogava na cara qualquer favor e negava tudo sempre que possível – até água, comida. Quando minha mulher estava grávida nos tratava com desprezo na sua casa e nunca nem por educação ofereceu-nos a cama nem um único dia. Nunca teve o menor pudor também em fazer distinção entre os filhos e demonstrar preferência por um em detrimento do outro. Isso transbordou para as noras e netos. Sem pudores, culpa ou vergonha. Antes de usar drogas e cometer todas as insanidades que cometi já era ausente, omisso, negligente. Nunca se interessou pelos meus estudos – do infantil a pós-graduação -, pela minha vida afetiva ou sexual, pelas minhas amizades, gostos, hábitos, objetivos, sonhos. Antes disso tudo também já demonstrava sua preferência. Penso que começou quando fui trabalhar, aos 15 anos e logo comecei a tomar as rédeas da minha vida, sem referência alguma, orientação, diálogo, admiração, incentivo, confiança e respeito. Assim, logo comecei a buscar outros referenciais no trabalho, na rua, na escola. À ausência de tudo errei muito e descontava minhas decepções, raivas e frustrações nos vícios. Nunca se interessou por saber o que eu pensava ou sentia sobre qualquer situação, mas, não hesitava em depositar ou transferir a culpa de tudo nas minhas costas. Em tudo, eu só podia ser o único culpado ou responsável.

Homem de hábitos simples e moderados, fumou muito pouco - parou antes do meu nascimento -, nunca usou drogas e após dez anos de Brasil e três de namoro casou-se. Bebia sempre no mesmo dia – as sextas – as mesmas bebidas, com as mesmas pessoas, no mesmo lugar e a mesma quantidade. De casa para o trabalho e do trabalho para casa -sem escalas, sem conversa, sem surpresas. Em 36 anos não me lembro dele assistindo um filme, sequer uma única vez nem na televisão. Em casa a rotina era banho, janta, jornal e cama. Para ele, um bom “pai de família” resume-se a comida na mesa e contas pagas, nada mais.
Tem até hoje a convicção de que fez e faz mais do que a média e por isso acha que o mais é favor e luxo. Conforme não tenha consideração, respeito ou afeto pensa que não tem obrigação alguma com os filhos maiores de 18 anos então tudo o que faz é contrariado, com raiva, desgosto e má vontade.
Justiça seja feita, nunca nos bateu e sempre foi homem trabalhador; dedicou sua vida ao trabalho – trabalho é vida? Fez a fortuna alheia e mendigou a Previdência. Além do trabalho tudo o mais lhe era indiferente. Filhos, mulher, política, cultura. Nada de musica, cinema, política, história, poesia, filosofia, arte. Interessa-se apenas pelo futebol, raramente por outros esportes. A isso se resume a vida de um homem digno.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Motivações


Em 2005 jovens protestam na França. Os protestos transformam-se em revolta. A revolta em conflitos. A repressão resulta em mortes. Os protestos iniciaram-se devido à morte de um jovem inocente vítima da polícia francesa. Hoje os protestos na Inglaterra também são motivados pela morte de um jovem inocente vitimado pela polícia. Atualmente ocorrem protestos pela educação organizados por estudantes no Chile e na Argentina. No Chile os conflitos com a polícia são constates e a despeito dos acenos para negociação do governo os estudantes não cedem com relação as suas reivindicações. Ampliaram-se as reivindicações sobre as questões relativas à educação e os atores sociais, para reformas na Constituição e sindicatos, respectivamente, resultando em maiores confrontos e paralisação geral.
Muitas diferenças existem entre esses protestos, países, condições, circunstâncias e culturas. Do ponto de vista econômico, Chile e Argentina estão em desenvolvimento em comparação a França e Inglaterra. Na política, os europeus são democracias estáveis, enquanto que os sulamericanos libertaram-se a apenas poucas décadas de ditaduras militares. É histórica a tradição de levantes e revoltas populares na França e Inglaterra. A maior de todas, ou pelo menos a mais famosa – Revolução Francesa – teve lugar na França. Este ano celebra-se ainda os 140 anos da Comuna de Paris. O movimento estudantil de 68 tambem iniciou-se lá. A Revolução Industrial iniciou-se na Inglaterra. Os anos 70 e 80 foram marcados por incontáveis protestos e revoltas populares – sindicatos e estudantes - na Inglaterra contra o governo neoliberal da “Dama de Ferro.”
Algumas diferenças são dignas de nota. Tocqueville e Carlyle, entre outros, debruçaram-se sobre a Revolução Francesa. Carlyle foi critico feroz da Revolução, do Sansculotismo, temia e era avesso ao poder popular. Ambos denunciaram com veemência a violência, eram liberais e burgueses, admitiam a participação popular na política com muitas reservas e receios. Embora o senso comum e alguns setores pensem de forma dissimulada a Revolução, devido à tomada da Bastilha, como um levante popular, ela começou décadas antes com as ideias libertárias e liberais dos filósofos iluministas. As influências vinham da Inglaterra - monarquia constitucional estável, nação laica, berço do liberalismo econômico e político, potência econômica e militar global. Os filósofos franceses foram influenciados por Hobbes, Locke, Moore, Smith, Bacon, Newton. A revolução Americana foi o estopim do movimento francês – os franceses apoiaram abertamente os americanos. Assim a monarquia soterrou as suas finanças – uma guerra cara, em outro país, sem conotação nacionalista ou de defesa.
De fato, filósofos não pegam em armas. Eles forjaram o movimento revolucionário. Moldaram os ideais da revolução. Modelaram as suas lideranças. Suas ideias desenvolveram aquilo que Tocqueville identifica como o “espírito da revolução.” Isto só foi possível porque, embora fosse uma monarquia absolutista estável, essa estabilidade política permitiu o lastro da burguesia. Na segunda metade do século 18, Paris era uma metrópole. A elite e a burguesia francesa eram cosmopolitas, ilustradas e Paris era a capital européia da cultura e da liberdade intelectual, religiosa e de imprensa. A Inglaterra dessa época tinha apenas 50% da sua população analfabeta. Rousseau e Voltaire vendiam 100 mil exemplares dos seus livros – Cândido, A Nova Heloísa, O Emílio (este era um tratado sobre a educação). Os intelectuais franceses elaboravam a Enciclopédia e pretendiam reunir e democratizar o saber. Por outro lado, milhares de parisienses viviam na mais absoluta miséria, desprovidos de terras, direitos e garantias legais. A Revolução acaba com a escravidão nas colônias, com a pena de prisão por dívidas, faz a reforma agrária e institui o ensino primário gratuito e obrigatório – Constituição de 1791.
Marx e Engels reconhecem o potencial revolucionário da burguesia – Revolução Americana, Francesa, Industrial. Ela destruiu antigas relações e reconstruiu a sociedade a sua imagem e semelhança. O período turbulento que se segue a Revolução, o cenário de instabilidade política nacional e internacional, as disputas internas – Jacobinos e Girondinos – terminam com chegada de Napoleão ao poder. As lições que se seguem: o processo histórico europeu – inglês e francês – é caracterizado por movimentos sociais revolucionários. O acesso a educação possibilita a construção de identidades coletivas e estruturas organizadas em torno de questões públicas, bem como as condições subjetivas – consciência - necessárias a mobilização, organização e ação – da América protestante, a Francesa e Industrial passando pelas revoltas atuais no Chile, Argentina, França e na Inglaterra.
O Chile e a Argentina, desde o século XVIII possuem elites ilustradas e seus índices de alfabetização e analfabetismo sempre foram diferentes dos brasileiros tanto em nível quanto em escala – ainda hoje possuímos 15 milhões de analfabetos e menos da metade do percentual de universitários do Chile. Por outro lado, a Argentina tem pouco mais de 2,5% de analfabetos e longa tradição na educação – a Lei da Educação Comum é de 1884 e de 1868/1874 teve um presidente educador (Domingo Sarmiento). O processo histórico de construção dessas nações – independência - também é anterior ao brasileiro e deu-se no âmbito de lutas e revoltas sociais e populares. Isso ajuda a entender o poder de mobilização e organização dos movimentos sociais e populares desses países em torno de questões publicas – violência, corrupção, trabalho, direitos. Já a juventude e os movimentos sociais - sindicais e estudantis - brasileiros, embora gostem de marchar, suas motivações são pouco ortodoxas.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ciência e Cidadania



Quando trabalhava no Sistema Carcerário paulista conheci situações hediondas. Testemunhei privações, negações, violações de direitos e violências sem fim, praticadas por servidores e entre os detidos. Nos estabelecimentos prisionais paulistas operam duas facções criminosas – o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Revolucionário Brasileiro do Crime (CRBC). Ambas atuam fora e dentro dos presídios, dividindo e lutando por espaço. Compõem o ambiente além dos custodiados – ligados a facções ou não – a administração publica e setores da sociedade. A administração divide-se entre equipe técnica – psicólogos, educadores, serviço social, médicos e advogados – e a equipe de segurança e disciplina – ASP e AEVP. Transitam nesse ambiente ainda famílias, advogados particulares, policiais, fornecedores diversos. Que fique claro, divisão e luta nesse contexto não é figura de linguagem! Caracteriza-se como um espaço de convivência forçada ausente de solidariedade e compaixão, em que predominam a desconfiança e a hostilidade. É a guerra de todos contra todos. A lealdade determinada por interesse ou corporativismo se impõe à solidariedade. A ausência de companheirismo compensa-se pela cumplicidade.

A dinâmica da realidade cotidiana dos espaços sociais nunca obedece ou se submete aos rigores científicos, institucionais ou jurídicos. O que estabelece e articula as relações, confere significado e sentido as ideias, legitima as praticas, valores e discursos não está escrito em obra alguma, em código algum, nem sequer é falado. É necessário estar lá dentro e conviver para saber. Certo dia encontrei com um jovem no ponto de ônibus do CDP. Cerca de 20 anos, alvará na mão, esperava o transporte para ir para casa. Me reconheceu e começamos a conversar. Passou seis meses lá. Tempo suficiente pra se institucionalizar – mantinha a cabeça baixa, as mãos para trás e o “senhor” no inicio e final de cada frase. Foi preso com um amigo de moto – moto roubada. Sem antecedentes, estudante, afirmou que trabalhava no lava-rápido de um posto – estava de carona. No lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada. A cadeia esta cheia de gente assim. Gaiato inconsequente ou deslumbrado com o mundo do crime. Nada sabia sobre as facções no CDP. Caiu no "raio" errado. Aprendeu da pior maneira. Foi "sumariado" e não sabia o que falar. Apenas por dizer que morava em determinada comunidade, que pertencia à zona de influencia da facção rival apanhou durante dias seguidos. Contou-me que um preso cujo nome não me lembro – bandido cruel e famoso -, subia na "burra" e pulava com o cotovelo no pescoço e nas costas dele. Algumas costelas fraturadas, dentes quebrados. Ficou dias sem dormir direito e se alimentar devido aos ferimentos no pescoço. Dormiu no "boi". Na verdade, cochilava e acordava o tempo todo em pânico. O sujeito aplicava-lhe estrangulamentos e ele desmaiava ou perdia os sentidos. Era acordado com água e tapas na cara. Esse tempo só tomou banho gelado e dormia sem colchão. Tudo que lhe era levado nas visitas era tomado. Era intimidado para não falar nada e nem reclamar. Na contagem apenas se identificava – agente algum entra na cela. Tenho certeza que existem criminosos e bandidos e sei a diferença entre eles, não porque li ou me contaram. Eu estava lá. Eu vi. Sei da importância da separação que se impõem entre uns e outros. Sei da responsabilidade do Estado e não me omito em relação a minha como sociólogo, cidadão e educador. Sei que uns não “contaminam” os outros, eles “aniquilam” mesmo – pra continuar com as metáforas biomédicas. Quem pensa deveria conhecer, sob pena de desencantar a teoria, tão perfeita e coerente quando paira sobre a realidade. A realidade estraga tudo. Porem ela se impõem e, conforme dizia Darcy, “um saber que não atua é um saber vadio, diletante e ornamental!”

Sempre comparo essas experiências às teorias, estudos e pesquisas acadêmicas que tenho acesso – por causa do meu trabalho ou formação. Comparo-as também as leis, políticas e propostas das instituições publicas e policiais. Aos discursos, debates, palestras proferidas nos seminários e congressos ou entrevistas na mídia. Quase sempre oscilo entre a indignação e o riso, diante de tantas bobagens, cinismo e arrogância que percebo nisso tudo. São tantas incoerências, contradições, preconceitos, tolices e desonestidades que dá até vergonha, raiva ou pena! É tão grande a distância disso tudo da realidade das ruas e das prisões! Ela só não deve ser maior que o desperdício de recursos investidos e o alheamento natural de quem fala ou estuda aquilo que não vive ou viveu. Isso eu sei por que vivi. Não é ensinado em livros, jornais ou nas cátedras. Isso é o que os bons moços (as) e intelectuais dos “centros ou núcleos de estudos” espalhados pelas grandes universidades e que movimentam elevados recursos também não veem, não conhecem, não se interessam, sequer imaginam, embora falem com a autoridade e arrogância emprestadas pela universidade e esta ou aquela teoria – sempre infalível! -, a despeito da “fatal realidade.” Há pouco vi um especialista criado nos bancos escolares da USP - graduado e doutor em Direito -, pouco mais de 30 anos, falando sobre violência e Direitos Humanos. Nenhuma novidade – Rawls, Bobbio, Dahl, Comparato, Dallari, Foucault, Kant, entre tratados e convenções internacionais que o Brasil é signatário e que são solenemente ignorados cotidianamente! “A Constituição assegura (...).” “O Ministério Público (...).” “As Ouvidorias (...).” “As Comissões de Direitos Humanos (...).” Enfim, saí de alma lavada. O mundo é bem mais brilhante do que imaginava. Conheci uma realidade que não conhecia. Evidente que estive - durante anos - nos lugares errados até o momento – presídios, comunidades, delegacias. Entre tantos lugares no Brasil, eu fui parar justamente naqueles que o Ministério Público e as Comissões não frequentam! Sem dizer que a superficialidade do debate compensa-se pela empolgação de quem fala sobre aquilo que vive ou é comprometido. Impressionante como esses indivíduos cooperam para criar uma "aura de encantamento" por meio de frases de efeito, enfeites de retórica e números; raramente igualada em volume à realidade.
Para quem falam essas pessoas? Para si mesmo ou seus pares. Sobre o que falam essas pessoas? Sobre autores nacionais ou estrangeiros, suas pesquisas ou teorias. Os verbos conjugam-se apenas na primeira pessoa. Quando se trata de ciência falam sobre “objetos”, quando é política são quase sempre “números.” “Coisas” dignas de tornarem-se “conhecimento” ou “informação.” Convenhamos, uma honra para quem vive ignorado! Devido à curiosidade intelectual, pretensão científica ou exigências formais para justificar investimentos é que determinados grupos sociais recebem a atenção da academia – como se esses grupos fossem carentes da atenção da pequena burguesia ou das elites ilustradas. Não passam de objeto de estudo como outro qualquer. De acordo com os pressupostos científicos, jurídicos e de classe, tais grupos e/ou indivíduos são identificados e classificados, elevados a ordem social. Incluídos como objetos de estudos, extratos vulneráveis, populações marginalizadas, conforme as exigências impostas pela cartilha politicamente correta ou pelo rigor formal denominam-se “sub-culturas”, “excluídos”, desfavorecidos, marginais – para a polícia vagabundos! - ou simplesmente “gente diferenciada.” Nenhuma novidade, são os bárbaros, selvagens, bandidos, subversivos, sub-raças ou subespécies de ontem, com uma roupagem adequada aos novos tempos – como pensavam os Sepúlvedas e Rosenberg’s de outrora. Desisti de continuar frequentando esses meios, para mim não é possível auferir lucros ou prestigio em cima dessa realidade aviltante. Sou cético quanto à capacidade e o interesse da academia ou da ciência em oferecer alguma contribuição para mudar isso. Talvez estude, mas, não vou colaborar com a indústria da morte, de lado nenhum, legal ou ilegal, ambos são corruptos e imorais. Tudo ciência ou negócios, nada pessoal, portanto, mas para mim é.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Pesos e medidas, ficção e realidade



Um quarto de hotel, garrafas de vodca, dias trancados sem comer e dormir. Delírios, angustias, muitas pedras de crack. Sexo com diversos desconhecidos. Durante dois meses em 2005, Bill Clegg, 30 anos, gastou 70 mil dólares com apenas três coisas: diárias de hotel, garrafas de vodca, pedras de crack. Após esse longo e tenebroso inverno nas trevas, hoje o jovem Clegg passou de agente literário a escritor consagrado pela obra: “Retrato de um viciado quando jovem.” Excetuando-se a crônica, talvez honesta, sobra muito pouco. Da “originalidade” do titulo as angustias existenciais pueris, da degradação contundente as estórias e comparações previsíveis, tudo revela apenas a origem e procedência do jovem Clegg – classe media alta americana. Nenhuma novidade, a degradação da burguesia é sempre mais dolorosa, contundente, franca, simpática, palatável, comercial.

“Abandonei marido e filhos por causa do crack. Mandei a mais velha para o Canadá. Fumava quinze pedras por dia.” Relato de uma jovem mãe de Porto Alegre.

“Morava na Granja Viana e trabalhava em um restaurante no Itaim Bibi. Passei um ano inteiro fumando todos os dias.” Relato de um interno da Clinica Alamedas na Alameda Franca em São Paulo.

“Comecei a cheirar aos 17. Aos 27 passei para o crack. Sempre fumei sozinho em hotéis ou motéis. Uma vez cheguei a ficar dois meses em um deles. Gastava 500 reais por dia. Cheguei há ficar três anos limpo, mas, voltei a beber e recaí.” Relato de um pecuarista de 37 anos internado em Itapira.

"O jovem ex-vendedor de concessionária da Chevrolet ganhava cerca de dez mil reais ao mês no inicio da década. Após um ano de uso do crack perdeu o emprego, largou o curso de publicidade e roubou celulares em casa. Há quatro anos está limpo e abriu a sua própria clinica."

Todos os relatos acima foram colhidos na revista Veja. Sem duvidas que são todos deprimentes e chocantes, mas, tenho tanta raiva, repulsa e medo do crack que uso de muita cautela em tudo que ouço, leio, vejo, penso e escrevo sobre ele. Percebo porem, em quase todos eles certo exagero emocional deliberado, idiossincrasias, preconceitos próprios da imprensa classe media e com ela identificada. Claro está que os relatos foram deliberadamente escolhidos por critérios de classe social. Selecionados entre indivíduos da classe média e elite. Todos os indivíduos são retratados com generosa parcimônia, compaixão e compreensão, vitimizados e superestimados.

A imprensa e a mídia, em geral, são burguesas. Os formadores de opinião são burgueses ou com eles se identificam - por afinidade, interesses ou ignorância. As vitimas da violência, por exemplo, são os indivíduos da classe media ou da elite que merecem a sua pena. As suas tragédias é que são dramas, deliberadamente manipuladas para causar comoção publica.

“Empresário ciclista é atropelado e morto por ônibus em São Paulo.”

“Jovem advogada é morta em colisão de transito com um Porsche em São Paulo.”

“Jovem empresário é atropelado e morto na calçada por carro de luxo blindado em São Paulo.”

Mortes brutais e estúpidas em situações inaceitáveis caracterizadas pela violência, pelo caos urbano e desprezo a vida, pela negligencia e a injustiça. Quando essas mortes aconteceram, amplamente divulgadas pela mídia, uma jovem empregada domestica foi atropelada no Guarujá na ciclovia por um caminhão conduzido por um jovem sem habilitação. Ela deixou dois filhos pequenos e voltava do trabalho de bicicleta. Apenas noticiou-se o “acidente” no jornal local, sem comoção ou protestos. Igual a ela morrem aos milhares, entretanto, o varejo não causa repudio ou comoção na imprensa, na mídia e nos formadores de opinião.

Falou-se incansavelmente da jovem advogada – bonita, parente de ex-governador baiano, moradora do Itaim Bibi, morta no seu carro de alto padrão. Falou-se do jovem atropelado na calçada – trabalhava em uma ONG (como se isso fosse sinônimo de idoneidade, competência ou abnegação), professor da FGV, formado em Administração pela London Business School. Falou-se do empresário acionista da Lorenzetti atropelado no Sumaré e até “reabriu-se” (?) a discussão sobre as ciclovias em São Paulo e a relação entre motoristas e ciclistas na cidade. Em comum eles tem a sua origem e procedência, estirpe, grife. Alguém duvida que se fossem empregados domésticos, subalternos, desempregados teriam a mesma atenção? Será que se fossem pobres e tivessem sido atropelados ou colhidos no Grajaú, São Mateus ou em Perus estampariam as paginas dos jornais, revistas, sites ou seriam noticia no Jornal Nacional?

Em suma, em seis anos de uso do crack eu nunca o fiz ou conheci um único usuário que se hospedasse em hotéis ou motéis para consumir a pedra. Por outro lado, conheci inúmeros e eu mesmo frequentei os baixos de viadutos e passarelas, com restos de animais mortos ao lado, fezes de animais e humanas, lixo, entulho, insetos e ratos passando sobre os pés. Fumei muitos mesclados também na linha do trem – entre as estações de Pirituba e do Piqueri. Debaixo de uma arvore, atrás dos vagões abandonados, embaixo ou dentro deles, atrás do mato alto, em frente o córrego, fora da trilha da estação servindo meu sangue envenenado aos pernilongos e mosquitos.

Conheci diversos usuários nesses trilhos. Fumei ainda em outros becos, vielas, escadarias na baixada santista, no interior, em casa, mas, nunca em um quarto de hotel ou motel. Só ouvi estorias de gente que diz que já fez isso ou conhece alguém assim. Soube também de relatos em jornais, revistas, livros e pela televisão. Alias, a realidade esta nas ruas, espreitando nos becos e buracos. Hotéis e motéis ficam bem nos livros, reportagens, na ficção. Finalizando, conforme conste desses “relatos”, eu também nunca fiz sexo com “diversos desconhecidos.” O crack é uma droga tão possessiva que é impossível fazer qualquer coisa – até pensar – quando se esta consumindo ele – na verdade é ele quem te consome. Do ponto de vista físico, ele ainda inibe a libido e a taquicardia causada também impedem a ereção. Enfim, a cartilha do romance comercial barato não pode dispensar o clichê típico da ficção marginal: sexo vulgar irresponsável e inconsequente. Quem não gosta de ler pode encontrar isso nos folhetins televisivos, a formula é a mesma. Quem quiser conhecer a realidade é só abrir a porta e os olhos. Porque os ratos, as fezes e o lixo também não ficariam bem nas paginas dos livros ou nos folhetins. Finalizando, sobra o quê mais? Nada além da velha cantilena individualista da força de vontade em oposição a fraqueza, a despeito das condições desiguais e da omissão publica e social.