domingo, 26 de junho de 2011

1996/1997



Noventa e seis e sete foram anos difíceis. Morreram Batata, Nanico, Ceará, Beiço, André, Ratão e, desconfio de mais uns dois ou três - na duvida os deixarei fora da conta. Morreram é eufemismo. Foram assassinados. Baleados. Batata, Nanico, Ceará e o Beiço foram mortos pela policia. Os três primeiros executados com requintes de crueldade. Não eram santos, todos eram ladrões e tinham entre os diversos homicídios alguns policiais. Isso não justifica. Não é preciso ter formação jurídica para saber o papel que cabe a policia. Nem que o policial que os assassinam é pior que eles – bandidos enrustidos. Tem arma, farda, distintivo, fé publica, treinamento, formação, viatura, corporação, prerrogativas, privilégios, justiça exclusiva e desprezo pela lei, a sociedade e a vida. Tem a proteção do Estado e a cumplicidade da corporação e dos seus pares. Confia na omissão e negligência do judiciário. As duas pontas da corda. Nem vale a pena discutir isso.

De um lado estão os que comemoram o aumento na expulsão de policiais das instituições, de outro os que revelam a impunidade entre as policias diante dos seus crimes, excessos e/ou desvios - ambos estão equivocados. Como se a punição efetiva não fosse obrigação da corporação e do Estado e deve-se ser louvada. Tudo inútil. Ninguém se interessa em acabar com esses modelos policiais anacrônicos e corrompidos. Ninguém se interessa em acabar com os privilégios de qualquer servidor público – seja policial ou qualquer outro. Inútil. Todos sabem que tem privilégios, que a fiscalização inexiste, a impunidade e o corporativismo prevalecem e muitos abusam. Nem adianta reformar ou transformar essa policia, está podre após décadas de impunidade, corrupção, desmandos, preconceitos, vícios, incompetência e corporativismo. Resta apenas destruir e construir outra política de segurança com controle popular irrestrito. Sou cético porque sei que isso depende do legislativo e de mudanças significativas no judiciário. Alguém acredita que o parlamento e o judiciário se interessam por isso? O Brasil já foi condenado pela OEA, ONU, incontáveis Comissões Nacionais e Estrangeiras e diversas Resoluções. E daí?! O Brasil é signatário de diversos tratados e ratificou a carta de Direitos Humanos – quem sabe o mínimo de historia sabe o que significa a expressão “pra inglês ver.”

O Beiço foi baleado pelas costas, subindo em uma moto, numa tentativa de assalto portando uma pistola de brinquedo. O Ratão era traficante e foi morto pelo Leco também traficante. Ambos disputavam “a praça.” A praça era a boca que eles instalaram na recém inaugurada Praça Vila Bonilha. Tinha um bar em frente e toda sexta samba, o movimento era diário. Sinuca e bebidas, então todo dia havia fregueses – para ambos. Eu mesmo era quase frequentador diário. Costumava pegar minhas drogas com o Fabio, que era o “funça” do Leco. Às vezes pegava com o Ratão. A do Ratão era diferente. Eles serviam bem - um pouco mais ou um pouco menos cada. A diferença era a qualidade. A do Ratão era mais amarga. A do Leco não e era melhor. Pegava no Ratão quando não encontrava o Fabio ou acabava a dele. Ficavam cada um de um lado da rua.

O Ratão era traficante antigo. Já tinha uns dez anos de trafico naquela época. Veterano. O Leco também. Tinha sido preso e saído há pouco. As tretas começaram por causa da praça. Ambos esperavam a oportunidade certa pra “concluir” o outro. Um dia o Fabio vacilou e dizem que o Ratão viu aonde ele escondeu a droga e furtou ela. Nunca soube ao certo, mas, foi o boato que surgiu - ou a justificativa pra começar a guerra. Quando o Fabio começou a vender pedra na boca o Ratão reclamou. Disse que ninguém ia vender pedra na praça e intimidou os moleques. Era a oportunidade que o Leco esperava. O Ratão costumava deixar o seu 38 escondido na praça. Todos sabiam, inclusive o Leco.

Foi simples. Ele chegou, sacou e disse que ele era "ladrão e que o moleque ia vender tudo ali" e disparou quatro vezes a queima roupa. O Ratão só teve tempo de ir em direção a praça, mas, caiu antes. Caído levou um tiro na cabeça. Isso tudo aconteceu por volta das nove da noite de um dia da semana - só lembro que não era sexta ou final de semana. Todos que estavam por ali desapareceram logo que ouviram ou viram os disparos. O André tirou o “Bulova” do pulso do Ratão - pouco tempo depois ele também foi fuzilado num bairro próximo, em discussão na frente da lojinha da sua tia, por motivos fúteis, ofendeu os caras errados e "desacreditou" deles. Outros pegaram as drogas e o dinheiro dele. Eu estava ali próximo, ouvi os tiros, vi a confusão, encontrei com uns caras vindos de lá e nem fui, sabia o que aconteceria em seguida. Minutos depois tinha ao menos quatro viaturas no local. Só cena.


O Leco nunca respondeu por isso - não nesse mundo. Como tantos que ele mesmo havia assassinado assim o Ratão também foi morto e como ele o seu assassino também ficou impune. Como diversos outros, alias, a imensa maioria no Brasil, sobretudo, os assassinos do Estado – civis e militares. Sintomático da banalização da morte e do desprezo a vida. Leniência, incompetência, inoperância, negligencia, omissão. Corporativismo, prerrogativas constitucionais, dispositivos legais. É extenso o repertorio que justifica e corrobora a impunidade, coroando a violência nas ignoradas e esquecidas periferias, pavimentando de cadáveres e sangue as suas ruas. 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Crepusculo

Eu fui feliz as tardes. Tive-a algumas tardes de nossas vidas.
Em tardes serenas.
Intensas.
O tempo não tinha medida.
Congelava.
O tempo era apenas um sentido, como o olfato.
O Sol era lento, contemplava a Terra.
Acariciava e aquecia.
Como os amantes da tarde.
As janelas suavam. As paredes transpiravam. O ar suspirava.
E o silencio. Tudo parava naquele momento. Em respeito, admiração.
A tarde, o Sol, a brisa que soprava são testemunhas.
Nessas tardes aprendi o amor.
Agradeço-te por isso.

Tempo

Quando as almas se encontram?
Quando basta o silencio?
Os olhares se tocavam.
Nada diziam.
As palavras não fazem sentido! Há muito se tornaram dispensáveis. Corações se entendem pelas mãos, pelos olhos, pelos lábios.
Um dialogo entre almas vai muito alem das palavras. Envolve o impronunciável, o intangível, o intocável, o insondável, o inexorável.
Elas são impotentes, inúteis, inválidas, insuficientes, indecentes. Causam mais equívocos.
Mas os olhos nada diziam. Fugiam. A alma se debate no corpo contra eles.
Os olhos sugestionavam questionamentos, dúvidas, medos. Sentem-se impotentes também. As almas inquietam-se. Nem consigo ou quero mais pensar. Que adianta? Que bom que tenho o ar!
Como pode existir algo inconcebível? Meu coração só sabe procurar respostas. Nem os olhos ou o juízo ou as palavras. É a alma que fala, que toma, que doma. Rompe, sublima, sucumbe e submete. Uma luta contra si mesmo através do outro. O silencio desafia e intimida. Requiem da derrota. Cada segundo que o tempo nos escapa morremos um pouco porque deixamos de viver. Ela se afasta. Eu só quero viver um pouco e esquecer por um instante que somos vivos, mortais, falíveis. Esquecer o tempo. Eles se afastam, escorre, se esvai.
Entre quatro paredes eu sou apenas o olfato – os animais nada sabem sobre o tempo. Tudo são cheiros. Porque os olhos me causam aflição. As palavras são impronunciáveis e vãs, sem sentido. Nem quero ouvi-las. Tudo o mais é inútil, apenas flui. Resistência, resistência. Resistir à certeza? Resistir à vida? Ao amor? E o tempo é irresistível, implacável. Tudo pode e tudo consome. Basta-me o ar, o silencio, a respiração, o cheiro, o toque. O essencial não se vê. Por que não nos basta nunca o amor? Por que temos que querer entender tudo, dominar tudo, ter tudo? Tudo é demasiado e bastante. Tudo só causa angustia, tristeza, incerteza, medo e fúria. Ímpeto de resistir e ceder. Conflito entre luz e sombra, corpo e espírito. Todos são um e ambos. Verdade e mentira existem e pronto. Cada qual esta de um lado e a vida tem começo e fim. A felicidade é única para todos. E a renuncia cabe aos santos e deuses. E o tempo passa, a vida passa. Tudo é contra aquilo que somos, sentimos e queremos. E acabou. Sobraram os destroços, os cacos do tempo. Coisas que ele jamais apagará e lembranças de como nos escapou, daquilo que não fomos e poderíamos ter sido. O tempo passou.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Polícia, Ciência e Cidadania.


Meus estudos sobre violência e segurança pública iniciaram-se no ano 2000 pela Prefeitura de Guarulhos. Essas experiências resultaram na minha monografia, apresentação de trabalho no Encontro Nacional dos Cursos de Ciências Sociais da PUC-SP em 2001, participação no Seminário Violência e Direitos Humanos da FESPSP e publicação na Revista Psicologia Política da PUC-SP – 2001/2002. Meus “contatos” com esses “temas”, digamos assim, começaram muito antes. Enganam-se os que pensam que minhas reflexões e pesquisas resultam apenas de interesse ou oportunidades acadêmicas, vaidade ou curiosidade intelectual. Também sou cético com relação ao ideal positivista da ciência redentora ou transformadora da sociedade ou do individuo. Minhas experiências acadêmicas me mostraram que as universidades brasileiras são dóceis e subservientes ao Estado e o capital. A elite e a pequena burguesia, clientela das universidades - donos do saber -, sobretudo, das publicas, também são alheios as demandas e a realidade sociais.

Muito antes de pensar em sociologia ou curso superior já conhecia a práxis policial – antes por experiência que pesquisa ou teoria. As primeiras experiências aconteceram em 90 ou 91 – em 92 peguei seis meses de Liberdade Assistida por pixação. Para os propósitos dessa reflexão vou relatar três experiências: uma ocorrida em 92, outra em 98 e a ultima em 2009. A primeira aconteceu por causa de pixação e as outras duas por uso de drogas. Antes das drogas tive problemas com a polícia também por causa do Movimento Punk.

Estávamos na Vila Mangalot – sexta-feira. Eu, meu irmão o Carlão – da gangue Sakanas - e o Alemão – da gangue Jet Boys. Vínhamos do point de Santana e havíamos desistido de ir a Osasco com o cara da gangue Imorais – da Vila Mangalot podíamos voltar a pé para casa. Madrugada e nós pixando. Dois de cada lado da rua. Eu e o Carlão de um lado, meu irmão e o Alemão do outro. Alternávamos os lados pelos quarteirões. Num determinado momento avistamos uma moto subindo a rua, paramos de pixar e continuamos nosso caminho. Um quarteirão acima o cara retornou e desceu a rua. Desconfiamos, já estávamos acostumados com a rua. Imediatamente dispersamo-nos e dispensamos as latas. Não deu outra. Minutos depois eles voltam acompanhados de um carro com mais três caras, sendo que um deles armado com uma automática. Meu irmão e o Alemão sumiram por uma rua em que havia um terreno baldio. Eu e o Carlão fomos "enquadrados" pelos caras. O armado era um senhor por volta dos 60 anos. Espumava, esperneava e tremia com a automática na mão apontada para nós. Eu, nessas horas, sobretudo após diversos “enquadros” e visitas a delegacias, estava sereno, quase indiferente. Não sei como, mas, sempre tive o sangue frio nessas situações. Acho que isso acaba passando pros outros e ajuda a serenar os ânimos. Enfim, diante da minha tranqüilidade e argumentos, resolveu-se por chamar uma viatura. Descobrimos no decorrer dos acontecimentos que se tratava de uma família – pai, filhos, cunhado, cinco homens ao todo. Um dos filhos, o mais razoável, assumiu o controle da situação, desarmou o pai, acalmou os outros e chamou a polícia. Fomos todos para o 33º DP. Eles de carro e moto, eu e o Carlão de viatura. Estava mais tranqüilo porque o Carlão deixou o debate comigo. Não havia flagrante. Não encontraram as nossas latas de spray, estávamos com documentos e alegamos que voltávamos de uma festa. Nada mais que um mal entendido. Entendíamos que estivessem enfurecidos porque haviam pixado a casa deles, mas, não tínhamos nada com isso – esse era o nosso argumento.

Madrugada, chegando à delegacia, o delegado - bastante disposto e solicito -, evidente que não queria lavrar um B.O. - não aquela hora e tampouco por aquele motivo! Então chegou para o idoso e disse: “Senhor, nós vamos resolver seu problema. Me dê cinco minutos pra conversar com os rapazes.” A sós falou conosco. “Seguinte: o senhor alega que foram vocês que pixaram a casa dele, vamos resolver isso logo. Vou dizer que vocês aceitam ir lá à casa dele semana que vem para pintar. Ele vai providenciar a tinta e todo o material. Vocês só vão ter o trabalho de ir lá e fazer isso. Não vai tomar nem meia hora do tempo de vocês. Se não aceitarem vou ter que fazer o B. O. e será pior pra vocês!” Claro que não iríamos, então é lógico que concordamos! Desnecessário dizer que o arquiteto dessa farsa era o maior beneficiário dela também – o delegado preguiçoso. Enfim, concordamos com o “acordo amigável” proposto pela autoridade e saímos todos satisfeitos, embora resolutamente negando até o fim que tivéssemos pixado a casa! Apenas havíamos aceitado para encerrar a pendenga. Depois que a família se foi o delegado nos liberou. Solicitou então à viatura que conduziu a ocorrência que nos levasse até nosso domicilio, afinal, éramos menores. Nesse momento as pernas tremeram, evidente que havíamos dado endereços falsos pro delegado! Ato contínuo, explicações e súplicas ao delegado: “Doutor pelo amor de Deus não faça isso! Minha mãe é cardíaca e tem problemas de pressão! Se eu chegar em casa de viatura minha mãe tem um ataque e morre! Se os vizinhos verem vai ser a maior confusão em casa! Meu pai bebe e é violento, vai me matar, minha mãe vai morrer, vai ser a maior tragédia!” Depois de todo esse drama ele concordou em nos deixar ir embora, apenas nos levando até a avenida mais movimentada e próxima do endereço alegado. Quando cheguei em casa meu irmão estava me esperando no portão havia horas! Cansado e preocupado. Saíamos juntos, então não havia a possibilidade de entrarmos em casa separados. Essa foi uma experiência atípica, porque não houve violência, reveladora apenas no sentido que mostra a indolência que caracteriza a rotina policial.

Em 98 estava no primeiro ano da faculdade. Sábado, estávamos em uma reunião do Centro Acadêmico. Final do dia, ao sairmos dela, resolvemos ir fumar um “baseadinho” na praça em frente – Monteiro Lobato. Quase sempre fazíamos isso na faculdade mesmo, mas, naquele horário ela já estava fechando, por isso resolvemos ir lá – eu e mais três colegas. Tinha muita gente na praça, o dia estava bonito e a temperatura agradável. Dois times se enfrentavam na quadra, crianças brincavam na areia e no parquinho, casais namoravam nos bancos, outros jogavam nas mesas ou conversavam. Nós escolhemos um banco mais afastado para pitar. Nos posicionamos da seguinte maneira: três sentados no banco e eu em pé na frente deles. Eles de frente pro portão de entrada e eu de frente para a rua Dr. Vila Nova. Logo que acendemos, junto com alguns cigarros para disfarçar, eu percebi dois PMs vindo pela rua no sentido General Jardim. Conforme avistei-os, percebi que eles também nos avistaram. Ambos percebemo-nos apenas com os olhos. Pensei: “se entrarem na rua General Jardim vão nos abordar.” Dito e feito. Imediatamente avisei os caras: “Dois PMs estão vindo nos abordar. Calma! Vamos esconder o baseado e ficar aqui na boa, normal, não estamos fazendo nada!” Embora estivessem amedrontados, concordaram. Estavam aprendendo a fumar maconha na faculdade, estava na cara que nunca tinha tido qualquer contato com a polícia! Como eu já tinha, tomei a frente. Continuei como estava, de costas para o portão, fumando meu cigarro e eles no banco, conversávamos à toa. Embora já tivesse passado por diversas abordagens, não esperava o que estava por vir. Os dois PMs chegaram de armas em punho, gritando e agredindo. “Vai, filha da puta! Mão na cabeça! Encosta! Abre as pernas caralho! Você não sabe como é o procedimento?” Entre um chute e outro, enquanto nos revistavam, mal tivemos tempo de argumentar. Após a revista respondi: “Não, não sabemos qual é o procedimento! Somos estudantes, não estamos fazendo nada e sabemos os nossos direitos!” O mais exaltado era também o mais novo, não mais que 20 anos, no máximo. De arma em punho, não satisfeito, encarava, rosnava e não escondia a disposição em usar o seu “brinquedinho novo.” Eu, com muita raiva também por esse espetáculo grotesco e, mais velho do que ele, devolvia as encaradas – o que o incomodava e aos meus colegas também, a essa altura já quase chorando de medo. Esse imbecil disse com ar debochado que se fôssemos “estudantes de direito” iríamos “para a delegacia”, “estávamos ferrados, jamais iríamos conseguir a carteirinha da OAB.” Expliquei que “sabíamos os nossos direitos”, que ele não havia entendido, éramos estudantes de sociologia – deixei o ignorante mais confuso e irado. O outro mais comedido disse que havia visto que estávamos fumando e sentido o cheiro de maconha e que éramos “inconseqüentes.” Depois dessa e para encerrar o assunto eu disse que havia “outras pessoas na praça, que o cheiro poderia vir dela toda”, que fumávamos nossos cigarros, única coisa que portávamos. Disse ainda que “inconseqüente” deveria ser quem “abordava em praça publica repleta de crianças portando armas” e, se seria esse o “procedimento” para aquele local e horário, não gostaria nem de “imaginá-lo em outro mais afastado e a noite.” No fim, simplesmente se retiraram, sem ao menos nos pedirem os documentos. Eis o “procedimento”! Espetáculo grotesco de intimidação, demonstração gratuita de truculência. Reparei que tiveram o cuidado de retirar a identificação pessoal da farda antes da abordagem. Impressionante como aprendem rápido o “procedimento.”

A última experiência foi à pior de todas. Estava embalado. Fumando os meus mesclados o dia todo. Já havia notado a presença de viaturas pelo bairro, uma abordagem na favela ao lado da boca. Quando se está “louco” não se percebe que também se é notado. Madrugada; acabou a minha droga. Peguei vinte reais e pensei: “mais duas.” Saí e fui até a favela. Entrei e quando estava chegando próximo a “boca” vi dois PMs de armas em punho vindo sorrateiramente na minha direção. Se parasse já era, se corresse idem, se voltasse era pedir pra ser abordado. Até aquele momento eu ainda “delirava” que talvez não fosse abordado, àquela hora no meio da favela. Imediatamente fui. O de sempre: “Mão na cabeça”, “encosta”, “filha da puta”, “aonde você pensa que vai?”, “tá armado?”, “o que você quer aqui?”, “nóia safado”, entre outras do repertório da cartilha do “procedimento” policial para abordagens de rotina em comunidades da periferia. Expliquei que estava em um bar próximo e que um amigo havia vindo encontrar outro aqui perto e estava procurando-o. Evidente que não acreditaram. Logo me pegaram como “escudo.” Com as mãos na cabeça, foram me conduzindo favela adentro me segurando pelo bolso de trás da calça e a Ponto 40 ao lado da minha cabeça. Usavam meu corpo como escudo e o ombro como apoio. Após passarmos por alguns becos e vielas, subir e descer escadas, perto de uma trilha abordaram quatro outros usuários. Diferentemente de mim eles estavam mal vestidos, talvez fossem da rua, não os conhecia, mal podia ver no escuro. Encostaram-nos na parede e, conforme já tivessem me revistado, os outros policiais da equipe começaram a revista-los, questioná-los e agredi-los. Um deles colou do meu lado e perguntou: “Voce estava com eles?” Quando fui me virar para responder ele me cutucou com a arma e disse: “Não olha pra mim não! Responde sem virar.” Respondi que não, que havia chegado com os outros dois PMs que haviam me abordado mais atrás. Ele disse: “Tá vendo o que você faz! Se você não estivesse aqui nós já íamos matar todos eles!” Mais afastado ouvia os lamentos e desculpas de sempre também: “Ai, ai senhor! Tá me machucando! Não senhor, eu sou só usuário! Tava indo pra casa!” Após um PM anotar meu documento e verificar meus antecedentes pelo rádio fui liberado. Não sei o que aconteceu com os outros. Desse dia em diante nunca mais pisei naquela favela e nem usei mais drogas – até recair outra vez. Senti-me enfurecido por ter passado por isso, essa foi à gota d’água, após 15 anos de uso ininterrupto de todas as drogas. Sabia ainda que no dia seguinte, o tráfico iria desconfiar de mim ou me acusar de delação, minha vida estava em risco. Meses depois soube por um amigo que andavam perguntando por mim, confirmando a minha desconfiança.

Nessa época eu ainda trabalhava em um presídio pela Funap. Descobriram isso também. Por esse motivo, na cabeça deles era impossível eu não ser um delator! Meses depois, tive uma recaída. Faz quase um ano que estou limpo. Às vezes ainda tenho vontade, mas, sei que passa e a raiva, culpa e vergonha ainda são maiores. Elas talvez nunca passem. Espero que não. Penso que são a raiva e o amor que nos fazem comprometidos e capazes de fazer o melhor naquilo que nos dispomos.


Palavras


Palavras. Papel. Escrever. Rilke estava certo?
Mais um morto. Mortos. Morre muita coisa antes do homem.
Sobre o futuro morto. Sobre o presente morto.
Morrem os sonhos. Morre a esperança. Morre o medo.
As palavras não valem à pena.
Eu vi uma criança feliz. Sorria!
Eu vi um animal feliz. Corria!
Eu vi uma mulher feliz. Vivia!
Houve um dia em que a esperança e a felicidade iludiam.
Inocentes, sonhos.
Deus era homem.
Na felicidade, esperança, sonho.
O homem não é Deus.

Morremos

Vamos todos morrer.
Morreremos a morte que nos escolhe ou a que escolhemos?
A vida não nos escolhe e nem escolhemos ela.
Não temos escolha.
Vivemos sem escolha.
Morremos apenas.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Segmentos Sociais I - Educação


Faz doze anos que comecei a atuar naquilo que se conhece como segmento social – terceiro setor, políticas e projetos sociais. Nessa área atuei em projetos e políticas em educação – jovens, adultos e presos, formação de educadores e ensino -, desenvolvimento local – intermediação de mão de obra e negócios, alternativas de geração de trabalho e renda - segurança publica – pesquisas e levantamento de dados – e organização comunitária – conselhos gestores e de segurança. Todas essas experiências aconteceram nas maiores cidades dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro – capital, região metropolitana, interior e litoral. Todas as experiências de governo foram em administrações municipais petistas – pelo Estado apenas em São Paulo no governo tucano.

Comecei como docente de escola publica pelo Estado no ensino médio – professor eventual. Do ponto de vista objetivo nada mudou – o governo desde 95 continua tucano. Mudaram os governadores, secretários de educação, professores e os estudantes. Nas escolas, do ponto de vista qualitativo, se algo mudou foi para pior, sem duvidas! Os exames de avaliação que servem para medir a qualidade do ensino desqualificam esse sistema educacional. Os exames são métodos que estabelecem variáveis para aferir informações qualitativas sobre esse modelo. Eles, portanto, são arbitrários e parciais, no entanto, isso não diminui a responsabilidade estatal com relação à questão educacional e menos ainda reduz o problema, pelo contrário! Penso que se ampliássemos a analise, vislumbraríamos o quanto estamos longe do ideal há décadas estabelecido. A quem interessa ampliar a analise? A ninguém. No embate entre o sindicato dos professores e Estado a sociedade é deixada de lado - alijada e excluída deliberadamente do debate - e a "sociedade civil organizada" - Terceiro Setor "parceiro" do Estado - é parte interessada/financiada. Aliás, é bom que se diga: os “professores” não são todos os que entram em sala de aula. Existe um imbróglio funcional que serve há uma minoria e ao Estado. A margem dessa minoria existe uma variedade de profissionais da educação excluídos do sistema. Estão na base da pirâmide publica do modelo educacional vigente há duas décadas. Conforme estejam à margem do sistema, todos são alheios as suas demandas e direitos. No âmbito do Estado – Secretaria, Diretorias, Sindicato, Escolas – são denominados por OFA e/ou Eventuais. Do ponto de vista objetivo, embora atuem em sala de aula, situam-se no limbo jurídico institucional, alguma coisa oscilando entre o útil e o estorvo, de acordo com as conveniências deste ou daquele grupo. Tolerado dentro da escola - por todos aqueles que compõem o universo do ambiente escolar -, jamais incorporado, não pode ser colocado no mesmo nível que os “professores.”

Relevante como em todas as instituições, a despeito das regras formais, predominam as informais e/ou veladas que ditam as práticas cotidianas e estabelecem hierarquias, privilégios e status no interior dos espaços de convivência, sejam quais forem. Fui professor – OFA e Eventual - no ensino médio publico em São Paulo nos anos de 1999, 2002 e 2003. Acrescento que aquela época a situação já era das piores. Historicamente a educação nunca foi prioridade no Brasil – Estado, política e sociedade. Embora tenham poucos efeitos práticos, os resultados do ensino médio público brasileiro nos exames de avaliação em comparação com diversos outros países – exame de Pisa 2009 - dizem muito sobre o valor que o Estado e a sociedade dispensam a ela – no item leitura, por exemplo, os nossos estudantes terminaram na 53º entre 65 países! É sintomático que em quase todos os quesitos ocupamos as ultimas posições no ranking dos piores em educação. Fazemos parte ainda do seleto grupo de países com mais de DEZ MILHÕES (14,6 Censo 2010) de analfabetos – ao lado de Etiópia, Nigéria, Índia, China. Estatísticas, indicadores, estudos, políticas e milhões em investimentos a parte, eis os argumentos comum entre todos os envolvidos: “A universalização da escola publica é uma realidade e o numero de analfabetos diminuiu significativamente nas ultimas décadas.” “Nas avaliações internacionais a qualidade do ensino no Brasil vem melhorando gradativamente e espera-se que em 2020 estejamos na media dos países desenvolvidos.” Que se pode inferir desses argumentos, a despeito de tantos planos, políticas, programas, projetos, instituições, especialistas, editais e investimentos? Antes de tudo, a Constituição Cidadã de 1988, que é a lei máxima do país, não estabelece o direito fundamental a educação e as atribuições, competências e responsabilidades sobre ela? A qualidade de um serviço essencial como a educação não é obrigação estabelecida pela mesma Constituição e dever do Estado?

O fato é que as metas mais significativas estabelecidas pelo PNE – 2001/2010 – ficaram escandalosamente longe do seu cumprimento – "quadruplicar a oferta de educação entre jovens e adultos, diminuir a evasão escolar, ERRADICAR O ANALFABETISMO e elevar para 7% do PIB os investimentos em educação." Se ampliarmos, entretanto, as variáveis da analise, como por exemplo, considerando entre os dados qualitativos um recorte racial ou ainda por regiões, sem duvidas que a situação seria considerada hedionda! Melhor não! Aliás, simples, basta que mudem-se os prazos dos mirabolantes "planos nacionais" – 2020, 2030, 2150! Alguém se dispõe a protestar? Para piorar e a despeito do ECA, LDB e PCNs as questões relacionadas a Cidadania e Direitos Humanos são secundárias ou simplesmente ignoradas, na medida em que se diminuem ou excluem as disciplinas da área sócio-histórica. Uma inestimável contribuição do Estado no contexto da democracia, para a combalida educação nacional, digna de todos aqueles que lutaram pela causa da Educação, Direitos Humanos e da Cidadania no Brasil – Bomfim, Anysio, Freire, Graciliano, Florestan, Darcy!

Para finalizar penso pontuar algumas questões pouco abordadas. Nos três anos em que atuei no ensino publico médio – Estado – passei por quatro escolas – todas em SP. Nas três em que fui Eventual conheci o desprezo e a indiferença cotidiana reservadas a esse profissional. Ocorre uma espécie de “bullying” dos professores e funcionários das escolas para com os docentes Eventuais. Essa hostilidade interfere no desempenho do docente Eventual, limitando as suas condições de trabalho e o acesso a atividades, espaços e recursos. Com efeito, atrapalha a sua relação com os alunos, posto que reproduzem esse comportamento verificado no interior do corpo docente, direção, coordenação e demais funcionários – aliás, como criar vínculos com os alunos quando se é eventual? Esse é o cotidiano das escolas publicas no Estado de São Paulo, ignorado pela intelligentsia da educação e os seus mirabolantes e infalíveis planos, métodos, teorias e estratégias. Os OFAs ou Temporários também são pouco prestigiados pelos “professores” e “funcionários” e nem dispõe das mesmas prerrogativas, benefícios, incentivos, direitos, privilégios, afinal, não passa de um agregado - mais ou menos útil ou inconveniente na casa alheia.

Nenhuma estratégia interfere nessa dinâmica cotidiana, por isso, todas estão condenadas inexoravelmente ao fracasso, são incapazes de intervirem para além da superfície dessa estrutura da realidade do ambiente escolar. O problema do fracasso escolar tem muitas facetas. Na verdade, diria que o problema do fracasso da escola no país resulta da má vontade política com a educação. Ela pode ser apreendida pelo baixo nível generalizado – tanto nas discussões para formulação de políticas e diretrizes para educação no âmbito da política e sociedade, quanto nos sistemas de formação do ensino superior publico e privado. Essa constatação pode ser verificada in loco nas escolas e pelos seus resultados pouco ortodoxos nas diversas avaliações, pesquisas e estudos. Grosso modo, de um lado, as discussões no âmbito da política são conduzidas por quem nunca esteve em uma sala de aulas na rede publica ou ela não faz e nunca fez parte da sua rotina – sejam políticos ou “especialistas.” Assim, acaba-se optando por estratégias que antes atendem a exigências institucionais ou formais - objetivos do milênio, por exemplo - e/ou soluções mágicas prontas e mirabolantes, pirotecnias e/ou perfumaria que excluem a sociedade e os envolvidos na questão - professores, funcionários, alunos. Nada mais do que a histórica espetacularização da política - propaganda. De outro, o problema está no encontro que acontece na saída do curso de formação e ingresso no mundo da escola – o primeiro demasiadamente distante da realidade escolar e o outro procedimento meramente burocrático para ingresso de candidatos. Essas constatações aliadas ao histórico desprezo pela educação na nossa sociedade bastam para entendermos esse estado de coisas. Tradicionalmente sociedade e Estado, de braços dados negligenciam a educação fechando o circulo em que reafirmam o seu desapreço ou indiferença por ela. Começando pela legislação precária, ineficaz, insustentável e distante da realidade escolar e da capacidade publica, passando para a formação e seleção ao ingresso no ensino, ela se manifesta de várias maneiras. Pode-se constatá-la tanto pela ausência e insuficiente fiscalização dos cursos de formação, quanto pela sua omissão ou negligencia deliberadas. Alias, quando negligenciam-se os critérios para o ingresso às funções publicas mais primordiais para o funcionamento da sociedade e do Estado, como esperar algum rigor quando se trata de outras e/ou ofícios menos prestigiados, embora não menos importantes? Nessa década de atuação na educação publica, privada e no terceiro setor, apenas em um processo seletivo tive que, além de comprovar meus conhecimentos teóricos por meio de documentos e testes, demonstrá-los através de aulas práticas. Do ponto de vista formal, estabelece-se que a analise de documentos ou atestados por si só comprovam conhecimentos, capacidades ou as competências necessárias para o exercício docente. Nesse procedimento excluem-se compulsoriamente todos os “bacharéis.” Na pratica estabelece-se arbitrariamente, conforme os papéis atestem, que efetivamente uns possuem conhecimentos e outros não e, que aqueles que os possuem também são capazes de coloca-los em prática, dispensando-se convenientemente à sua verificação. Percebe-se que tal procedimento se justifica pela incapacidade de fazê-la aliado a indiferença. Embora não explique ou justifique por si só a falência da educação brasileira na atualidade, diz muito sobre a baixa qualidade dos docentes que ingressam ou se acomodaram ao sistema de ensino, sobretudo na rede pública precária, sucateada, negligente e omissa por vocação e empenho estatal.
Nessa década de atuação, conheci diversos educadores sociais de várias formações, sobretudo, pedagogos, assistentes sociais, psicólogos, no terceiro setor e iniciativa privada, que pouco ou nada sabiam sobre história brasileira e menos ainda sobre conceitos ou teorias relacionadas a política. Nesse nível de humanidades e humanismo, como é possível falar sobre formação para a democracia, cidadania, direitos, sustentabilidade, sociedade ou até o mercado de trabalho, a despeito do que estabelecem os PCNs? Emblemático foi o caso dos “educadores sociais” - pedagogos licenciados – de uma ONG que trabalhei que não sabiam do que se tratava o “feriado” de Nove de Julho. As psicólogas e assistentes sociais do presídio que trabalhei também não, embora conduzissem “oficinas de cidadania” para os reeducandos entre uma “dinâmica” e outra em que imitavam provas do “Big Brother” – as psicólogas também ignoravam Reich e Fromm. Conheci pedagogos que desconheciam Emília Ferreiro, Sniders, Dewey e Freinet. Uma estudante de letras que nunca havia ouvido falar em Borges e jamais lido Lima Barreto. No SESI havia um historiador que pensava que Prestes “o velho” e o Prestes político tradicional e aristocrata paulistano fossem a mesma pessoa. Em apenas uma das escolas publicas que atuei tinha biblioteca e bibliotecário - eu atuei em 4. Em outra havia uma sala trancada com livros, como a sala de informática – nada mais que depósitos de livros e computadores. Ambas as chaves ficavam no molho da “carcereira”, digo, inspetora de alunos. Conforme não tivesse bibliotecário e nem instrutor de informática o acesso a elas era deliberadamente negado – essa era a justificativa da “proprietária”, digo, diretora. Havia uma espécie de prazer mal disfarçado nessa negação – tipo de sadismo recalcado. Entre os funcionários subalternos da escola, proibir ou controlar o acesso a determinados lugares era uma forma de expressar algum poder, assim a quantidade de chaves no molho simbolizava o tamanho do poder, talvez uma especie de autoafirmação diante da sua manifesta insignificância naquele ambiente de apatia generalizada. Havia os que controlavam o acesso a determinadas salas, os que controlavam os registros, os que controlavam os materiais do almoxarifado – giz, apagadores, canetas, etc -, estafetas de todo tipo e esboços de burocratas medíocres indiferentes e alheios a educação por ignorância e/ou comodismo. Resignados, seguem dispostos a impedir, constranger, limitar, abortar, procrastinar e sabotar. Embora a educação seja regida pela Constituição Federal, pela LDB e pelo ECA, apenas conhecem e fazem conhecer o artigo 331º do Código Penal. Essa é a realidade cotidiana que os “especialistas” e políticos ignoram que não se encaixa nas teorias e/ou projetos, tampouco podem ser resolvidos por meios legais e autoritários. Nada além de papel e, conforme Faoro já dizia há pouco mais de 50 anos, no Brasil elas fazem “o caminho inverso”, “do papel para a realidade”, até hoje.

Winners e losers em Pindorama.


"O homem medíocre é sinônimo de homem domesticado, alinhado com exatidão ás filas do convencionalismo (...) são a escora mais firme de todos os preconceitos políticos, religiosos, morais e sociais."  José Ingenieros

As últimas décadas trouxeram mudanças significativas no mundo do trabalho e nas suas relações. A globalização e o neoliberalismo – que se caracterizam pela hegemonia ianque – exigiram novas práticas, valores, relações, ideias e teorias para a esfera produtiva – em todos os setores. A face mais visível e cruel dessa nova realidade consiste no incremento da tecnologia na produção, flexibilização das relações de trabalho, privatizações e fusões; tudo para evidente beneficio do capital em detrimento do trabalho e trabalhadores. Embora seja mais sutil, o outro lado da moeda não é menos perverso. A mão continua invisível e falando inglês, porem agora com sotaque yankee.

O modelo do Tio Sam se caracteriza pelo pragmatismo patológico, pela paranoia estatística e uma inclinação ao tecnicismo infantil. Essa tendência pode ser observada na iniciativa privada, setor publico – com reservas! – e, mais recentemente, com algumas resistências pontuais no terceiro setor. Ela se observa ainda na subordinação incondicional da educação ao mercado – ensino médio, técnico, profissionalizante e superior. Apenas a abandonada educação publica não se subordinou ao mercado, nem a sociedade, a cidadania, a democracia, a globalização, enfim, ela sobrevive a margem disso tudo! Esta espécie de fixação atende pelo nome de “profissionalização” – exigência imposta pela globalização neoliberal.

O Brasil caracteriza-se por uma tendência a subserviência que se expressa pela adesão voluntaria e irrestrita a tudo o que vem dos Estados Unidos – em outros tempos foi a Europa. O neoliberalismo, espécie de capitalismo selvagem, torna o mercado o senhor absoluto da sociedade, subordinando tudo, sobretudo a produção, a sua vontade inexorável. Assim, se reduz tudo a mera mercadoria, a relações de consumo, tornando-se tudo rigorosamente descartável. Uma espécie de Midas depravado, que corrompe tudo aquilo que toca! Sorry, nesse sistema “moderno” a educação não tem tempo para ensinar tolices e inutilidades como mitologia, folclore, filosofia, ética, moral, historia, sociologia, gênero, política, etc. Yes man, time is money! Eis o mantra da intelligentsia pós ou neo yuppie tapuia! Deste modo, tudo deve ser fast, over, full, high, up, clean, power, plus. Raso, vazio, superficial, fútil, frívolo, tolo. Como são felizes e realizados os burgueses e os aspirantes a classe media! Tudo é tanto que não cabe em ideias, não se reduz a palavras, escapa pelos sorrisos compulsivos expostos em profusão como provas incontestáveis nas redes sociais! Deve-se provar e renovar a afetação na "roda da fortuna." 

Para alcançar este fim, multiplicam-se as especializações, cursos técnicos rápidos e profissionalizantes, MBA’s, bem como os manuais de auto ajuda corporativos nos quais os conceitos e teorias devem caber rigorosamente em 126 toques! Com capítulos feitos sob medida para ler em latrinas ou entre uma reunião e outra, produzidos e promovidos como creme dental, um dia serão vendidos em hipermercados ou distribuídos como brindes para assinantes de operadoras de telefonia móvel. “A cabeça de Bill Gates.” “A mente de Steve Jobs”. “O pensamento de Roberto Justus: inside head boss.” Não, não é o que você esta pensando!

No pântano do “mundo corporativo”, o discurso caracteriza-se pela ausência de critica, pela profusão de obviedades e insignificâncias, idiossincrasias, preconceitos mal disfarçados, tautologias, formulas repetidas ad nauseam, indigência intelectual, cultural, frivolidades, empáfia e pouca ou nenhuma ética. O desprezo pela reflexão e critica reduz tudo a formulas, sentenças, demagogia, bazófias e números. O triunfo da ignorância oscila entre o amadorismo bovarista e cínico de um lado e a competição predatória e inescrupulosa de outro. Assim, se apoia no sofisma que opõe a teoria a pratica, sustentando que quem pensa não executa, apartando deliberadamente a ideia da ação - vazia, superficial, incoerente, extravagante. As “tendências” do líder e winner bem sucedido desses tempos reduzem-se basicamente a “boa aparência” e ao domínio do repertório do trash management. No brain and no sense! Trata-se do decrépito "admirável mundo novo" dos managers, bosses, fellows, coachings, etc. Na contracapa do almanaque de RH do homo-faber - "homem" marca e mercadoria -, postura não passa de "boa aparência", extravagância e altivez.  Embora os adjetivos sejam eloquentes e prolíficos em superlativos, trata-se do bom e velho mundinho pequeno burguês.

Nesse "admirável mundo novo" corporativo, os descartados pela iniciativa privada em decorrência da globalização invadem os movimentos sociais, apresentando-se como os novos adeptos e redentores das suas causas! As suas posturas, hábitos, trajetórias e discursos, no entanto, demonstram o seu grau de comprometimento com a causa – própria! Os mais ingênuos resignam-se e reproduzem esse modelo essencialmente incompatível, predatório e excludente ou pretendem acreditar que existem males que vem para o bem, como se o desemprego de hoje torna-se o burguês individualista de ontem no altruísta de hoje. Seria cômico, se não fosse verdade!

domingo, 5 de junho de 2011

Iniciação


A rua começou pelo pixo. Foi por meio dele que eu conheci tudo. A noite, a cidade, drogas, policia, gangues, bandidos e o crime. Para mim isso começou aos treze anos, em 1988, por meio de um colega de classe na sétima serie que logo perdi o contato. Nessa época meu primo foi morar em casa e começamos a fumar maconha – eu, ele e meu irmão, entre outros moleques da rua. Meu primo se foi, depois foi preso, e eu já estava introduzido no mundão. No inicio dos anos 90 o pixo tomou maiores proporções. Nessa época eu já trabalhava, portanto, tinha mais independência e autonomia. Comecei por influência desse colega, gostei, e nessa época descobri que haviam as gangues e garotas que admiravam as peripécias dos pixadores. Era o que faltava. Até essa época minhas peripécias – gangues, crimes, pixo, problemas com a lei – estavam circunscritas a vila. Quase tudo que fazia nesse sentido girava no entorno da escola e do quarteirão. Brigava, furtava, pixava, namorava, bebia, fumava, cheirava benzina, fumava maconha, tudo nesse entorno. Aos 15 ganhei a cidade.


Comecei a estudar a noite e tinha o meu próprio dinheiro. Ninguém me segurava. Bebia, fumava, usava drogas, cometia pequenos delitos – dos furtos no bairro passei para as pequenas contravenções -, e pixava, tudo em excesso. Gastava em excesso. Nos anos seguintes, entre 91 e 92, já com a gangue sai do chão, preferia os “picos” – marquises, fachadas, sobrados, prédios e edifícios. Eles davam mais Ibope – fama, o combustível do pixador.

Descobri nessa época que o que sempre vai me derrubar são os excessos - a ousadia excessiva, a confiança excessiva, entre outros excessos. Quando fui pego fazia tempo que nem me dava mais o trabalho de sair à noite para pixar, de madrugada. Saia de dia mesmo e nem escolhia local ou dia da semana. Tacava a lata na cara dura! Fui pego assim, em um domingo na hora do almoço, pixando um lugar que já havia pixado no mínimo outras dez vezes antes! Túnel da avenida Nove de Julho sob a avenida Paulista. Conforme trabalhasse na rua Estados Unidos, em diversas ocasiões ao passar por lá pela manhã via os funcionários da prefeitura limpando ele. Ato continuo: chegava no trabalho, assinava o ponto, saía, comprava um spray e enquanto os limpadores saiam pela Vai-Vai eu entrava pelo lado oposto do túnel - Jardins - pixando. Fiz isso incontáveis vezes!

Coragem, criatividade, ousadia, iniciativa, espírito de liderança e equipe. Um pixador não sobrevive sem essas características. Duas situações que vivi demonstram isso. Avenida Paulista, Trianon, inicio de 1992. Eu, uma mochila, uma lata de spray prata metálico, final do dia. Já conhecia o prédio. Havia ido lá outras vezes como oficce-boy em um escritório. Estratégia: entro pela portaria e saio pela garagem. Parei no andar do escritório e subi os demais lances pela escada. Chegando no alto vi que tinha mais um lance de escadas que terminava em uma porta antes da saída para o terraço. Saquei que devia ser uma saleta do pessoal da manutenção ou segurança do prédio e fiquei atento ao passar para o terraço. No terraço, dei uma volta ao redor dele todo para reconhecer o terreno. Decidi começar a pixar pelo lado da Nove de Julho porque imaginei que seria mais tranquilo, menos gente olhando. Estratégia: tirar a blusa, a camisa e os óculos. Pixei todo o lado oposto do prédio. Fui para o lado da Paulista. Se olhar para baixo não pixa. Me dependurei e comecei a pixar. Num determinado momento, cansei, parei e vi que tinha uma multidão do outro lado da rua olhando, curiosos, as letras que surgiam na fachada do prédio. Sabia que era questão de tempo para virem atrás de mim. Terminei logo, vesti a camisa, a blusa e os óculos. Nervoso e na pressa, saí sem olhar antes de passar pela saleta. Um sujeito que estava a porta me viu passar e me mandou parar. Desci as escadas a mil por hora. Ao chegar em um determinado andar, empurrei a porta como se tivesse entrado nele e entrei no de baixo. Devia ter deixado o resto do spray lá no terraço, mas, como estava com ele ainda na cintura, coloquei-o dentro do cinzeiro entre os elevadores e chamei-os. Questão de segundos chega o segurança, me enquadra e revista - conforme o esperado. Minha tentativa de despistá-lo não colou. Eu estava com medo, adrenalina a mil, mas, tinha tudo planejado – desculpa, argumento, justificativa, tudo. Meu único medo era ele perceber os vestígios escandalosos de tinta nos meus dedos – não sei até hoje como não pode ver! Meus dedos da mão direita estavam todos prateados. Explicação dada, identidade checada, entrada autorizada, peguei o elevador e sai pela garagem de modo a evitar outra abordagem - conforme o planejado. Todo esse trabalho e risco não duraram mais que um mês, logo pintaram tudo. Tempo suficiente, no entanto, para quem importava ver ter visto.

Assim que sai fui olhar e ligar para uns amigos para contar a proeza! Voltei pra casa radiante! Alguns meses depois marcamos um role no centro. Na época o local mais cobiçado pelos pixadores e mais vigiado da cidade era o Teatro Municipal. Nos encontramos na frente dele – eu e mais três camaradas. Antes eu passei no point do centro e peguei o Chefe. Um deles era o mais famoso de Sampa na época - mais famoso, mais ousado, dos mais antigos e detestado entre os pixadores. Eu perto deles engatinhava, mas, não era menos apetitoso. Dois da zona sul, um da zona norte e eu da oeste - eu (Disaster´s), Tchentcho, Chefe e o Capri (Suspense). Nos encontramos no local e horários combinado. Um não levou a tinta, outro um rolinho e todos duros. E aí? Aí prevalecem as características e qualidades do pixador.

Decidindo para onde íamos e como faríamos, passa um carroceiro. Pendurada atrás da carroça uma lata de tinta óleo. Sem titubear o cara pega a lata e segue para o ponto de ônibus seguido por nós. No busão, troca ideia com o cobrador e todos passamos por baixo da roleta. Chegando no local, entra em um comercio e pede um refri. Esconde a lata dentro do lixo. Ao sair sai de sacola na mão com a lata dentro. Quando chegamos ao prédio que iríamos pixar, conforme eu fosse o mais novo da turma, fiquei incumbido de permanecer no local passando um pano. Se chegasse a policia eu ia simular ter sido vítima de uma tentativa de assalto pra despistar e tentar adiar a entrada deles ao máximo no prédio. A entrada pela lateral do prédio era em um ponto de ônibus. Conforme haviam pessoas no ponto um deles gritou: balão, balão, balão!!! Para justificar a invasão ao prédio pelo muro. Colou. Todos ficaram olhando, procurando o balão e ninguém falou ou fez coisa alguma! Alguns minutos depois chegam os três pelo mesmo lugar que entraram. No dia seguinte formos ver o pixo. O filho da puta pixou o nome da minha gangue errado! Na verdade, conforme fui conhecendo-o melhor depois, desconfio que tenha feito de propósito mesmo, porque queria que mudasse o nome dela para o que ele gostava e havia pixado naquela ocasião. Trabalho inútil, pintaram logo em seguida também. O ibope para o pixador, a visibilidade era importante, no entanto, penso que a motivação era o trabalho em si, a aventura, adrenalina, o risco, a ousadia e a subversão, mais do que a visibilidade ou o tempo de permanência da pixação. Hoje tenho outras teses sobre isso, mas, não vem ao caso agora.

Muitos se perderam no mundo do crime e se foram. Aos doidos da época: Punk de Guerra, Tchentcho e Krellos, Bacanas SP, Barks, Geleia, Chefe, AHG e TNY, Suspense, Fobia, Kop, Suspeitos, Saile, Zampa, Di, Pino, MJR, Os Metralhas, Kidão, Kiko, Ark, Rolex, João Boy, Balas, Pensativos, Rick, Loiro, Cia, Disasters, GSF, RDF, Kão, Binho, Túmulos, Cínicos, Diferentes, Gatinho, Tchara, Coruja, WF, K7s, Jet Boys, Fator 35, LDB, INXS, Legião, Homens Pizza, Rapto, Os Muchachos, Imorais, Ilários, Apaches, Hipnose, The Relâmpagos, Tuff Turfs, HSMD, Pegadas, Muralha Sul, 4 Cor, Gil, Os Grafes, Exorcistas, Psicopatas, Xuim, Ossos, Piromania, Snow Boys, Os Bárbaros, Lixomania, Revoltas, Só Mina, The Pirocas, Pensativos, Apaches, 8º Batalhão, entre vários e várias que me esqueço agora e lembrarei depois - ou outros lembrarão. A primeira foto é de um pico na avenida Santo Amaro e a outra na Paula Ferreira em Pirituba....

Duas mortes


O mais novo levou dezenas de tiros. Na cabeça, no rosto, no corpo todo. Tiros de 45. Dizem que ainda passaram com o carro por cima do seu cadáver. Ele tinha 18 anos e uns dez assassinatos nas costas – ou mais. Não consta que houvesse troca de tiros nessas mortes. Algumas aconteceram no bairro e todos sabem como ocorreram – a sangue frio, sem chances de defesa e por motivos fúteis. Foi nessa época que começaram a surgir os jovens sanguinários pelo bairro. Aquilo que se conhece no mundo do crime como “bicho solto.” Ele foi um dos piores. Até essa época, meados dos anos 80 e inicio dos 90 não me consta que existissem deles no bairro. Causava mais terror ainda porque era novo, tinha cara de menino e era baixinho – nem um metro e sessenta, um pouco menos. Foi assassinado pela policia de forma sumaria logo após sair da FEBEM e completar 18 anos. Consta que estivesse na porta de casa quando um carro sem placas passou, parou e o levou. Horas depois seu corpo foi encontrado em um terreno baldio próximo. Eu conheço o irmão dele. Ele estudou com o meu. Ele mesmo jogava bola comigo quando criança. Talvez tivesse futuro, era um bom centroavante. Começou cedo no mundo das drogas e logo se tornou bandido. Andava sempre armado e quando cheirava estranhava todo mundo. Matou conhecidos e desconhecidos por nada, sob efeito da cocaína. Sem duvidas não viveria muito tempo.

Até hoje não sei porque não me matou. Um pouco antes dele se tornar essa “besta fera” eu briguei com ele. Dei uns socos nele numa briga à toa, por causa de uma garota que nem conhecia e um rapaz que nem era meu amigo – era primo de um. Muitos não tem a mesma sorte que eu e morrem assim. Soube que ele queria me pegar como os outros. Encontrei com ele uma vez e nos vimos, gelei; olhei pra ele e fiquei na minha. Estávamos a cinco metros de distancia no máximo e ele me olhou e não me encarou, só me olhou indiferente, embora me reconhecesse. Até hoje não entendo isso, mas, naquele dia, embora me dissessem que estivesse cheirado e armado parecia-me em paz. Dias depois morreu.

O outro era cearense. Chegou ao bairro no fim da infância e cresceu lá. Brigou com todo mundo, inclusive comigo - nossa briga não terminou, fomos separados antes. Ele brigava todo dia e por qualquer motivo. Como o outro também era muito bom de bola - jogava bem no ataque. Até o dia da morte ainda preservava o sotaque. Um pouco mais velho do que eu, começou também mais cedo no mundo das drogas e logo virou bandido. "Bicho solto" também. Tinha sem duvidas mais de dez mortes nas costas. Seu apogeu foi à frustrada tentativa de roubo e sequestro de um dos filhos do Collor em 91 nos Jardins. Na troca de tiros matou um dos seus seguranças – que segundo consta era delegado ou ex da PF. Na época ele tinha de 17 para 18 anos. Foi baleado diversas vezes – não me lembro, mas, sei que levou mais de 3 tiros. Dizia que se fingiu de morto para não ser executado. Que ficaram passeando com a viatura para ter certeza que chegaria morto ao hospital. Deu entrada quase em óbito e quando saiu convalescente foi pra FEBEM no Tatuapé. Meu primo estava lá. Foi ele que "passou um pano" pro cearense que, embora tenha chegado com moral pelo crime, estava bem zoado pelos ferimentos. Nenhum dos seus familiares ia visitá-lo, tinham vergonha e não aceitavam. Assim, como minha mãe e tia iam, acabavam visitando-o e meu primo dividia tudo com ele. Por isso ele sentia-se eternamente em divida conosco e, penso que mais de uma vez inclusive intercedeu a meu favor. Ele era muito louco e sem noção. Meu primo conta que uma vez, na FEBEM, ele deu uma cantada em uma psicóloga – levou uma surra e foi parar na enfermaria. Todos os seus parceiros nesse crime encerraram a carreira nele. Um foi assassinado dias depois em casa com dezenas de tiros – consta que "resistiu" a voz de prisão deitado desarmado embaixo da cama. O outro coincidentemente também resistiu à voz de prisão e vegeta em uma cadeira de rodas até hoje. Ele após sair da FEBEM ainda sobreviveu por quase quatro anos nas ruas. Deu tempo ainda para roubar muito, usar muita droga e matar muitos outros até irem buscar ele em casa, conforme fizeram com o outro. Também foi torturado, não só fuzilado. Consta que foi espancado, estrangulado, queimado com pontas de cigarro e baleado no rosto, cabeça e peito com tiros de 45. Foi encontrado nu, amarrado e pendurado pelo pescoço em uma arvore. Em duas ocasiões em que estive encrencado ele me "passou um pano." Uma vez em que fui roubado, reagi e me espancaram ele me socorreu. A outra foi quando um “bicho solto” – nessa época surgiram vários no bairro -  da favela tentou assaltar meu primo e "quebramos" ele de porrada. Nessa ocasião o cara jurou me matar e eu falei com ele. Depois ele veio falar comigo e se desculpou. Esse subiu um pouco antes e também de forma violenta sem completar vinte anos.

No inicio do século 21 eles deram um tempo – os “bichos soltos.” Me parece que estão voltando, espero estar enganado, embora já não acompanhe esse mundo mais tão de perto. São outros, porem, piores. Não sou indiferente, só sei que o crime mudou e os caras que eu conhecia se foram. Os poucos que estão aí mudaram, deixaram essa vida, sobrevivem modestamente e/ou se adaptaram, aceitando essa nova ordem - ou se aceita ou morre. Os que estão aí hoje eu não conheço - nem quero conhecer. Até os "bichos soltos" de outrora eram mais humildes e de respeito! As historias de outros tempos se foram. Com elas o respeito, a paz, a humildade e a clareza. Hoje é o tempo do trafico e, quem vive a realidade do crime sabe o que isso significa para as comunidades. Muita coisa mudou - para a pior -, o Estado permanece o mesmo, distante, alheio, omisso, indiferente. Ambos partiram em 96.

........

Eu não sei nada do mundo.
Nada sei sobre mim.
Nada sei sobre tudo.
Ou sobre nada.
Nada quero saber.
Me importa nada.
Concordâncias....
Ignoro.
Discordo sem saber.
E tudo existe demais.

Pax

O sono é a única paz.
Uma paz consigo mesmo.
Refugio, repouso, retorno.
A paz é para poucos.
Quem é digno?
A paz é um aceno da eternidade.
Aquela que sonhamos quando esquecemos.
As estrelas se movem indiferentes.
O silencio é indiferente.
A brisa que acaricia é indiferente.
O sono inocente das crianças é indiferente.
A vigília do homem é indiferente.
Quanta paz pode caber em um coração?
Quanta paz pode haver no mundo?
Quanto da eternidade cabe em uma noite?
Se morreremos todos....
A vida é indiferente.
Segue a noite, segue a vida.
Eternamente.

Silencio

Silencio.
Meus olhos.
A voz muda.
Os ouvidos.
Lembranças distantes.
Sonhos ausentes.
Silencio.
Profundo.
Silencio.
Ao vento.
Frio.
Ao pensamento.
Que dizem?
Que sonham?
Que pensam?
Pensam-se?
Que se atrevem a insultar o silencio.
Que importa?
Silencio.
Mortos não falam.
Nada dizem as ilusões.
Sobre a mentira.
Menos a verdade.
O silencio revela aquilo que não se pode dizer.
E não pode permanecer calado.
Apenas isso.

sábado, 4 de junho de 2011

Desengajamento


Ministro de Estado, homem publico, político e militante de esquerda - estalinista - de longa data no Brasil consegue aumentar em VINTE VEZES seu patrimônio em QUATRO ANOS. Companheiros de partido nada veem de questionável - para dizer o mínimo - nisso. Tal evolução resulta de serviços prestados como "empresário" e "consultor." Nada de questionável nisso também e seria leviano ou cinismo suspeitar disso.
O "rapper" MV Bill tentou amenizar as polêmicas sobre o ataque que fez a Ana Maria Braga pelo Twitter, após levar uma nota baixa da apresentadora no quadro "Dança dos Famosos", do "Domingão do Faustão". De acordo com o site "Ego", o músico disse que as pessoas não devem levar o microblog a sério.
"Vou esperar o programa se comunicar para falar o que decidiram sobre a repescagem. Achei tudo muito legal e agradeço a oportunidade (de participar do quadro). O que a gente escreve no Twitter ninguém pode levar a sério. Ali é um local para brincadeiras", disse.
MV Bill escreveu em seu Twitter sobre Ana Maria Braga , jurada do "Dança dos Famosos", depois de sua eliminação, no último domingo, dia 29.
"Se a jurada mais cascuda conseguisse fazer melhor, eu até levaria em consideração, sendo assim, então, f...! A vida continua", atacou. Ana Maria também já participou do quadro e foi eliminada.
Ele escreveu ainda: "Vou pra casa acender uma luz que me conduza a um lugar que não tenha culinária de futilidade nem modelo com cérebro de ervilha (referindo-se à modelo Amanda Brandão, que também estava no júri)".
Embora não esconda que tenha ficado triste com a eliminação, ele discursou a favor da competição e da realização pessoal. “Só de eu estar ali no palco, já foi uma grande superação. Valeu bastante!”, declarou o "rapper" ao site oficial da Globo.

Homens públicos, políticos, intelectuais, militantes desse tipo honram e enobrecem a esquerda, as causas e lutas das massas trabalhadoras e populares pelo seu exemplo de coerência, rigor critico, ético, ideológico e comprometimento! Como diria aquele outro: "nunca antes na historia" desse país tivemos tão eloquentes demonstrações de comprometimento com as causas do povo e as bandeiras da esquerda! Mais uma vergonha, dos que já não tem mais nenhuma.