terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Passageiro

Um homem pode ter muitas vidas, mas só se vive uma unica vez. "Viver é o que temos de mais importante, muitos apenas existem." Wilde estava certo. Há tempos que eu apenas existo, como muitos. Quanto de uma vida ou de uma pessoa podemos perder? Quanto vale uma vida? Qual é a medida da vida? Viver por viver? Viver porque a vida nos foi dada?! Todas as vidas equivalem-se? São tantas as falacias e os sofismas da moral burguesa judaico-cristã para justificar a vida, mas não podem justificar a miséria, a desigualdade, a fome, a violência, a morte, a corrupção e a exploração. Quanto uma vida suporta de sofrimento? Jesus sofreu, São Francisco sofreu, o Che sofreu. Rimbaud, Van Gogh,  Garcia Lorca, Sá Carneiro, Maiakovski, Lima Barreto, Lamarca, Sebastião Alba, Antonio Gramsci, Walter Benjamin, Thoreau. Muitos tombaram antes dos 40 - Lima Barreto como Glauber partiu aos 41. Leminski aos 44. Todos tiveram as suas razões e o seu quinhão de dor. Todos lutaram e tombaram. Eu lutei, luto, estou derrotado e não quero mais lutar. Lutar por que, pelo que? Dinheiro? As putas, os gigolôs, mercenários, ladrões que fiquem com ele. Quero apenas ensinar a ela que a vida é muito mais do o que o vil metal! Só os pobres de espírito e medíocres fazem dele a sua vida. O fato é que ela não precisa de mim agora, já não precisa mais e nem sei se algum dia precisou ou precisará e, nesse mundo, apesar da hipocrisia da moral burguesa, nenhuma vida vale muita coisa. Tudo passa e eu também passarei..... E como disse um poeta, passarei sozinho.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Recaídas: a queda

Faz 4 meses da ultima recaída. Ela ainda não acabou. Ele havia passado dez meses limpo e saudável. Pleno de esperanças, fé, animo. Foi motivada pela raiva. Raiva, ira, ódio. Raiva da vida, de Deus, das pessoas, da mediocridade. Sempre tem um idiota para julgar a sua vida sem vive-la, sequer pode imagina-la! O emprego chegou após 19 meses desempregado. Tempo demais! Tarde demais! Desaprendeu a acreditar no trabalho e, sobretudo, nas pessoas. Durante esse tempo trabalhou bastante em troca de promessas e ilusões. De graça, voluntariamente e em troca de falsas expectativas. Muitos se aproveitaram da situação e exploraram seu trabalho. Participou de incontáveis seleções - uma mais "rigorosa" e ridícula do que a outra. Afinal, o emprego chegou no meio da recaída. Não havia mais esperanças, expectativas, sonhos, fé, animo. Apenas raiva, ira, ódio, descrença, indiferença, desconfiança. Que importa agora a porra do emprego? Que importa agora a porra do dinheiro? Fodam-se! A alegria acabara-se há bem mais tempo, desde que elas partiram. A tristeza é grande demais! O buraco é fundo demais! Depois de um tempo, o homem acostuma-se com tudo. A tristeza e a desesperança tornaram-se companheiras inseparáveis! Passou-se muito tempo e não é possível cogitar a hipótese de se pensar em mais tempo: para recomeçar, refazer, reconstruir. É preciso paciência e confiança para isso e ele as perdeu pelo caminho.
Não é possível construir coisa alguma com o que sobrou, apenas destruir de vez o que restou! Porque não é possível se viver sem amor, esperança, alegria e fé. Alguns filósofos sustentam que a partir da destruição é que se pode construir algo. A ciência e a academia também já não me interessam. Perfeição demais, rigor demais, clean demais, frivolidades, demagogia e cinismo demasiados. Sabe que nada se constrói por meio do ódio e da indiferença. Não é possível reconstruir mais nada também porque os cacos foram despedaçados e dispersos. Reduzidos a pó. O tempo pode destruir um homem de várias maneiras, sobretudo pelo cansaço. O homem não precisa de justificativas para viver e a vida basta-se por si só. Tambem não pode pretender justificar morte alguma.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Amanhã

"Eu não sei o que o amanhã me reserva" - esta foi a ultima frase escrita em inglês por Fernando Pessoa. Só sei que as vezes pode ser tarde demais. O tempo é demasiado. Até para recomeçar. Tarde  demais. Os dias tornaram-se pesados. Tarde demais para acontecer algo bom. Eu esperei tempo demais. Não importa. Ela se foi e não há nada que possa ser feito. Que importa o dinheiro? O trabalho? O sexo? Ou a vida se eu nem sei o que ela come ou o que faz quando acorda?! Ela cresce, sonha, brinca, chora e ri longe dos meus olhos. E eu penso se ela esta rindo ou chorando todo o tempo. Que importa hoje ou amanhã se eu nem sei mais como viver sem ela.....

domingo, 8 de janeiro de 2012

Excessos


Toda violência é um excesso. Uma apelação. Existem varias formas de violência e pode-se expressa-la de varias maneiras. São diversos os pontos de vista, as teorias e os campos do saber que se dedicam a estuda-la – entende-la e até justifica-la. Passa pela moral, pela ciência, pela cultura, perpassando toda a sociedade, suas diversas instituições e os indivíduos. A psicanalise talvez seja o campo do saber que nos oferece as melhores respostas no que diz respeito aos protagonistas - indivíduos.

Toda violência é uma relação de poder. O poder daquele que se supõem mais forte e capaz de subjugar o outro, domina-lo. A violência, portanto, deve corresponder o medo e a obediência. Quando isso não ocorre percebe-se a sua nulidade e a impotência daqueles que a exercem. O sargento da Policia Militar era um sujeito truculento. Em meio a uma abordagem por suspeita de consumo de drogas, imediatamente fez aquilo que considerava ser a sua expertise, oficio e prazer.  Desferiu-lhe um soco na cabeça, seguido de um cruzado no peito. Um subornidado entendeu aquilo como um convite e acertou-lhe as costas. Agressões físicas e verbais. Questionamentos diversos e desordenados seguidos de ofensas e acusações. Evidente que não se pretendia esclarecer coisa alguma, o objetivo era apenas demonstrar força e se divertir com o terror que ela pode causar.

O sujeito estava cercado de PMs e, naquele local e situação não era possível identificar qualquer patente, portanto, o fazia conforme falavam entre si. Após 20 anos da primeira abordagem, percebeu que as praticas da PM continuam as mesmas. Do ponto de vista objetivo, rigorosamente nada mudou no procedimento dela, apenas nas cartilhas e manuais de conduta, nos discursos oficialescos e nas propagandas institucionais.
O PM mais jovem, por sua vez, embora tivesse postura de oficial, era apenas um soldado. Conversava com calma e sobriedade, chamava-lhe de cidadão e pedia autorização para revista-lo e os seus pertences. Fazia perguntas de forma pausada e com clareza, sem ofensas, gritos e qualquer outra forma de intimidação. Sua postura sóbria e profissional prevaleceu.

O sujeito, por outro lado, conhecia há tempos à postura truculenta – como vítima, observador e pesquisador. Havia sido ainda boxeador, sabia apanhar e bater. Em momento algum acusou os golpes, demonstrando medo, raiva ou subserviência. O PM jovem abriu o dialogo e o sujeito entendeu que com ele isso fosse possível. Identificou-se como trabalhador, pai de família, sociólogo e pós-graduado em Direitos Humanos pela USP. Silencio. Olhares de cumplicidade, medo, raiva, dúvida, curiosidade e apreensão. Ele não era um só mais um usuário qualquer, como aqueles que vagam pelas ruas e que eles estão acostumados a espancar por diversão ou para manter o costume, ele era um usuário esclarecido. Embora fosse pobre, questionava-se sobre o por que todo sujeito mais ou menos esclarecido é confundido com a elite e a classe media? Simples: a boa educação é reservada a elas e a policia aqueles. Fim da violência física e reinicio da verbal e da intimidação, porem, ficou evidente a mudança da sua motivação.  
  
Após breve silencio e mais interrogatório, o sargento começou o discurso padrão da tropa na rua, diferente daquele que consta dos manuais e propagandas institucionais. Trata-se daquele típico das formações militares tradicionais – “lei do mais forte” e “manda quem pode e obedece quem tem juízo.” É um tipo de poder que respeita apenas um seu igual ou que é considerado superior – mais forte. Ilegítimo e ilegal porque ignora quaisquer princípios morais ou éticos, assenta-se exclusivamente na violência e na força.“Direitos Humanos é o caralho! Eu cago pros Direitos Humanos! Coisa de vagabundos e defensores de bandidos! Direitos Humanos comigo é no tapa e na bala!”  Ele tinha vontade de rir e sentia pena ao mesmo tempo – pois, como podem existir pessoas tão fracas, baixas e pobres intelectualmente, moralmente e espiritualmente?! Como podem pessoas assim, representarem o Estado e pretenderem defender a sociedade e reivindicarem para si autoridade legal e boa fé publica? Portarem armas?! Era notório o desconforto, insegurança e descontrole do sargento PM diante do seu silencio e uma ou outra resposta curta - porque não é possível dialogar com um troglodita que fala com os punhos. 

Receoso e curioso acerca das suas informações, questionou sobre o por quê dessa sua formação  ao que ele respondeu que deu-se devido os seus estudos e experiências na área de Segurança Publica – SSP e Funap. Conversas a parte: “O cara não é bandido, que merda, só usuário nessa porra.” “É, mais um filho da puta viciado.” “Como pode? O cara trabalhou na SAP e na SSP!” “Que merda!” “Como pode, sociólogo e pós graduado em Direitos Humanos usando drogas?” Do terror e deboche passou-se a apreensão sobre como proceder e resolver a questão. Debates a parte e PMs pensativos andando de um lado para o outro, o mais jovem acompanhado de outro conversam com o sujeito de lado e respeitosamente perguntam-lhe sobre seu trabalho e formação. Ele explica-lhes que faz uso eventual e recreativo – se é que se pode falar assim – e que raramente usa na via publica, posto que também tenha família. Explica que fazia mapeamento de homicídios e atuava no CDP de uma cidade do interior. Não conseguem disfarçar certa tristeza e desconforto pelo seu vicio e ao mesmo tempo admiração pelo seu trabalho e formação. Assim é o ser humano, instável, incompleto, imperfeito, infeliz e incrível.

Após isso os que checavam seus documentos constatam uma ocorrência pela lei 9.099. O PM interroga-o e provoca: “Você que trabalhou na SAP e SSP sabe de cór o que é a 9.099?" Após alguns anos e naquele momento não podia lembrar-se, afirma. "Agressão" afirma o soldado, ao que ele responde que se deu devido a uma confusão entre inquilinos, quando o marido agredia a esposa em casa com um filho recém-nascido e ele e o irmão interviram. “Não aceito covardia no quintal da minha casa”, disse. Involuntariamente o sargento truculento acenou com a cabeça concordando. Nesse momento já não havia mais agressões de nenhum tipo e nem rigor algum no trato ou procedimento – mãos soltas e dialogo de igual para igual.

O sargento chamou-o de lado e disse que tudo iria acabar bem. Disse que a agressão se deu devido o uso da droga próximo a viatura, que esse era o procedimento para impor respeito e intimidar o usuário que quisesse fazer uso próximo da policia afrontando-a. Ele respondeu que não costumava fazer isso, sobretudo porque também tem família e não concorda que crianças vejam uso de drogas. O sargento ressaltou que o caso era intolerável apenas devido à proximidade da viatura, em outras palavras, pouco importam os transeuntes ou crianças. Disse que ele seria liberado e que tudo resolver-se-ia na paz, contudo, se ele o denunciasse ele iria busca-lo até no inferno. Disse que sabia que ele observava todos os nomes e pediu para que o olhasse nos olhos, pois iriam conversar agora apenas de homem para homem. Admitindo que embora tenha sido um tanto truculento, disse sem titubear que ele ainda não tinha visto nada ainda e que homens estão acostumados a apanhar e apenas um soco, não deixa marcas ou sequelas, portanto, da parte dele estava tudo resolvido e eu podia ir em paz, etc, etc, etc. Encerrou dizendo que se eu estivesse em casa nada disso teria acontecido, mas, que esse é o trabalho deles - espancar, humilhar?! Ele disse que não iria denunciar nada, que estava errado, entendia a postura e o trabalho policial – e estava sendo sincero nisso porque entender é diferente de aceitar – e que diante disso sentia-se no lucro. O soldado jovem entregou-lhe os documentos e pertences. Ele agradeceu. O jovem PM perguntou se tinha alguma duvida ou queixa com relação ao trabalho da PM. Ele afirmou que não o chamando pelo nome. O PM perguntou se havia decorado o seu nome. Ele disse que não era o caso, apenas costume devido o trabalho social em comunidades. Eles estavam receosos pela sua conduta autoritária e covarde. O jovem PM perguntou por que ele sorriu com o seu questionamento e ele disse que apenas o chamava pelo nome por uma questão de respeito, e sorria porque sentia-se aliviado após toda aquela tensão. Assim os PMs o liberaram e aconselharam-no a ir para casa, cuidar da família e da vida e não mais fazer isso, que numa próxima ocasião ou em outras circunstancias ele poderia até ser preso, ferido ou morto. 

Foi-se pensando em como a violência é estupida, burra, ignorante, desnecessária e inútil. Foi-se pensando que se a abordagem demorasse mais cinco minutos terminariam chamando-o de doutor e desculpando-se, alias sutilmente e a sua maneira todos se desculparam – inclusive ele. Pensou ainda em todos os prejuízos que a droga ocasiona e se chegará o dia em que teremos uma outra polícia, um outro Estado – mais eficaz e menos corrupto e indolente -, uma verdadeira democracias e cidadania, uma outra e verdadeira justiça. Até lá, e diante de tantas perguntas sem resposta, também não se sabe o que fazer para sobreviver a isso tudo.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Homens, crimes e prisões


Ele era alto e forte, muito forte. Intimidava. Peso pesado e eu leve. Um pouco mais novo do que eu e já estava havia uma década no sistema. Tínhamos em comum além da idade e o trabalho o gosto pelo boxe. Por isso éramos bons colegas de trabalho e nos respeitávamos como profissionais e homens. Estava sempre no portão da ala com a “12” em punho. Apesar do porte, da expressão dura – talvez devido o ambiente e o ofício - era um sujeito simples e amável. Calmo, de conversa mansa e agradável, divertido. Passava tranquilidade aos demais, inclusive para os presos. Quando conversava com alguns deles – o que não era raro -, tratava-os por “filho” ou “jovem” – inclusive os mais velhos que ele.

Contei a ele sobre a minha curta carreira de pugilista amador e ele sobre suas experiências no boxe e no Muay-Thai. Falávamos sobre as técnicas, os estilos, golpes, os grandes lutadores e as lutas memoráveis. Contei-lhe sobre minha experiência na Secretaria de Segurança de Guarulhos e o trabalho nos DPs e Batalhões da PM, as manipulações e inconsistências nas estatísticas e registros de homicídios. Contou-me sobre suas experiências com o Grupo de Intervenção Rápida (GIR) e as rebeliões que enfrentou – tanto em presídios quanto na Fundação Casa.

Causou-lhe espanto saber ainda que eu havia atuado em comunidades cariocas – Providência, Maré e Nova Iguaçu. Contei-lhe sobre o tráfico e o seu poder de fogo – mostrei-lhe diversas fotos de cartuchos deflagrados pelo tráfico, disparados em solidariedade ao “partido” durante a madrugada no dia dos ataques em São Paulo em 2006, ocasião em que eu trabalhava na Providência. Contei-lhe sobre os disparos de “traçante.” Sobre a “biqueira” na entrada da comunidade - em cima de um bar na via principal daquela região - no mesmo quarteirão da creche, Associação dos Moradores, escola, internet grátis da prefeitura, Cemitério dos Ingleses e em frente à Cidade do Samba (região portuária no centro da cidade). Expliquei-lhe como funcionava o ponto – 24 horas por dia sempre com três "soldados", dois para segurança e contenção armados com FAL ou AK-47 e um para servir a freguesia. Os olheiros ficavam próximos em outro ponto melhor localizado. Estavam sempre prontos e dispostos para o confronto e, talvez, por isso, nunca vi uma viatura parar – apenas passavam e ignoravam o trafico como se ele não existisse ou fosse “parte da paisagem” -, embora o ponto fosse acintosamente visível. Contei-lhe sobre a precariedade das condições da PM carioca e da sua baixa autoestima – o que sem duvidas colaborava para a corrupção da tropa.

Sempre me ouvia com atenção e interesse. Uma vez me contou sobre uma ação do GIR na Fundação Casa. Contou-me que já existia há tempos uma espécie de PCC-Jovem. Disse-me que agiram em uma rebelião para retomar a unidade que estava sob o controle da facção. Relatou sobre as mordomias – TV, DVD, celular e até frigobar - e privilégios – visita intima - dos lideres juvenis dentro da unidade, bem como seu prestigio e poder junto aos demais menores e até alguns agentes. Contou-me sobre o armamento e as táticas usadas na contenção e invasão. Balas de borracha, spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral. Escudos, capacetes, coletes, cassetetes. Armas não letais, mas com alto poder de intimidação e lesão. Explicou que após a retomada da unidade, a técnica utilizada era a do “cú no chão.” Todos nus com a cabeça entre os joelhos abraçando as pernas. Tal técnica servia – do ponto de vista da segurança - para assegurar que todos estavam desarmados e indefesos, bem como para humilhá-los. Explicou que as agressões e torturas - socos, tapas, chutes, sufocamentos e enforcamentos - eram parte da "técnica" – seria isso medida socioeducativa? Contou-me que muitos eram constrangidos e intimidados a participar disso e, que por isso, havia deixado o grupo. Por outro lado, frisou que muitos praticavam com gosto e zelo. Não aceitava covardias e entendia que a humilhação não recupera, corrige ou provoca qualquer atitude ou pensamentos positivos/produtivos. Depois de um tempo estava tornando-se embrutecido, calado, nervoso, tenso, insone e passando tudo para a sua família. Nesse momento decidiu que era à hora de sair, ainda que fosse necessário romper com alguns colegas e ser visto com desconfiança e desdém por outros. A paz consigo mesmo e em casa vale mais que a consideração e o respeito de alguns sádicos e o bônus no salário por cada ação.  Hoje é um simples AEVP – Agente de Escolta e Vigilância Prisional.

A cadeia por si só já é uma tortura. A ausência de liberdade e privacidade. A convivência forçada. O medo e a desconfiança. A incerteza e a tristeza. A miséria e a violência extremas, em todas as suas formas e expressões. Constantes e perenes. A cadeia é o mundo virado do avesso, uma insanidade, uma aberração. Percebe-se, contudo, que é no pior dos lugares, nas piores situações e entre as piores pessoas que se pode também encontrar as melhores e o melhor do ser humano. Ele foi uma dessas gratas surpresas – tive outras entre funcionários e presos.

Numa ocasião a cadeia estava em obras. Construía-se um novo alojamento para a tropa. O diretor era também o comandante da tropa. A tropa era um seu produto, motivo de orgulho para ele e de referencia de política de segurança para o Estado. Assim, recebia convites para apresentá-la e até dar consultoria e palestras em outros Estados. Desse modo angariou patrimônio e prestigio.

A obra, em uma cadeia, evidentemente era publica. Por outro lado, embora seja requisito indispensável da administração publica, transparência é ficção ou lenda tanto quanto a impessoalidade ou o respeito aos Direitos Humanos nas cadeias paulistas – meras formalidades que não vão além dos documentos e discursos. Os trabalhadores eram presos de outro presídio. Nunca vi a entrega de material de construção no local, embora a obra nunca estivesse parada. Nunca vi um engenheiro ou outro técnico da empresa contratada pela licitação. Também nunca vi um fiscal publico – de obras ou do trabalho - acompanhando a obra. É impressionante a quantidade de presos que trabalham dentro de um presídio, tanto na administração quanto na manutenção dele. O rapaz da informática – preso -, por exemplo, era estudante de medicina e ex-seminarista – discutia Sartre e Merleau Ponty comigo.

Havia um preso evangélico que trabalhava na regional da Funap. Era chamado pelos outros de "reverendíssimo." Consta que fosse pastor. Tenho uma intuição boa para esses "tipos" e, muitas vezes, ela é recíproca. Embora falasse sobre a Bíblia e Deus, não fazia proselitismo e evitava falar comigo. Não que tivesse medo ou demasiado respeito, apenas me olhava e falava com desconfiança e algumas vezes até com dissimulado deboche. Procurava se mostrar outra pessoa para mim – menos severo e mais descontraído. Porem era nítido o seu desconforto na minha presença e, a sua postura e discurso desconfiados. Nunca me olhou nos olhos e falava de forma indireta, com meias palavras e de maneira sucinta. Evitava ficar a sós comigo. Disse-me apenas uma verdade: “não existe nada mais corrupto no mundo que diretor de presídio. Basta comparar o patrimônio de qualquer um deles com a sua renda.” Falou-me na cozinha, durante o almoço, na semana em que sairia de condicional após cumprir 16 anos no regime fechado. Nunca me interessei e nem me interessa saber o crime que cometeu, pela sua pena pode-se deduzir que não era um estelionatário. Penso, porem, que essa sua observação, aparentemente despretensiosa, tenha sido uma denuncia velada, um ultimo ato de revolta contra o sistema e orgulha-me ter sido digno disso. 

Soube que o diretor do CDP era proprietário de uma gráfica. No final do ano estava de férias e tinha ido a um Spa para perder peso. Depois iria para os Estados Unidos atravessar o país de “Harley” com uns amigos. Era casado e pai de duas meninas. Tudo absolutamente "compatível" com a renda de um diretor de presídio – um ASP com quase vinte anos de serviço e bacharel em Direito! Conforme fosse "empresário" do ramo tipográfico, pensava que fosse um homem rico que buscasse prestigio político e social no serviço publico em uma cidade do interior paulista, posto que sua riqueza viesse de outros meios e da sua origem. O AEVP riu: “lavagem de dinheiro.” A realidade é dura e simples, o resto é ilusão, tolice, demagogia ou cinismo. 

Impressões


Aquele ano foi emblemático. Particularmente foi importante porque era aquele em que o homem começa a envelhecer. Lembrava-se da advertência de Camus na “A Peste.” Foi em um dia de março que ele a encontrou. O calor, demasiado era o calor. Insuportável. Ele pensava em como é possível pensar, respirar, viver naquela espécie de fornalha? Tanto era o calor que só restava o silêncio e a lassidão. Aí ela apareceu.
Os homens receiam a mudança, mas não escapam a tragédia. Celebram a não-mudança e quase sempre orgulham-se do próprio medo e da ignorância. Da sua parte era natural ignorar tudo - naquele momento menos o calor. Por que tanto calor? Por que tanto medo? Por que tanta indiferença? Por que tanta ignorância? Perguntas tolas e indolentes para espíritos inquietos; acentuadas pelo desconforto ocasionado pelo calor.
Quando ele a viu, no entanto, abriu as portas e as janelas e a luz entrou e o ofuscou. Mas não é possível escapar a tragédia, ainda que se aceite de bom grado a mudança, venha como vier e de onde vier. O calor, a luz, o torpor. Ele podia ver, ouvir, sentir, mas estava fustigado. Renomada tolice tergiversar sobre os significados e os sentidos, enxergar ou escutar. Que diferença faz quando se tem consciência das misérias, tragédias e da finitude? Frivolidades para presunçosos.
O sol queimava e sufocava. Ela brilhava e pairava sobre as misérias e o flagelo. Um sopro de vida, alívio, uma brisa para os olhos. Aquela era uma ocasião solene. Nem tanto para ele. Estivera envolvido em tantas outras antes. Não que fosse importante, não é e nem pretende ser. Deus sabe o quanto ignora isso e se esforço para tanto! De fato, naquele momento apenas inquietava-se por saber como se pode viver dentro de um caldeirão fervendo! Interessava-se mais pelos decotes, pelas roupas curtas e coladas, pelo suor, pela tatuagem e o anel no dedo do pé da moça, pelos cabelos tingidos, pelos piercings diversos e os olhares curiosos e maliciosos.
Ela se vestia com charme e discrição. Todas pareciam vulgares perto dela. Nunca pode ficar mais do que dois minutos diante de um espelho, por nada nem ninguém, por isso não consegue entender esse excesso de zelo. Apesar do calor, fumava, tossia e tentava se concentrar na fumaça do cigarro que o distraía. O suor escorria pela cabeça e irritava. Via e pensava nos insetos e nas crianças seminuas. Nas moças e mulheres seminuas.
Os olhares se cruzaram e o calor ficou mais ameno. Tudo a sua volta resplandeceu. Como podia ser um homem tão abençoado e idiota?! Todos os homens devem ser abençoados e idiotas cada qual a sua maneira e medida. Apenas um arrebatamento. Nada mais que um momento para perceber e se ausentar. Desapareceu, silenciou. O mundo estava todo à sua volta e não o percebes?!
Os pássaros, os insetos, as vozes e todos os sons, as sensações, quanta coisa pode ser o mundo em tão pouco espaço e tempo! Todos celebravam os seus sonhos, esperanças e ilusões. Ele também os tem, embora desde que compreende um pouco de si, do mundo e dos homens os tem cada vez menos.
Lá estava ele por causa de política. Aquilo que transforma-nos e a sociedade. O Leviatã agindo sobre a sociedade e o individuo. A Esfinge indecifrável que nos devora. Tudo que é do homem é politica, porem, ele é mais – o homem é o animal político! A sua fala foi direta como deve ser. Foi saudado por isso. É um homem publico - sem vínculos partidários e interesses eleitoreiros – antes, porem, sabe-se apenas homem. Por isso fala apenas assim. Entende-os todos e, assim, sabe aquilo que é, pode e deve ser cada um deles – o homem publico e o homem de partido. Não omite os limites e as diferenças, ao contrario, acentua-os.  Sabe que maior de todos e o mais complexo é apenas o homem. Por isso admira-o e o respeita acima de todos.
Ela estava lá, o viu e ouviu-o. Ela não o questionou com palavras. Ela enxergou além do homem publico e da política. Porem, ninguém é capaz de ver tudo... . Há tempos ele já não tinha tanta clareza sobre tudo, nem ilusões, mais ainda naquele dia. Suas esperanças se reservavam as pessoas, apenas aos homens simples com os seus sonhos e desejos, muito maiores e mais complexos que os interesses, exigências e veleidades do poder.   
O calor consumia-os e com eles aquilo que foram. Tudo o que existia neles. Os sonhos e as sensações, os sentidos e tudo mais se desvaneciam e esvaíam com ele.  Apenas podiam ser criaturas viventes que habitavam debaixo do céu. Indiferentes para ele como somos uns aos outros. Tudo isso se passou em pouco mais de duas horas. E o tempo e tudo que experimentamos nele são falsos, superiores aos nossos juízos, sentidos e certezas. E o homem deve ser o caos cujo impulso é uma compulsão pela ordem.  O fato é que o calor e ela o entorpeceram e ele pode apenas experimentar aqueles momentos e, talvez, por isso, tenha vivido mais e apreendido sobre tudo o que pensava saber e conhecer antes. E o dia se foi junto com tudo o que ficara para trás e ele sempre ressurge após o crepúsculo