sábado, 24 de setembro de 2011

Descaminhos

As madrugadas são sempre mais silenciosas, sinistras, sombrias. No domínio do vício se ignora o que seja o medo, embora se perceba que o mal espreita. Muitas vezes eu estive ao lado dele e da morte. Sem temor, não destemido. Não sei ao certo em que acredito, apenas não me considero esperto ou forte suficiente para escapar ileso de tudo que escapei. Na verdade, penso que sou apenas um ousado e abusado com alguma sorte. Repeti o mesmo erro diversas vezes, conforme o vicio te domine e o deixe incapaz de refletir com clareza.


Depois de muitos anos usando drogas você se torna capaz de identificar usuários e traficantes em qualquer lugar. Quando me mudei para uma cidade do interior trabalhando em um presídio não podia me arriscar e nem me expor. Mudei-me então para um bairro bem afastado do presídio. Passei meses usando apenas em Sampa e a semana toda me virava sem. Passei a frequentar alguns bares pela cidade. Solitário, bebia todos os dias. Logo comecei a perceber os "movimentos." Conversa vai, conversa vem, um dia bebendo com uns caras o papo surgiu. Logo estava indo com eles até a boca.

A boca ficava em um dos caminhos mais estranhos e sinistros que já havia passado na vida e em um dos bairros mais violentos da cidade – Nova Esperança. Era preciso andar por uma trilha estreita, ladeada pelo mato alto. Trilha tortuosa e inclinada passava atrás do estacionamento do Batalhão da PM e do Corpo de Bombeiros da cidade. A trilha começava no final da rua, que por sinal era uma rua sem saída. Terminava nos trilhos do trem e continuava subindo por uma escadaria estreita e mal feita, entrando em uma viela. A boca era lá. Fui apenas uma vez com esses dois caras que conheci naquela noite. Todas as outras vezes depois fui sozinho. De dia, à noite, de madrugada. Varias vezes num mesmo dia. Feito um insano entrando e saindo daquela rua. Passos rápidos passando varias vezes na frente daquele Batalhão. Debaixo de chuva e apenas com uma lente de contato nos olhos, enxergando apenas com um olho. Escorregando, tropeçando, me esgueirando e equilibrando-me para não cair naquela trilha lamacenta. Era só eu, ela, a escuridão e o silencio profundo da madrugada. Ouvia ruídos mínimos, meus passos, meu coração, minha respiração, a chuva. Via luzes abafadas ao longe. Tentava ouvir vozes ou passos além dos meus. O pensamento ia a mil por hora na cabeça, incapaz de concatenar as ideias. O nível de tensão e adrenalina era alto demais. Ao mesmo tempo, bastava parar um minuto para respirar, subir as escadas ou descê-las sem cair, por exemplo, para perceber a calmaria e o silêncio mortais que te fazem perceber a própria solidão e temer o próprio pensamento e a paz. Nesses instantes de sanidade é que às vezes se quer se entorpecer. 

A segunda vez que fui lá, simplesmente cheguei e me enfiei no meio do movimento e já fui pedindo como se fosse da casa. Passei batido, nem perguntaram nada e já foram me servindo. Eram todos moleques. O mais velho devia ter 18 anos. Deslumbrados com o crime e as suas pistolas e revolveres. Ingênuos e idiotas imaginava que mais cedo ou mais tarde encontraria-os no presídio chorando. Um estava sempre fumando maconha. Sempre sorrindo e falando besteiras. Sempre me oferecia - queria me deixar à vontade. Nas outras vezes eu já era da casa mesmo. Em todas às vezes nunca me pediram nada, nunca me perguntaram nada, nunca me ameaçaram ou me senti intimidado e nem desconfiavam quem eu era. Chegou a me apresentar a sua mãe e ela reclamou da vida dele para mim. Falar o que? Disse que era fase de adolescente. Logo ele sairia dessa - por bem ou por mal. Nunca fui abordado e nem parado por nada nem ninguém. Muito embora soubesse que poderia ser abordado na entrada ou saída da trilha - que explicação daria? Ou no meio dela por algum nóia na fissura ou sangue no olho - como escaparia ou me defenderia? Poderia ser vitima de qualquer covardia ou crueldade - quem saberia? Caminhava cerca de quarenta minutos para ir e o mesmo tempo para voltar. Ainda assim eu ia, por isso sei que se existe o mal algo além também existe porque nada me aconteceu e eu andava só pelas sombras. Enquanto minha família dormia, meus amigos dormiam, os presos dormiam e a cidade dormia. Além de mim e das sombras alguém também vigiava. Porque ninguém tem tanta sorte. Ninguém pode ter nada de graça - eu sei o preço. Por isso pago ele e tenho a obrigação de escrever, falar, agradecer, trabalhar, sobreviver, viver....

A conta


Eu já andei pelas sombras.
Estive nas trevas.
Olhei o demônio nos olhos.
E ele tinha olhos vazios.
Os homens de bem semeiam o medo.
Preconceitos, ódios, desespero e desesperança.
Eles têm raiva nos olhos.
Morte é o que eles oferecem.
Fome é o que eles espalham.
Discórdia é o que eles plantam.
Indiferentes a miséria e o sofrimento.
O caos é a sua ordem.
O inferno está à porta.
O demônio é um cobrador sutil, implacável e a conta é alta.
Deus não se imiscui em negócios e nem joga dados. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Movimentos Urbanos


Quando era punk frequentava o Barzil no Largo da Matriz na Freguesia do Ó. O Barzil era o reduto Punk e Banger da ZN, no inicio dos anos 90. O local era um casarão do inicio do século XX e as bandas se apresentavam em um porão insalubre. Nessa época a galera era eu, meu irmão, Negão, Alex, Rodrigo, Pardal, Gringo, Duque, Trator, Buldogue. Havia outros caras que não me lembro, uns skins e uns punks das antigas. Uma vez estávamos lá e o Buldogue nos chamou para uma festa em um bar na Praça da Arvore. Fomos. Chegando lá, só carecas na festa e poucos punks antigos. Eu nunca fui muito de visual escandaloso, o mais era o Gringo – moicano, roupas militares, coturnos invocados. Na verdade, nessa época, não era qualquer um que usava um moicano, como hoje usam até pagodeiros e funkeiros. Para se usar um moicano era preciso ter atitude e historia no movimento punk, como usar cadarço branco no coturno. Enfim, era um símbolo de status que dizia muito a seu respeito e era reservado para poucos veteranos e sobreviventes. Nessa época, até camiseta de banda podia causar problemas – eu mesmo tomei algumas e rasguei outras.

Logo que chegamos percebemos o clima pesado, tenso, sinistro. O Jason estava lá. Ele era o mais famoso skinhead da época, um dos mais violentos. O Buldogue estava em casa, conhecia todo mundo e logo sumiu. O Negão ficou desbaratinado e entrou na casa. Eu fiquei atento pela porta. Logo começamos a "sacar" a movimentação dos caras. Logo vimos dois caras subindo a rua com o Gringo, um de cada lado – um deles era um tal de Jão e o outro era o Nazista. Em minutos eles descem arrastando ele descalço e sem camisa – tomaram-lhe a camisa e o coturno. Param com ele meio desacordado na frente do Jason. O cara diz qualquer coisa e desfere um soco no olho dele deixando-o estatelado no asfalto. Ele cai feito uma porta, alguns metros para trás. O som do soco é seco e o golpe também. Logo algumas garotas e mais uns caras vão até ele. Eu saio abrindo caminho para passarem. Levamos ele até o banheiro e lavamos o rosto dele. Tem um corte profundo no supercílio e muitos hematomas. Não diz coisa com coisa, oscila, parece semi-consciente. A tensão é tão grande que ficamos incapazes de olhar a nossa volta ou encarar e questionar as pessoas, apenas percebemos a movimentação e ouvimos rumores sobre o que aconteceu ou ainda poderia acontecer. O Buldogue conversa aqui e ali, dá explicações, faz questionamentos, parece coisa de uma treta antiga do Gringo, consegue um carro e decide levá-lo ao Hospital na Santa Cruz. No momento de colocá-lo no porta malas ele diz para nós esperarmos no local que iria levá-lo e voltaria. Antes mesmo de colocar o Gringo no porta malas o Negão já está lá dentro e, imediatamente entramos todos também – eu, meu irmão e o Duque. Não seriamos loucos depois do que vimos de ficarmos lá esperando! Passamos a noite no hospital esperando ele recuperar-se e sair da observação. Nunca mais voltamos lá. Vi esse Jason depois em um bar na lapa, no show dos Garotos Podres no extinto Garage e em um bar na Augusta. Desde 94 não vejo o Gringo e isso aconteceu um ano antes. 
O punk me levou a questionar a autoridade, o sistema capitalista, a ordem burguesa. Me levou, sobretudo, pela musica, a pensar e a me posicionar politicamente. Levou-me a outros movimentos sociais e políticos e a buscar subsídios históricos e teóricos. O punk me colocou diante da violência das gangues urbanas. Antes eu já as conhecia por causa do pixo, mas, o punk é que foi capaz de canalizar e dirigir esse ímpeto juvenil para outras questões sociais e políticas que exigiam a capacidade de se revoltar e resistir. Porque a revolta é imprescindível para a juventude e a transformação tanto da sociedade quanto do individuo. E no capitalismo rebelar-se é justo e resistir necessário. 

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Recuperação, apagões e vícios....


Algumas pessoas leem o que eu escrevo. Algumas ouvem o que eu falo. Poucas. Bem poucas. Não me importo. Pouco do que escrevo é agradável ou interessa as pessoas. Pediram-me que escrevesse sobre meu processo de recuperação. Ainda não estou recuperado. Tenho me sentido bastante tentado, não pelo desejo de usar droga, mais pela vontade de me abandonar e tudo o mais. Dizem que a definição de insanidade é fazer as mesmas coisas sempre esperando resultados diferentes. Assim tem sido a minha vida – não uso drogas, não engano mais ninguém, sigo com fé, esperança, batalhando, estudando, ajudando os outros naquilo que posso. Os resultados porem continuam os mesmos da época em que era um contumaz viciado, mentiroso, ladrão e depravado. Alias, tudo piorou, porque agora estou só e comprovando diariamente que ninguém, absolutamente ninguém reconhece ou valoriza o trabalho, a luta e o esforço alheios. Entendo cada vez mais os miseráveis das ruas e os companheiros que convivi na prisão. Essa lição que me é cara, não se aprende em livros e nem nos bancos escolares. Essa o ilustrado das décadas de estudos e pesquisas e que daria a vida por 30 segundos no Fantástico, coitado, não sabe! Na verdade nunca quis saber, o conforto e segurança do gabinete só pode ser bom. Não volto a usar porque cansei de andar em círculos, mas, estou cansado também de olhar pra frente e andar em linha reta. Não sei aonde meu cansaço vai me levar. Só sei que não me sinto recuperado, porque a droga para mim não é problema, o problema esta fora dela e é ele que me atinge todos os dias, limpo ou não.

Faz um ano e meio que estou sem trabalho. Nem falo de emprego porque nem sei o que é isso a mais de uma década. Durante esse tempo fiz projetos para ONG’s, OSCIP’s, associações de bairro, amigos - quase sempre de graça ou quase e em troca de promessas de emprego ou trabalho. Fiz trabalhos acadêmicos, pesquisas, textos, relatórios, aulas, planos de ensino. Abri uma Empresa na modalidade MEI. Se somar o numero de paginas que produzi ultrapassam as milhares. Desnecessário dizer que para cada pagina escrita corresponde outras tantas lidas. Nada valem em terra de ignorantes e imbecis digitais ou televisivos. Participei de incontáveis processos seletivos – fiz provas, testes, dinâmicas, entrevistas – providenciei documentos para inscrições e elaboração de contratos para oportunidades que não se concretizaram por diversos motivos, sobretudo, por motivações escandalosamente subjetivas e pessoais. Gastei muito dinheiro que não tinha e tirei da minha filha acreditando em pessoas sem caráter e incompetentes, que ignoram que seja obrigação do profissional, conforme as exigências da impessoalidade, encerrar o processo, seja ele positivo ou negativo. Muitos falam em crise ou "apagão da qualificação" no mercado de trabalho. Pois eu afirmo com conhecimento de causa, o "apagão da qualificação" resulta da mediocridade que caracteriza os departamentos de recursos humanos determinados pelas “modas” ou tendências corporativas do mercado de trabalho, para ao final, quando no entanto, quase sempre tudo resume-se ao bom e velho Q.I. ou a empatia do poderoso do dia. Chegamos ao ponto de em um processo seletivo para Educador Social, após analise de currículo, redação, elaboração e entrega de planos de ensino e aulas, apresentação de aulas teste, passarmos uma semana em uma (de) formação em que nada se ensinava e nada se aprendia, passando o dia entre dinâmicas de grupo, discussões rasas e atividade lúdicas para ao final selecionarem por critérios pessoais - amizade, empatia, indicação.

Conforme fossem aulas para jovens, percebi que supõe-se que "acolher" o jovem é tratá-lo de forma infantil ou como deficiente mental. Houve uma dinâmica em que tivemos que nos travestir ou disfarçar conforme se catalogam os jovens de acordo com as suas “subculturas”: emos, punks, rappers, gays, etc. Como se fosse possível, em uma paródia, vivenciarmos como em um laboratório aquilo que eles experimentam – subestima-se a cultura do jovem e a inteligência alheia a um só tempo! Em outra tínhamos que andar em círculos e quando o sujeito falasse “trotola”, parar, trocar de lugar e nos apresentar. E assim seguiu-se a insanidade e a bizarrice até o dia da atribuição de aulas - mais essa! Para coroar esse circo grotesco - no final evidenciou-se que tudo não passava disso mesmo, um espetáculo grotesco -,  evidentemente tudo é levado a cabo por gente vulgar e incompetente, posto que as vagas já estivessem previamente determinadas por outros critérios que nada tem a ver com competência, conhecimentos ou experiências. Antes se definiram por indicações políticas, preferências e simpatias que nem se davam o trabalho de disfarçar, expondo-as nas redes sociais antes mesmo de encerrado o processo. Isso aconteceu esse ano (2011) e essa via crucis levou três meses. Essa é a verdadeira crise do mercado de trabalho e o apagão da qualificação e da ética que insulta o trabalho e o trabalhador cotidianamente, sem chance alguma de defesa ou a quem recorrer. Quem duvida se atreva a demonstrar qualquer cultura, sofisticação, ousadia ou originalidade em um processo seletivo? Atreva-se a demonstrar qualquer senso critico ou visão de mundo? Atreva-se a criticar o lugar comum, o senso comum ou os valores e clichês do mercado, bom como a moral da burguesia politicamente correta? Atreva-se a demonstrar senso ético e de responsabilidade publica e social? Pior do que superar o vício individual é enfrentar os vícios sociais. Pior do que recuperar a saúde e a sanidade é recuperar a dignidade. Se para na primeira não te dão a mão, na segunda o fazem só para empurrar... . Porque não pude recuperar minha vida ainda não me sinto recuperado, a droga não é nada perto do mal que a sociedade faz sóbria, pacificada, altruísta e religiosa. 
  




segunda-feira, 12 de setembro de 2011

As mãos

Eu me lembro de pequenas mãozinhas, que tocavam as minhas.
Um anjo que me tocava.
Mãozinhas frágeis, delicadas, macias, quentes, perfumadas.
Por que eu nunca admirei-as ou as toquei e beijei-as quando pude, tanto quanto poderia?
As mãozinhas sempre tocavam as minhas, as pernas, o rosto.
Eu escapava sem razão como a razão me escapa.
Por que a razão se nos escapa, a memória e o sentimento permanecem?
As mãozinhas eram uma pequena parte da perfeição e graça que transborda beleza e doçura.
Como pude tendo não ver, vendo não enxergar?
Dormia nos meus braços, ela me tinha e eu não a tinha e embora estivesse ali não estava.
Aonde estarei?
Quando estaremos?
As mãozinhas já não são as mesmas e eu nunca as tive, se foram e eu não as terei.
E como elas me fazem falta.
E eu nem sonhava que elas pudessem me tocar a alma.

sábado, 10 de setembro de 2011

Casa de papel


Na dura frieza da vida é que se aprende.
A vida ideal é o refugio dos inseguros.
Dos moralistas, ingênuos ou presunçosos.
Pragmáticos.
Toma a parte pelo todo e a exceção pela regra.
Tudo é bem ou mal, certo ou errado, verdadeiro ou falso?
Senhores da verdade, da moral e da razão.
Autoritários.
A falência da sua lógica e moral ele levanta a voz.
Superiores.
Aquilo que não entendem, não aceitam, destroem, excluem, desqualificam, exterminam.
O enfrentamento e a cantilena moralista e politicamente correta é o combustível do mal estar.
A hipocrisia, a ignorância, a força, a autoridade, a proibição, a prepotência e o desprezo multiplicam os vícios e os viciados.
O viciado não é sempre um não-aceito pela sociedade, é também um deslocado ou aquele que a despreza  - talvez um outsider.
Será que não notou que nós vivemos num inferno e que faz no mínimo duas décadas que “enfrentamos” uma situação do mesmo jeito, com as mesmas estratégias, mesmos discursos, mesmas ideias, mesmas pessoas? Os adjetivos são os mais autoritários e preconceituosos possíveis: "enfrentar, erradicar, exterminar, chaga social, guerra as drogas." Bate e assopra: redução de danos! Fui viciado, não nasci sociólogo, vivi esse inferno e vivo ele ainda, acompanhei dezenas de cortejos, estive em muitas prisões, antes, porem, sou da rua, não sou ingênuo e nem deslumbrado. Não compartilho das boas intenções e tampouco das misérias políticas, intelectuais ou midiáticas altruístas e hipócritas. Não frequento gabinetes, púlpitos ou estúdios.
A realidade é dura, a verdade é fria e elas nem sempre condizem com as fantasias ou demagogias politicamente corretas. Porem, pior que elas é a mentira ou o discurso blasé vazio e moralista que em nada ajuda e, quando provoca algo é repulsa ou risos - falando apenas como dependente.
A verdade da vida do viciado é cheia de mentiras e aqui não tem nenhuma e o que construir será sobre essa base: a verdade. Porque já tem gente demais mentindo, julgando, mobilizando, sobretudo, "recursos financeiros". Porque não é possível refletir sobre ilusões ou mentiras e muito menos reproduzi-las - cínica ou ingenuamente. A minha contribuição e demonstração de respeito é a verdade. É a minha resistência, a minha rejeição e repulsa a ignorância, hipocrisia e a demagogia. Porque apenas sobre a verdade poderemos pensar a sua real - e não ideal ou fictícia - dimensão e complexidade. Tambem não julgo ou fico reproduzindo a ladainha politicamente correta. Quem quiser que pense, sonhe ou julgue.




Das tragédias e dos espectadores

O mundo da droga é uma tragédia.
O espectador assiste e tem expectativas.
Tem valores, juízos, conceitos e preconceitos.
Vive de fora, por mais perto que acredite viver.
Vive somente a sua vida.
Quem pensa que é para julgar?
Que pensa sobre o que o outro sente, vive, viveu ou viverá?
Pensar não é viver.
Ser não é parecer.
De onde tira sua autoridade?
Da presunção.
A suprema vaidade e soberba é a que julga....
Eu não julgo, já fui e sou julgado até hoje.
Já tem gente demais fazendo isso.
Terra de justos e justiça.
E a vida, as pessoas e o vicio são mais complexos.
Não aceitar isso é não entender.
Não entender é não pensar.
E não pensar é não mudar.
Mais fácil deve ser julgar.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Desencanto


 Dizem que a cocaína é uma droga egoísta. O crack é mais, muito mais. São raras as minhas experiências egoístas com o pó. No caso do pó, o egoísmo consistia em “engordar” um pouco mais a própria carreira que a do parceiro ou dar uma “bicada” no papelote do outro. Cheirando só me lembro apenas de duas ocasiões. O crack já te alucina de tal maneira que você se aliena do mundo e torna-se incapaz de compartilhar as ideias, as palavras. Sempre cheirava acompanhado, fumar mesclado eu só fumava sozinho. Cheirando eu ouvia um som, bebia, fumava, conversava e ria. Impossível isso com o crack.  

Em1996, final de ano, meu irmão trabalhava em um shopping em Sampa. Precisavam instalar a decoração de Natal nos pisos. Meu irmão se dispôs a fazer isso e disse que arranjava uns caras pra ajudar mediante uma quantia que eu não me lembro. Enfim, fui eu, ele e mais dois camaradas do bairro. Todos doidos e amigos de infância. Conforme as lojas estivessem fechadas das 22 às 10H, tínhamos até as 06H para instalar os enfeites nos pisos. No dia combinado, resolvemos levar um aditivo para estimular o trabalho, porque nem só de cafeína vive o peão! Assim, passamos na casa de um traficante famoso do bairro do qual já éramos fregueses. Por esse motivo chegamos sem avisar e, por esse mesmo motivo, conforme estivesse ainda para preparar os papelotes, resolveu nos servir da pedra bruta. Moral da historia: levamos umas 7 gramas por 50 reais. Muito pó! Um pó do bom, amarelo – igual esse só vi no RJ.

Chegamos, compramos lanches, bolachas – um pacote de água e sal -, latas de cerveja e refrigerantes. Subimos para a copa e fizemos um café. Não encontramos nem um prato de vidro naquela copa. O fogão tinha um tampo de vidro. Abaixamos ele e acendemos uma boca. Esquentamos aquele pedaço do tampo de vidro, tiramos uma lasca da rocha e jogamos em cima. Amassamos com uma colher e raspamos com um cartão telefônico. Impressionante o quanto conseguimos multiplicar aquele pó. Deu pra fazer uma carreira enorme pra cada um. Um dos caras que estava conosco estava meio mal, então ele amassava mais a dele, cheirava a metade e a outra ainda dava pra tirar mais uma carreira pra cada. Combinamos que de hora em hora subiríamos para fazer isso. O procedimento era esse: descer, instalar e ao final de uma hora subir pra cheirar. Após a primeira carreira, tiramos uma partida de palitinho pra decidir quem iria trabalhar a próxima e estabelecemos essa regra até o final. Quem perdia tinha que comer uma bolacha água e sal pura e a seco! 

Conforme fosse bom no jogo, quase sempre era eu quem trabalhava e, lógico, caprichava mais na minha carreira para indignação dos demais – regra é regra! Um dos nossos camaradas comeu quase o pacote todo sozinho – quem já usou cocaína sabe o quão difícil é comer sob efeito. Hoje percebo que foi aí que tomei gosto por trabalhar o pó, coisa que exige certa técnica, capricho e disposição. Coisa que eu transformava quase em um ritual. Amassava, raspava, batia, esticava, cheirava.


Quem nunca usou drogas assim impressiona-se, mas, o que mais eu me recordo era do clima de amizade que imperava entre nós. Da camaradagem, tanto na hora de usar a droga quanto no esforço do trabalho. Dos risos e das piadas na hora de compartilhar a droga e as situações de trabalho. Da gozação em cima de quem ganhava ou perdia, de quem viajava num som ou em nada. De quem cansava primeiro ou quem subia mais rápido nos andaimes. Das besteiras que falávamos uns para os outros. Ao final terminamos o trabalho e ainda sobrou pó para todo mundo levar pra casa. Eu fiquei contrariado porque queria cheirar tudo lá, embora estivesse amanhecendo e começasse a ficar perigoso – estava sem noção e precisei tomar uma dura. Não percebia que estava perdendo o controle. Pouco tempo depois, por outros motivos, perdi-o de uma vez.  Dos caras todos pararam de usar - inclusive eu. Um deles encontrei ano passado – 2010 - e estava saindo do fundo do poço - igual eu. Estava recuperando a vida e a família, freqüentando o N.A. O outro casou, separou, reatou o casamento, tem 4 filhos e trabalhava com transporte da ultima vez que o vi - 2010. Vive na “função”, fumando seu baseado, não cheira mais e nem se envolve com nada. Eu perdi tudo, fiz mil coisas – certas e erradas, boas e ruins -, estou vivo e isso basta pra recomeçar. Meu irmão vacilou um pouco no pó, mas, nada que comprometesse trabalho e família - continua maconheiro tanto quanto antes. Aprendi muito, por isso não julgo e nem subestimo ninguém. Só sei que como tudo na vida no fim acaba o encanto.      

domingo, 4 de setembro de 2011

Memories


The memories are always more.
From what we live.
It is what remains and will follow us forever.
Untouchables, unpronounceable, indelible.
Inscribed on the altar of consciousness.
Tagged with fire inside the heart.
I feel them every day deeper and more painful.
There is no medicine or comfort.
Incurable wound that worsens the more moves.
I remember the cold, the smell, space, things, voices and sounds.
The table in the room, jokes, laughs, a drawer full of toys.
Hairs slicked back, very lively eyes, wide smile and easy.
Willingness to take much, much imagination to play.
Very generous in sharing and being happy.
Innocence, purity, sweetness.
An angel at my house in my life.
Everything went all loved, all she could.
Because I was a stone and now I am a man.

Memórias


O mais sempre são as lembranças.
De tudo que vivemos.
É aquilo que permanece e nos acompanharão sempre.
Intocáveis, impronunciáveis, indeléveis.
Inscritas no altar da consciência.
Marcadas com fogo no interior do coração.
Sinto-as a cada dia mais profundas e doloridas.
Não há remédio ou conforto.
Chaga incurável que quanto mais se mexe piora.
Eu me lembro do frio, do cheiro, do espaço, das coisas, das vozes e sons.
Da mesinha na sala, brincadeiras, risos, uma gaveta cheia de brinquedinhos.
Cabelinhos penteados para trás, olhinhos muito vivos, sorriso largo e fácil.
Muita disposição para correr, muita imaginação para brincar.
Muita generosidade em ser feliz e compartilhar.
Inocência, pureza, doçura.
Um anjo na minha casa, na minha vida.
Tudo dava, tudo amava, tudo podia.
Porque eu era uma pedra e hoje sou um homem.
   

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dor


Nada é tudo.
Muito.
Quem pode imaginar o quanto?
Relógios?
O meu retrato que já não é.
Maquinas que anotam o tempo.
Instantes do tempo que se esvai.
Indiferentes a vida e as suas misérias.
Alguem que chora por algo que não existe.
Existiu ou poderia ter existido.
A droga é mais do que se pensa,
Se sente,
Intensa.
Se vive,
É algo que não foi ou seria,
Existe e se impõem.
Na sua brutal realidade e concretude.
Dispensando, ignorando qualquer metafisica, ideologia, abstração ou ilusão.
Devaneio, delírio, fissura.
Engole toda a abstração, subjetividade, imaginação.
Violenta a existência e a fantasia.
Hoje se foi e amanhã será.
E tudo é dor, angustia, vergonha, desespero, desilusão e vida.