terça-feira, 31 de maio de 2011

Memória


Abdias foi grande. Foi um verdadeiro revolucionário. Aquele que sonha, ama, luta e tomba pela causa. Segue sereno porque tem convicção e não se entrega nem se deslumbra muito menos se deixa seduzir, corromper. Gente como ele faz falta, a política, a cultura, a sociedade, sobretudo, em uma época de tanta mediocridade nessas áreas. Apesar da democracia, é demasiado temerário falar em avanços, desenvolvimento, quiçá transformação em todos esses campos da vida dos pobres e dos negros. Falo isso como mero observador, nem sou estudioso das lutas dos negros e nem sou negro. Falo apenas como cidadão, pobre, sociólogo. Com efeito, hoje existem movimentos sociais organizados, articulados com o poder - inclusive com as entranhas do poder. Existem ações de inclusão diversas. Que isso significa diante do tamanho do crime hediondo cometido durante séculos contra os excluídos – aqui se inclui outros estratos sociais alem dos negros? Que isso significa diante da enormidade e variedade demográfica e de demandas decorrentes da modernidade e da democracia – Estado de Direito – para efeitos de cidadania? Que isso significa então, diante da grandeza e da nobreza dos sonhos e lutas de homens como ele?
Abdias foi um grande. Um visionário. Uma das principais qualidades de um revolucionário. Conviveu com os grandes homens do mundo de seu tempo e foi por eles tratado como igual – Camus, O’Neill, entre outros. Tinha a nobreza própria dos homens que estão à frente de seu tempo e comprometidos com causas maiores do que o poder e o lucro. Essa nobreza é que confere a dignidade e a aura superior aos humildes - como ele era - incompreensível para os medíocres! Abdias, entre outras coisas criou o TEN (Teatro do Experimental Negro) em 1944. O TEN promovia cursos de alfabetização e de cultura geral, promovia o saber em um tempo de racismo e exclusão abertas – hoje, em tempos de democracia e ideologia politicamente correta, tudo é mais sutil, porem não menos perverso. A inclusão se dá pela cooptação seletiva e/ou assistencialista clientelista – no varejo – e a exclusão por meio do encarceramento e extermínio – no atacado.
Pior ainda é a alienação pelo apartamento do caráter ideológico intrínseco a política no debate sobre as questões relativas à inclusão. Segue-se pelo caminho da America, diga-se de passagem, da época da Guerra Fria e do Macarthismo – isso basta para efeitos acerca do caráter ideológico desse viés político. Engano? Pode ser. Por outro lado, penso que sem a transformação ideológica que determina as estruturas de poder no interior do campo político, por meio das ações de base na sociedade, nada mudará no que diz respeito às praticas que permeiam as relações entre Estado e Sociedade, Publico e Privado. Os excluídos continuarão no alpendre da Casa Grande e entrarão pela “entrada de serviço” ou pela porta dos fundos, com a benevolência do senhor, enquanto comemora a ilusão de haver conquistado aquilo que a burguesia se apossou e, esta desdenha por conceder o que não lhe pertence! Como é possível aceitar de alguém aquilo que não lhe pertence sem admiti-la e assim lhe outorgar a posse? Os que são incorporados a universidade hoje serão os “prestadores de serviço” dóceis e agradecidos da Casa Grande de amanhã, um mal necessário que a elite branca tolera para a manutenção dos privilégios do mercado determinado por ela. Ontem foram as mulheres.
As “causas” resultam da identificação dos estratos populares e médios com as elites – seus valores, ideologia, hábitos, praticas, padrões. Resultam do cinismo triunfalista e fatalista que sentencia o fim das ideologias – nesse sentido substitui-se ideologia por demandas. Resulta da mudança de paradigma da política e do Estado. Resulta da falaciosa autonomia da sociedade civil organizada – ideia burguesa. As “causas” dos excluídos não se inserem em um amplo debate ideológico ou nacional, funcionam mais como compensação e/ou resposta as demandas de grupos organizados de pressão ou setores sociais, no sentido de elevar a autoestima dos mesmos, construir e fortalecer identidades coletivas, “bem estar social.” A ausência de políticas efetivas e transformações profundas ou rupturas, oferecem-se cargos, cotas, compensações pecuniárias, mártires e/ou datas comemorativas. Afinal, comemora-se o quê? A ascensão a classe C? Não creio que aqueles que tombaram tivessem se batido para que seus descendentes celebrassem o acesso ao consumo como compensação a desigualdade política e cidadania. Tampouco celebrar concessões ou barganhas, que minimizam as contradições, reduzem os conflitos sem potencial emancipatório, conforme se almejava a despeito da imensa maioria de excluídos.
Abdias escreveu sob influência de Camus – de quem foi amigo – “O negro revoltado”, obra que pautou o 1º Congresso do Negro Brasileiro em 1950. Seu texto foi rejeitado por todas as editoras por décadas – qualquer semelhança com o “padrão global.” Junto com o poeta negro e ativista cubano Solano Trindade debateram as questões relativas ao papel do negro na sociedade e foram apoiados e reconhecidos por Darcy Ribeiro, Sergio Milliet, Carlos Drummond, Florestan Fernandes, entre outros. O TEN foi, no seu tempo, atacado pela elite ilustrada branca da época. O Globo em editorial chegou a afirmar que o TEN era uma tentativa de “resgatar o espírito de Palmares!” Mal sabiam que não se tratava de uma revolta, antes uma revolução! Foi ainda o primeiro movimento a denunciar a alienação da antropologia e da sociologia nacional, retratando o negro, de forma caricata ou histórica acrítica, como se tratasse de elemento estático na sociedade – qualquer semelhança com a tradição americana não é mera coincidência! Qualquer semelhança com o tratamento dispensado aos negros pela Rede Globo de Televisão hoje também não é mera coincidência!
Os anais do Primeiro Congresso não deixam duvidas quanto os seus objetivos e teses: "O I Congresso Negro pretende dar uma ênfase toda especial aos problemas práticos e atuais da vida da nossa gente de cor. Sempre que se estudou o negro foi com o propósito evidente ou a intenção mal disfarçada de considerá-lo um ser distante, quase morto, ou já mesmo empalhado como peça de museu. Por isso mesmo o Congresso dará uma importância secundária, por exemplo, às questões etnológicas, e menos palpitantes, interessando menos saber qual seja o índice cefálico do negro, ou se Zumbi suicidou-se realmente ou não, do que indagar quais os meios de que poderemos lançar mão para organizar associações e instituições que possam oferecer oportunidades para a gente de cor se elevar na sociedade.” Pode-se perceber o seu caráter dinâmico, crítico, emancipatório e revolucionário. Trata-se não só de buscar amenizar a situação do negro ou inseri-lo na sociedade branca, elitista e racista, mas, de transformar essa sociedade, buscando por meio de estratégias coletivas reordenar as relações sociais e de poder - “organizar associações e instituições” (...). Desnecessário chamar a atenção para o caráter ideológico dessa proposta. Construir estratégias para formar “intelectuais orgânicos” não se confunde com “elites intelectuais negras”, conforme reivindicam alguns deslumbrados com o mundinho branco pequeno burguês oferecido pela Rede Globo. Hoje muitos ainda preferem as questões “palpitantes” – confesso que adorei essa expressão!!!
Em entrevista recente, Abdias lembra que “no final dos anos de 70” durante o “movimento pela anistia ampla e irrestrita”, lideranças “esquerdistas” não “reconheciam a prisão dos negros por discriminação racial como uma forma de perseguição política.” Finaliza destacando que isso “continua acontecendo hoje.” Acrescento apenas que as lideranças esquerdistas daquela época são as que ocupam os gabinetes do poder hoje. Os que eram os jovens universitários da classe media dos rebeldes anos 60 e 70 proclamam-se os redentores da política! Os “bons burgueses” defensores dos excluídos e da classe operária! Acredite, quem quiser. Continuando, afirma que “para as forças de esquerda, presos políticos seriam apenas os filhos de classe média e alta, quase todos brancos, que roubavam bancos, jogavam bombas ou sequestravam embaixadores. Esses, em muitos casos, efetivamente haviam cometido atos de violência, enquanto não raro negros são presos e torturados sem terem cometido crime algum.” Qualquer semelhança com o Brasil de hoje não é mera coincidência!
Finalizo com as suas próprias palavras, alertando os jovens negros para “estudar, aprender, conhecer e se preparar para, então, se engajar: agir, criar, interagir e participar da construção das coisas.” Nisso consiste a alma do revolucionário, aquilo que o anima, posto que não se deslumbre ou seduz com o efêmero poder, nem com barganhas, tampouco com os belos discursos altruístas da burguesia. A transformação só virá se vier de baixo para cima, e ela tem pouco ou nada a ver com “maiores oportunidades” – sejam quais forem! - em um sistema falido, injusto e excludente por natureza.

domingo, 29 de maio de 2011

Futuro


Eu não sei o que amanhã me reserva.
Nada sei sobre o futuro.
Nem sobre o presente.
Apenas vivo.
E sou satisfeito por isso.
O passado passou, foi.
Basta viver.
Um homem diante de um caminho.
Que sabemos sobre eles?
Existem.
Cada qual é aquilo que é e deve ser.
Existem para irem.
Que é aquilo que não foi ou deveria ter sido?
Nada.
Por que o horizonte é distante?
Por que a vida não é aquilo?
Todos passam.
Eu também passarei.

sábado, 28 de maio de 2011

Tragédias Cotidianas



Quatro crianças são queimadas dentro de casa em São João do Meriti - 27/05/2011

"A polícia investiga o que provocou queimaduras graves em quatro crianças, com idades entre 5 e 10 anos, na noite de quinta-feira (26), em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Os irmãos estavam em casa.Segundo a polícia, a mãe conta que as crianças dormiam e ela teria ido à casa de uma cunhada, por volta das 22h, a poucos metros do lugar onde mora, no bairro Jardim Metrópole. Os três meninos, de 6, 8 e 10 anos, e a menina, de 5 anos, ficaram com o padrasto.A mãe diz [...]

Um bebê de um ano e quatro meses morreu após ser vítima de maus-tratos, em Campo Alegre (SC). A criança teria levado um soco do padrasto na região do abdome. De acordo com o delegado Fernando Lúcio Mendes, a criança já vinha sofrendo as agressões há algum tempo. "Vamos investigar também se a mãe teve envolvimento no caso, ou por omissão ou por ter praticado maus-tratos junto com o padrasto", explica. Segundo a Polícia Civil, na segunda-feira a mãe da criança saiu de casa, no bairro Vila (...)

João Pessoa (PB) - Criança foi socorrida, mas faleceu no hospital; padastro está preso . Uma criança de apenas três meses de idade, identificada por Aylonik da Silva Barbosa, morreu no hospital Santa Paula, em João Pessoa, após sofrer queimaduras graves quando se encontrava dormindo em sua residência, no bairro do Baralho, em Bayeux. Informações colhidas pela polícia dão conta de que no final da tarde de sexta-feira, 11 de março, Pedro Rodrigues de Melo teria ateado fogo na casa onde a criança estava.

PM encontra bebê de cinco meses morto e duas crianças de três e cinco anos desnutridas em Nova Iguaçu em 23.05.11.

Morre bebe encontrado em lixo de banheiro de hospital em Jundiaí – 29.04.11.

Três crianças, com idades entre 1 e 4 anos, morreram queimadas, no final da noite de sexta-feira, 15 de abril, após um incêndio - provocado possivelmente por uma vela acesa - se alastrar rapidamente na residência número 24 da rua Maranhão, no Jardim da Viga, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Sete viaturas do 4º Grupamento de Bombeiros Militar (GBM) foram encaminhadas para o local, mas o fogo tomou conta da casa rapidamente. As crianças, de mães diferentes - duas irmãs - estavam sozinhas. As mães foram localizadas e disseram que haviam saído com uma amigas. A avó das crianças também mora na mesma casa, mas, antes de sair, deixou o netos com as filhas. Esse tipo de caso é tratado pela Polícia Civil como abandono de incapaz.

Bebê abandonado em caçamba recebe alta na Praia Grande (SP) e a mãe é colocada em liberdade pela justiça - 29.04.11."

Que diz isso aos paladinos dos Direitos Humanos? O silêncio diz tudo. Nenhuma nota de repúdio, nem um protesto, tampouco ações efetivas de enfrentamento ou manifestações de solidariedade. Do ponto de vista efetivo poucos agentes públicos e conselheiros sabem realmente o que sejam o ECA e o PNCFC e, para efeitos práticos NADA dizem a sociedade, conforme nossas crianças, jovens e mulheres sejam exterminados cotidianamente debaixo dos seus olhos impassíveis e indiferentes. Quem entender que existam causas mais dignas ou prementes é cúmplice no crime. Em qualquer sociedade que se pretenda civilizada a VIDA, sobretudo, das CRIANÇAS, deve ter primazia sobre tudo e quaisquer direitos! Relativizar isso é demasiado cinismo e até para a hipocrisia e a omissão devem haver limites! Esse é o nível de civilidade que chegamos ao século 21. Que os Deuses protejam as nossas crianças e que elas me perdoem.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Cadeia


Quando trabalhei com encarcerados vi muitas coisas que gostaria de não ter visto e ouvi outras tantas piores. Conheci gente perversa, sádica, cruel, cínica. Muito piores que muitos dos presos. Companheiros de trabalho. Presos vinham me contar que falavam de mim pelas costas, me avisavam pra ficar esperto. Não que confiasse integralmente no que muitos deles me diziam, sei como é o jogo, mas, confiava, sobretudo, no que via e no meu “desconfiometro” - intuição. Antes de conviver com presos já convivi com funcionários públicos e policiais e sei como são os melindres.
Nessa época trabalhava com uma equipe de estagiárias de psicologia e serviço social da UNIP, meninas bonitas que pareciam saídas do elenco da "Malhação." Novas, solteiras, loiras, saradas, sensuais. Isso bastava para todos os agentes penitenciários me detestarem. Sem dizer que eu ainda era jovem, coordenador, inteligente e sabia me impor. Percebia como me fuzilavam com os olhos quando passava e principalmente quando o diretor do presídio me chamava a sua sala. Demonstravam bastante hostilidade ainda porque eu era da capital e tinha bem mais conhecimento do mundo do que eles que nunca haviam saído daquela província. Fora isso tudo a convivência era boa! Fiz até algumas amizades que mantenho até hoje, sobretudo com uns veteranos. Gente digna da espécie humana e que honra o Estado – muito mais do que altas autoridades do executivo e judiciário.

Porem, não é sobre eles que tratam essas linhas. Quero falar sobre dois presos em particular - Célio e Marco. Os dois eram traficantes. O primeiro era mato-grossense, fazia transporte de cargas e também era assaltante. O segundo era local e estava na sua segunda cadeia. O primeiro era esperto, malandro escolado, nascido e criado no crime. O segundo era veterano, mas, de classe media, traficava por opção. Tinha uma loja de carros e a mulher era professora da rede publica do município. Gostava do crime, das drogas e da vida de bandido. Ambos estavam na faixa dos 45, mas não aparentavam. Enfim, nos víamos e conversávamos todos os dias. Eu falava do trabalho e das minhas andanças - SP/RJ - e eles da cadeia e dos seus B.Os. Quando passei a dormir no alojamento nosso contato aumentou. Sempre fumava cigarros deles e eles do meu. Uma vez até me ofereceram uma cachaça que um agente deu a eles. Tinha um motorista de bonde que sempre levava algum agrado pra eles. Era gaúcho e sempre tomava chimarrão conosco, compartilhando a cuia e o fumo.

O mato-grossense, de tão simples, ninguém dava nada pra ele. Era até visto como bobo por aqueles que se achavam mais espertos. Bobo era quem pensava que ele fosse bobo. Respeitado na cadeia pelos presos de todas as facções - PCC e CRBC - e não pertencia a nenhuma. Respeitado pelos funcionários mais antigos e pelo diretor. Tinha a confiança de todos e desfrutava de certas regalias. Quando passei a dormir no alojamento do presídio, costumava sair depois do meu horário de expediente - 16H - para ir a um boteco no final da rua, cerca de 500 metros do presídio. Distante 100 metros dele ficava a vila dos funcionários – diretores e outros mais antigos e graduados do sistema. Esse preso saía dia sim e dia não para fazer alguns trabalhos na vila – o que por sinal é ilegal. Em uma outra ocasião falarei só das ilegalidades que vi e ouvi por lá. Após algumas idas e vindas encontrava com ele pelo caminho. Como ele estava lá há mais tempo do que eu sabia aonde eu ia. Um dia quando cheguei lá encontrei ele e outro preso tomando umas cervejas e beliscando uma tábua de frios. Evidente que disfarcei a surpresa! Na hora me cumprimentaram e me chamaram a mesa. Evidente que também sentei e tomei umas com eles, comi e nem paguei nada, não deixaram. Quando saíram, perto das 18, que é a hora da contagem deles, o mato-grossense foi até o balcão e pendurou a conta com o proprietário – o que significa que já era freguês. Eu fiquei lá até as 19 que era à hora da janta na cadeia. Depois desse dia quando nos encontrávamos na hora do almoço eu sempre perguntava a ele e ele devolvia: “vai lá hoje?” Tomamos várias outras diversas vezes. Os assuntos eram quase sempre a vida na cadeia, direitos humanos, crime, futebol, família e mulher. Quando ficava até mais tarde sempre encontrava funcionários lá do presídio também, inclusive em horário de trabalho - muitos eram alcoólatras  Uma vez levei uma lata de cerveja pro outro preso. Coloquei-a - a cerveja - em um saco plástico e entrei sem problemas. Impressiona o que alguma atenção e coisas que sequer pensamos a respeito delas adquirem enorme importância e valor quando se esta privado da liberdade e longe dos seus - isso, de certo modo, compartilhava com eles. 

Um dia o guarda da portaria já havia saído da guarita. Me avisou que quando estivesse na rua podia pular a cerca – nem precisava chamar ninguém pra entrar. Fiz isso diversas vezes também. Os guardas de muralha - AEVP - que me conheciam comentavam depois, “ei Funap, te vi ontem pulando a cerca lá hein.Traz uma gelada da próxima vez, pô!” Uma vez esse traficante da cidade me contou sobre um agente veterano que tinha raiva de mim porque, como se diz lá: eu "não pagava simpatia pra agente." Contou-me que ele me queimava, dizia que eu era ingênuo, otário, que eu não sabia de porra nenhuma de nada e era ainda abusado porque pensava que a "Funap fosse mais do que era". Nunca duvidei, palavras ao vento voam. Também não gosto de intrigas e nem de fuxico, mas, sei como funcionam as coisas nesse tipo de ambiente em que a convivência forçada é temperada pela desconfiança e hostilidades mutuas. Ele pensava que era respeitado porque intimidava mas, não tinha dignidade pra merecer respeito, sequer dos seus companheiros de trabalho, ao contrario, era digno de pena e detestado. É o tipo que todos sabem como terminam seus dias – assassinado, viciado, louco, suicida. Uma vez fiquei na sala dos AEVPs vendo futebol. Depois fiquei algumas horas conversando e fui me deitar na madrugada. O sujeito teve que levantar pra abrir o portão pra eu passar. Dormia, levantou-se injuriado e de cuecas. De fato, funcionário qualificado, preparado, digno. Um "servidor" na acepção estrita da palavra. Em uma rebelião é o primeiro a morrer - e só de cuecas. 

Esse preso uma vez fez "uma presença" pra mim. Jogou um pó na minha mão. Falou que era só "uma presença" de camaradagem porque eu era "um cara firmeza e humilde." Senti-me na obrigação de retribuir e levei um de Sampa pra ele. Endoidou: queria me pagar pra eu levar mais pra ele. Recusei, enrolei e disse não. Ele falou que lá na cidade não tinha daquela qualidade. Precisou tomar até Diazepan pra dormir. Falei que estava retribuindo – e sei que no fundo ele fez isso pra me testar. Testou e minha credibilidade aumentou – viu que eu não era só mais um figurão excêntrico e falastrão, tampouco um cínico e corrupto. Nessa época vi e ouvi sobre o uso de drogas por presos e funcionários. Vi até um contraventor - banqueiro do jogo do bicho - fazer churrasco, ser recebido com escolta da comunidade e fogos na saída, sendo acompanhado e abraçado por funcionários – tipo um Don Corleone. Por sinal os mesmos funcionários que espancavam nóias e ladrões de supermercado e bicicleta.

Eu nunca me envolvi com nada porque sei da importância e acredito no meu trabalho – educação. Sobretudo porque acredito que mais do que o discurso, minha pratica deveria ser diferente da dos demais agentes do sistema. Nesse sentido, penso que a base dessas relações pautou-se pela confiança e respeito mútuos, coisa que não existe entre os que vivem nesse mundo. De qualquer forma sei que isso os fez refletir sobre as pessoas e a condição deles e do sistema, porque, embora eu disponha de mais recursos para isso, esse processo é uma via de mão dupla. Não sou ingênuo, mas não julgo, fiz o meu trabalho de buscar recuperar – a dignidade, o respeito, a autoestima, o senso crítico, a esperança – até enquanto pude e acreditei ser possível, apesar das condições. Aprendi que os caminhos são muitos, tantos quanto à complexidade da espécie humana e as suas relações  bem como que o maniqueísmo serve apenas aos acomodados e autoritários. Sei também que se um dia encontrar com qualquer um deles também não tenho o que temer.

A pedra


Os caminhos sempre são difíceis;
Percorremos em busca de que?
Importa quem caminha ou o caminho?
E as pedras?
Tudo passa pelo caminho e nada importa às pedras.
Eu sou um errante pelos caminhos;
E as pedras estão para o caminho como o homem para a vida.
Um fortuito infeliz capricho?
Indefinido, insensível, indiferente, indizível.
O caminho é um erro e eu sou um desvio.
A pedra que para, que atrapalha, que derruba, que apoia, que assenta.
O caminho segue.
E a pedra nos contempla diante dele.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Heróis


Brecht disse que “feliz é o povo que não tem heróis.” Ouso dizer: infeliz é o povo que não tem memória. A historia de um país sobrevive na memória do povo. A construção da sua identidade e do seu futuro dependem da sua capacidade de preservar e refletir sobre a sua historia. A historia, como todo o conhecimento é uma construção coletiva, um processo social. Ela é construída pelos sujeitos inseridos na sociedade e na vida publica com o objetivo de criar identidades coletivas – subjetividades -, fortalecer os vínculos entre as comunidades distintas no interior de um mesmo território por meio de valores e ideais comuns. Nesse processo, busca-se preservar e valorizar determinados acontecimentos, fatos e indivíduos de modo a determinar as qualidades e as características de um povo, procedendo a um ordenamento cronológico disso tudo. Desse modo, procede-se o registro cultural, político, econômico, moral, lingüístico, entre outros, dos acontecimentos e o papel de determinados indivíduos que se destacaram em diversas áreas da produção e transformação social.
Todos os registros sempre são arbitrários. Envolvem interesses e valores. Destaca-se ou se omitem acontecimentos, fatos ou pessoas conforme as conveniências e as circunstâncias. Manipula-se a verdade. Pode-se dessa maneira adequar, fabricar e moldar subjetividades e/ou características tanto do ponto de vista interno quanto do externo. Todos os povos e/ou nações fazem isso. Desde a mais remota antiguidade até os dias de hoje. A diferença é que hoje mais pessoas têm acesso à informação e podem produzi-la, independentemente dos interesses e redatores oficiais. Desde a época dos papiros no Egito antigo que os registros reservam-se aos poderosos e as elites, bem como o poder e o seu exercício. Aliás, o poder não pode prescindir do controle e registro porque nisso consiste a sua legitimidade e essa é a sua vocação.
O Brasil é um país jovem. Do ponto de vista formal, existe há menos de 200 anos. Emancipou-se de Portugal em 1822, até então como não era um país não precisava de historia. Por outro lado, foram necessárias algumas décadas até que se percebesse a sua importância para a construção da nação. Um determinado espaço geográfico é um país, o seu povo com as suas características e historia é uma nação.
O Brasil foi atropelado pelo tempo. Quando D. Pedro II começou a construir a historia do país de modo a criar a nação brasileira veio a Republica, com outras idéias e ideais. A historia oficial que temos hoje foi construída pela Republica oligárquica elitista. As elites ilustradas liberais e positivistas da época - políticas, econômicas e intelectuais - encarregaram-se de reescrever a historia nacional, continuando a obra iniciada durante o Império, conforme as circunstâncias e os seus interesses e valores.
Desnecessário dizer que essa elite ilustrada concentrava o poder político-econômico na sociedade. Faoro e Holanda destacam que se caracterizavam pela indolência intelectual, pelo desprezo ao trabalho e regras universais e impessoais, pela falta de originalidade e o mau gosto. Gente assim, a semelhança de um “José Dias” é que escreveu a nossa historia. A historia da Casa Grande dos patrícios, coronéis, senhores, patrões, antes europeizados hoje americanizados, os “bons burgueses”, conforme diria Mario de Andrade. Nenhuma novidade, eles ainda continuam na sua cruzada civilizadora e reescrevendo a nossa historia, conforme os seus valores e interesses adaptados aos novos tempos da cartilha hipócrita politicamente correta, em que tudo se concede e nada se transforma do ponto de vista estrutural. Donos do poder, do Estado, da terra, do capital e da intelligentsia. O Estado desenvolvimentista procede a cooptação paternalista dos setores sociais, sendo mais ou menos valorizados como bases de sustentação governamental em troca do assistencialismo clientelista e da cidadania tutelada. O fim da política se anuncia pelo debate que se desenvolve em torno de demandas e interesses de grupos organizados de pressão em detrimento das questões ideológicas e/ou nacionais. É o Estado prestador de serviços, zelador e a política como mera canalizadora de diferenças e/ou direitos como se fosse possível sem transformar a ordem estabelecida e o status quo extinguir as desigualdades e o conflito latente na sociedade. É demasiado cinismo ou ignorância supor que esse moribundo modelo de produção e organização da sociedade possa aceitar a todos e que todos possamos desfrutar das benesses da burguesia; nem se tivéssemos cinco planetas Terra a disposição!
Os heróis fabricados pela elite do passado permanecem os mesmos, acrescidos de outros adequados a cartilha politicamente correta, porem pouco representativos ou identificados com a imensa maioria da sociedade. Mais como compensação e/ou resposta as demandas de grupos organizados de pressão ou setores sociais, no sentido de elevar a auto-estima dos mesmos, construir e fortalecer identidades coletivas. A ausência de políticas efetivas e transformações profundas ou rupturas, oferecem-se cargos, cotas, compensações pecuniárias, mártires e/ou datas comemorativas. Afinal, comemora-se o quê? A ascensão a classe C, óbvio! Não creio que aqueles que tombaram tivessem se batido para que seus descendentes pudessem entrar na Casa Grande com a benevolência das elites, ter acesso a telefones celulares, transferência de renda ou representantes no parlamento para defender seus interesses privados ou corporativos. Enfim, por tão pouco!
Brecht tinha razão, os verdadeiros heróis estão nas ruas trabalham, lutam e sofrem. São explorados, ignorados, abandonados. Não tem representantes ou defensores, não são minorias por isso não tem quem os represente ou defenda. Tem leis e direitos que desconhecem tanto quanto são ignorados e elas desprezadas; quanto a isso lava-se as mãos. Os heróis do povo não tem historia ou memória, sabe-se apenas que lutam pelas grandes causas, as causas do povo, as causas coletivas, não jogam para a platéia e nem barganham migalhas: Betinho, Chico Mendes, Marighela, Prestes, Apolônio, Astrojildo, João Candido, Luis Gama, Lima Barreto, Graciliano, Anysio Teixeira, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Glauber, Flordelis. Não consta que calculassem, acumulassem ou ostentassem. Nenhum desses hipócritas paladinos dos Direitos Humanos que atualmente freqüentam os altos escalões e gabinetes salvaram ou fizeram tanto pelas crianças quanto Flordelis. Ao contrario, conforme ignorem por conveniência ou desprezo essa realidade, decretam a sua sentença de morte por meio da omissão ou do cinismo politicamente correto pedante e inútil. Matam em cumplicidade e de braços cruzados, em silencio e com a consciência tranqüila.

Direitos humanos e civilidade


Brasil hoje. Latifúndio e devastação ambiental com correntes e tratores. Defesa do meio ambiente e assassinato de ambientalistas e educadores. Onze anos depois jornalista assassino confesso é preso – especialistas afirmam que não passará dois anos preso. Policiais que assassinaram “por engano” menino no Rio de Janeiro são inocentados – o carro em que estava recebeu 17 disparos. Homicídios no transito, maus tratos diversos contra seres humanos e animais, crimes ambientais, corrupção, improbidade administrativa, enriquecimento e favorecimento ilícitos, trafico de influencia, fraudes diversas, desvios de conduta e recursos são impunes. Analfabetismo funcional, sucateamento da saúde, educação e segurança publicas. Tudo isso 23 anos após a Carta Cidadã, após 21 anos de ECA, entre outras incontáveis leis e estatutos. Entre incontáveis estudos, comissões, instituições e o incontestável fortalecimento e incremento do Judiciário. Fecha-se os olhos diante desse quadro e buscam-se acessórios, de modo a melhorar a imagem do país por meio de perfumarias, como por exemplo, uma cartilha contra a homofobia nas escolas a despeito da falência da educação publica - antes as consequências que a causa?! Parlamentares que ignoram essa situação e proclamam-se os defensores dos direitos humanos barganham prestigio e status em seu nome. Produzem cruzadas e polêmicas moralizantes. Insultam nossa inteligência e bom senso, achincalham a política, jogam para a platéia. Silenciando sobre os impactos moralizantes na sociedade daqueles que multiplicam por 20 seu patrimônio em 4 anos. Porque a noção de direitos humanos que se tem no Brasil ainda é restrita e limitada. Porque as minorias e os interesses individuais devem ter primazia sobre as diversas mazelas e misérias humanas e sociais que grassam e envergonham o Brasil. Nada contra o amor, demonstrações de afeto, sexualidade, promiscuidades ou putarias, ao contrário! Que o tempo das crianças, porem, ao menos seja preservado. Que a realidade e o bom senso prevaleçam sobre os desejos e os caprichos. Eis o nível de civilidade que estamos e chegamos no século XXI. As vitimas as lágrimas e o nosso compromisso com a memoria e a luta.

domingo, 22 de maio de 2011

Protestos, juventude e política


Nas ultimas semanas tivemos dois relevantes exemplos de mobilização da classe media em São Paulo. Por mais que se apreciem tais iniciativas, sobretudo a mídia e os mais ingênuos ou oportunistas, a verdade é que ambos nada dizem a imensa maioria da população paulista, a despeito da sua importância. Descontando-se a ambição em provocar o debate importante sobre  transporte publico e mobilidade urbana, o “Churrasco da Gente Diferenciada” não foi nada além de uma gozação em forma de protesto contra o preconceito da elite e o governo elitista. Claro está que tudo não passou de uma brincadeira com o objetivo de provocar um fato midiático e ridicularizar as elites e o governo. Tolice inútil porque não afeta a elite e nem o governo, tampouco colabora para o debate em torno da questão do transporte publico. A elite é essencialmente burra, preconceituosa e pedante e expor as suas idiossincrasias fortalece-a e os une ainda mais! Relevante é considerar ainda que tal manifestação fosse organizada pelas redes sociais Twitter e Facebook e isso já diz muito sobre quem organizou esse evento. Será que a maioria dos trabalhadores populares daquela região – porteiros, faxineiros, empregados domésticos – se utilizam de qualquer uma delas? Será que os jovens de classe média também estejam agora preocupados com o transporte publico e a classe trabalhadora e pobre? O fato é que quem organizou, depois pegou seu automóvel e voltou para casa com a consciência tranquila por haver cumprido com a sua “obrigação cívica de cidadania”, ignorando as represálias que recairão sobre os empregados que precisam conviver cotidianamente com essa odiosa elite! Enfim, travessuras da jovem burguesia engajada e inconsequente! Os que estavam lá não se pareciam com os que se amontoam nos ônibus e trens da cidade. 
Essa mesma juventude engajada, ou pelo menos a maioria esteve também agora no dia 21/05 na Paulista na Marcha da Maconha. Aos eu 17 anos marchei nessa mesma Paulista no Fora Collor - sem entrar no mérito da manipulação midiática e na questão Lulla/Collor. Depois marchei na Luz contra as paradas militares do 7 de setembro. Marchei pela educação na Republica e contra as privatizações na Sé entre 99 e 2001. Duas coisas me chamaram bastante atenção nessas duas manifestações: a irrelevante presença de negros e os locais escolhidos. Sem duvidas, no caso de Higienópolis não poderia ser outro o local, sobretudo, quando explicitou-se de saída o objetivo de apenas ridicularizar a elite daquele bairro. O caso da Paulista se explica pela tradição e visibilidade do local – novamente causar um fato midiático -, por outro lado, não se deve descartar a acessibilidade, simpatia e familiaridade dos manifestantes pelo local. Será que a ausência dos negros em ambas as manifestações se deve ao fato deles serem menos politizados, engajados ou alheios e alienados as "grandes causas" da sociedade? Até parece!
Evidente que se trata de questão de classe! Primeiro que a imensa maioria da população e usuária dessas duas drogas – maconha e transporte publico – são pobres, portanto, não tem acesso as regiões em que elas aconteceram e nem as ditas “redes sociais.” Segundo que quem tem acesso, por motivos óbvios prefere não se expor – sabe que o chicote estala sempre é no lombo do preto, pobre e favelado! - e recolher-se ao seu merecido descanso no aconchego do lar, sobretudo, ainda para poupar os 6 ou 12 reais que gastaria no transporte para isso. No mais, afinal de contas para quê? Para ver a jovem pequena burguesia engajada tirar onda com as madames de Higienópolis? Ou para que eles possam fumar o seu baseadinho avonts na "facu" ou na "Madá"? Marchar nas quebradas ou morros ninguém quer! Por que ninguém marcha também contra o extermínio dos jovens negros ou contra a violência doméstica – mulheres e crianças? A verdade é que as motivações da jovem burguesia engajada dizem respeito ao seu caráter individualista. Enfim, as chacinas que acontecem cotidianamente nos lares e ruas das periferias e o péssimo transporte publico estão longe demais da “realidade” dessa juventude engajada! Como a saúde, escolas, segurança, habitação publicas, entre outros direitos e demandas sociais. São tragédias, fatalidades, miséria, casos de polícia ou de assistência social, nada a ver, portanto, com os nossos bons e conscientes estudantes marchadores em questão! Para finalizar, a grande mídia agradece a demonstração de consciência e engajamento! Se a intenção foi provocar conseguiram: gargalhadas, desprezo, pena, preconceitos e raiva. Desqualificaram e esvaziaram o conteúdo político e/ou técnico das questões, oferecendo maiores argumentos e justificativas aos autoritários e reacionários. Depois ainda “choram” que “o jovem no Brasil nunca é levado a sério.” Assim fica difícil....

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Alegorias sinistras


O cenário é desolador. Em 28 anos a taxa de mortes violentas entre os jovens brasileiros saltou 76% entre 1980 e 2008, segundo dados do Mapa da Violência 2011 – Os Jovens do Brasil. Para todos os efeitos, considera-se jovem o indivíduo situado entre 15 e 24 anos. Do ponto de vista da amostra, que é cientificamente justificada, os dados levantados colocam ainda maiores questionamentos e permitem a formulação de hipóteses. Considerando que idade biológica e cultural não tem correlação direta, conforme a dinâmica das unidades familiares modifique-se, muitos indivíduos solteiros situados entre os 25 e 35 anos do ponto de vista social são ainda considerados jovens. Se os incluísse nessa contagem, teríamos apenas mais mortos, nada mais.

Homens negros com idade entre 15 e 29 anos tem uma mortalidade maior que os brancos na mesma faixa etária. Estudo mostra que entre 2001 e 2007 os homicídios foram os responsáveis por 50% dessas mortes - IPEA. Em 2008 morreram 103% mais negros do que brancos. O aumento das mortes decorrentes de acidentes de transito cresce na mesma proporção vertiginosa que a frota de veículos. As mortes de motociclistas, por exemplo, aumentaram 754% em dez anos – 98/08.

O crime organizado expandiu-se e houve um incremento das suas atividades, as facções espalharam-se dentro e fora dos presídios, o trafico e o consumo de drogas ilícitas e licitas é célere – o consumo de crack é epidêmico. O numero de armas de fogo ilegais é incalculável e incontrolável. As mortes decorrentes de confrontos entre as forças de segurança e os criminosos são dignas de uma verdadeira guerra civil. Em 20 anos de vigência do Estatuto da Criança e do Adolescente multiplicaram-se vertiginosamente as ocorrências de maus tratos, abandono, violências e mortes de crianças e adolescentes. Que dizem essas informações e/ou números? No contexto da democracia e da globalização, no que diz respeito às relações exteriores, ratificaram-se todos os tratados e recomendações dos organismos internacionais! Do ponto de vista interno e em decorrência desse processo, estabeleceram-se novos arranjos jurídico-institucionais. Como é possível então, a despeito de todos esses avanços civilizatórios, vivermos esse holocausto cotidiano?

Atrevo-me a fazer alguns apontamentos apenas a titulo de sugerir hipóteses que suscitem outros tantos questionamentos, de modo a propor uma reflexão para além dos espaços acadêmicos restritos aos especialistas e políticos. Porque falamos de mortos e não de números ou teorias. As tragédias merecem mais do que estudos técnicos e propostas a arbitrárias. Essa "onda" de violência não pode ser apreendida fora do contexto democrático e da globalização, porem, ambos os processos estão estreitamente ligados. Trata-se de determinações econômicas e políticas estabelecidas no âmbito global e no qual o Brasil se insere a margem. Resultantes do fim da Guerra Fria, Consenso de Washington e Hegemonia Americana, produtos ideológicos que estabeleceram novos arranjos produtivos e modelos de organização do Estado e da sociedade. Na verdade, nenhuma novidade, apenas a fênix capitalista renascendo mais sedutora, voraz e sinistra. Arrastando atrás de si a mesma infame leva de moribundos e misérias. Porem agora, como a fênix, ressurge com aparência renovada, adequada ao novo contexto de paz, estabilidade e bonança.

Esse novo contexto redefiniu não só as relações entre as nações, mas também entre Estado e sociedade. Redefiniu as relações entre capital e trabalho, entre as empresas e as nações, entre o homem e a natureza. Evidente que essas questões não são recentes, nas nações europeias estão dadas desde o século 19, no entanto, nesse atual contexto são credoras do capital global. É relevante que esse novo tipo de capital impõe essas mudanças de modo que se estabeleçam as condições necessárias para a sua livre circulação, independentemente dos interesses nacionais de qualquer espécie – sejam eles regionais, legais, econômicos, políticos, religiosos, ambientais ou socioculturais.

Algumas questões perecem contraditórias e mesmo mal colocadas. Como é possível essa liberalização do capital global no contexto democrático de amplas liberdades, garantias institucionais, incremento do Estado, expansão de direitos e da sociedade civil? As estratégias do capital vão além das suposições da nossa vã sociologia. Passa como nos ensinou Gramsci, pela formação e cooptação de sólidas bases de apoio junto à sociedade civil e pela apropriação do aparelho do Estado. Nessa estratégia as bases de formação passam necessariamente pelas instituições (de) formadoras dos quadros para manutenção e reprodução desse sistema. Por aí passam as elites intelectuais e técnicas e outros quadros dos movimentos sociais, aí incluídos o terceiro setor, os partidos e sindicatos. A expansão do incremento do Estado corresponde o seu encolhimento em setores estratégicos para a livre circulação e o exercício da exploração e acumulação capitalista. O setor privilegiado desse sistema é o capital financeiro, aquele que menos depende da infraestrutura e do trabalho. Para ele bastam o afastamento do Estado, a regulação frouxa e alguma estabilidade econômica e política.

Para completar esse quadro, a intelligentsia cooptada pelo capital global ou a ele aliada por convicção - "parceiros" - constrói a base ideológica que se sobrepõe a realidade. Nesse sentido, cumpre o papel de amenizar ou suavizar as contradições e antagonismos, contrabalançar os efeitos perversos desse estado de coisas. Prolífica, produz incontáveis leis, normas, estatutos, estudos, pesquisas, planos, projetos, instituições, congressos, conferencias para se contrapor a realidade, como se fosse possível transformá-la sem modificar esse sistema! Trata-se de mero exercício de semântica, enfeites de retórica, tautologia, perfumaria, cosméticos e bijuterias para enfeitar um cadáver. Zelosos no discurso seguem firmes na impotência, convictos na resignação, céleres na inércia, corajosos na apatia. Sofistas, esmeram-se na manipulação; inventam métodos, metodologias, técnicas, teorias e conceitos infalíveis para transformar a realidade, sobretudo, aquela que eles não vivem ou ignoram. Assim, usam e abusam dos eufemismos, paladinos do discurso politicamente correto, canalizam e diluem os conflitos, esvaziando o conteúdo ideológico do debate político na sociedade. Fazem o jogo da burguesia por ignorância ou conveniências, não passam de demagogos e/ou necromaquiadores.

Para finalizar, restam as seguintes questões: Para quem falam os especialistas? Quem pode ouvir o que eles dizem e qual a sua relevância objetiva do ponto de vista pratico, concreto para a sociedade? Para quem falam os movimentos sociais? Qual a relevância deles para o desenvolvimento da cidadania na sociedade e a maior participação política das camadas populares? E os partidos políticos, quem eles representam? Qual a contribuição da classe política na transformação da sociedade, a despeito das prerrogativas constitucionais que estabelece a participação popular como requisito indispensável a cidadania? Nesse quadro de extermínio cotidiano em massa, a morte é mera consequência e a cidadania alegoria sinistra. Demonstrações de solidariedade humana são singelas demais para criaturas tão elevadas.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Dos amigos


Dialogo entre John Roselli e Sam Giancana:
Roselli: Sam, esse é um “amigo meu.” Tem muito interesse em participar dos nossos negócios em Cuba.
Giancana: O senhor foi muito bem recomendado por um “amigo nosso.” Sua reputação o precede.
Sam Giancana foi o sucessor de Accardo e Nitti na Máfia de Chicago, um dos grandes chefões do crime organizado norte-americano do século passado. Supõe-se que esteja envolvido no assassinato de John e Bob Kennedy. Tinha também ligações com dissidentes cubanos e negócios na Ilha a época de Fulgêncio Batista. De acordo com relatórios da CIA, desde 1960 estava envolvido em conspirações da Máfia e da Agência para assassinar Fidel Castro. Era também amigo de figurões de Hollywood, como Frank Sinatra e Marylin Monroe, sendo suspeito de encomendar a morte dela. Dizem que a cena do filme O Poderoso Chefão, em que Don Corleone pede um favor para seu afilhado Johnny Fontaine a um figurão de Hollywood teria sido inspirada em uma historia dele com Sinatra, quando este começou sua carreira solo. 
Roselli começou sua carreira na máfia nos anos 20, ao lado de Capone, Nitti e Jack Dragna. Foi colaborador da CIA nas conspirações para assassinar cubanos e na invasão da Baia do Porcos. Supõe-se que também estivesse envolvido no assassinato de Kennedy, de acordo com relatórios da CIA, FBI e Pentágono. 
O agente da CIA Robert Maheu declarou em diversas comissões do Senado Americano haver recrutado para a Agência os serviços de Giancana, Roselli, Carlos Marcello e Santo Trafficante, chefão da Máfia de Miami. Enfim, não restam duvidas, conforme inúmeras declarações e documentos da ligação Máfia e CIA nas diversas conspirações para apear Fidel do poder em Cuba e assassiná-lo. Em meados da década de 70, quando o cerco fechou-se sobre eles, Trafficante, o único em liberdade cuidou de silenciar os antigos companheiros para o beneficio de todos. Gincana foi fuzilado em casa, com sete tiros na cabeça e no rosto, Roselli foi encontrado fuzilado e estrangulado em um barril boiando na baia de Miami. 
Em Brasília, o Ministro Antonio Palocci (PT) é defendido pelo vice Presidente Michel Temer (PMDB) após ter revelada, pelo jornal Folha de São Paulo, elevação patrimonial em mais de vinte vezes em apenas cinco anos. No que diz respeito a noticias sobre a relação enriquecimento célere e política no Brasil, nenhuma novidade. Esse mesmo senhor esteve envolvido antes em escândalos muito piores – prostituição de luxo, corrupção, tráfico de influencia, favorecimento ilícito, quebra de sigilo bancário. Por outro lado, ser defendido por esse outro senhor, que foi Secretário de Segurança paulista a época do Fleury, que anteriormente bateu-se por Renan Calheiros, Jader Barbalho e José Sarney já deveria ser considerado dúbia réus sentit. Palocci declarou que procedeu o milagre da gigantesca evolução patrimonial prestando serviços como “consultor.”A defesa de Temer a Palocci, por sua vez, poder-se-ia reduzir a sentença: “amigo nosso.” 
Dialogo do ex ministro e ex deputado (PT) José Dirceu com um empresário qualquer: “Pode deixar, vou ligar para o Ministro. Vou dizer que você é “amigo meu.” Após sair da cena política – não dos bastidores - esse outro senhor tornou-se “consultor.” Em comum com estes distintos “consultores” compartilham do oficio os senhores Thomas Bastos, Greenhalg - dito LEG -, Delúbio Soares, Silvio Pereira entre outros. Dirceu, Bastos e LEG são também advogados. Temer também é. Os advogados são como consultores, o sucesso da defesa depende não só do saber jurídico, mas, de boas relações pessoais nos meios jurídicos. Da mesma forma que contratar um “consultor” ex-ministro ou parlamentar também não atrapalha ter um advogado com a mesma procedência, sobretudo quando se sabe das suas relações e transito nas altas cortes. No Brasil, evidente que o sucesso dessas “consultorias” em contratos públicos e licitações, bem como absolvições e habeas corpus concedidos dependem exclusivamente do notório saber e expertise dos referidos “consultores”. Como aqueles também não fazem distinção de espécie alguma quanto aos clientes, afinal, pra todos os efeitos pode-se apelar para a presunção de inocência, ausência de condenações - como o companheiro Maluf  faz - e incontáveis filigranas jurídicas ambíguas e de caráter duvidoso. No limite, pode-se apelar até para teorias da conspiração, perseguição política, intrigas da oposição, golpismos, espernear e clamar em nome da defesa da democracia apelando para prerrogativas - ou privilégios? - que são exatamente incompatíveis com ela! Antes essa democracia não estava ameaçada? Nenhuma novidade: os amigos são sempre leais e compartilham até os mesmos surrados "argumentos" para se defenderem. Impressiona como essa nova "intelligentsia" aprende rápido - Florestan já anunciava a transformação em "partido da ordem".
Evidente que a utilização de recursos tecnológicos em qualquer empreitada também pode fazer a diferença. Nesses casos é impressionante o que um aparelho de celular com os números certos pode fazer! Descobriu-se que o senhor ex-Ministro Palocci é dono de um apartamento de cerca de 500 m2 em São Paulo no valor de 7 milhões de dólares. O senhor José Dirceu voou de Juiz de Fora em Minas Gerais há poucos anos como “consultor” até a Venezuela em jatinho particular alugado exclusivamente para isso. Não se tem noticias de que Prestes,Florestan ou mesmo Brizola viajassem em fretados - helicópteros, aviões, lanchas, carros. Desconfio que se estivessem aqui hoje também não seriam consultores. Greenhalg representa o banqueiro mafioso Daniel Dantas e Thomas Bastos o estuprador de mais de 200 mulheres e procurado pela Interpol Abdelmassih. Enfim, com exceção de Bastos, todos os demais são políticos com longa tradição de militância na esquerda do país e quadros históricos do PT. Hoje são empresários, consultores, íntegros homens de negócios, enfim, burgueses capitalistas em busca do lucro como qualquer outro. 
Tal esquerda no que diz respeito aos seus hábitos, gostos, vícios, práticas e valores, assemelha-se em tudo a burguesia, exatamente aquilo que antes repudiavam e desprezavam. Sem nenhum pudor mantém o discurso, embora suas práticas, gostos e patrimônio demonstrem o exato oposto! Não existe contradição para esses senhores em ostentar patrimônio milionário, hábitos burgueses, práticas clientelistas e populistas e discurso de esquerda - rebaixando e desqualificando as suas organizações, lutas e tradição. No escritório político pôster do Che na parede, na sala de casa Baccarat e Swarovski. No closet da nova elite do poder Ricardo Almeida e Ermenegildo Zegna. Oras, por que a classe operária não pode ir ao paraíso? Afinal, não foi para isso que se bateram contra a ditadura? Para desfrutarem do poder e compartilharem dos padrões, hábitos,  práticas e valores da burguesia? Contradições, dialética, luta de classes, ideologia, coerência entre o discurso e a práxis, conforme ensinou o mais novo Doutor Honoris Causa da esquerda: bravatas! A luta contra a ditadura servirá ad infinitum como atestado de ilibada idoneidade moral, dispensando-se da ética e coerência ideológica - pra debaixo do tapete com a sujeira. Lutaram pela democracia para reivindicarem o direito de usufruírem dela a despeito de enfraquecerem-na e o conteúdo ideológico inerente a política. Para locupletarem-se e perpetuarem-se no poder e em nome da ética, do socialismo, da justiça social e da democracia aliam-se a adversários e inimigos históricos, tanto da esquerda quanto do povo e da democracia. Como se a demagogia, o desenvolvimentismo e o populismo pudessem redimir a ética, a ideologia e a historia. A diferença entre “amigo nosso” e “amigo meu” parece sutil, porem, para efeitos práticos daqueles que ocupam posições na esfera política ou de Estado e/ou tem negócios e interesses ligados a eles compreendem bem o seu sentido e importância. Conforme ensinam os que apreciam uma boa amizade, a diferença entre “amigo nosso” e “amigo meu” é pertencer a família e/ou grupo ou estar ligado a ela por circunstâncias e/ou interesses. Nada a ver, portanto, com afeto e muito menos com virtude.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Marcas


A hora é de silêncio. Silêncio aos pensamentos, as palavras. A hora grave exige silêncio. Não as explicações, razões, reflexões, confissões. A paixão é uma luta entre Deus e o Diabo - pelo paraíso ou o inferno? Que nos cabe, pobres mortais e ignorantes, que nada sabemos sobre amar, senão algo vago, limitado e egoísta, um soberba pretensão sobre a vastidão dessas infinitas distancias?! Quem ama mais, ama menos. Quem pensa que ama, duvida. Quem ama não sabe o que é amar, nem o que ama ou porque ama, disse um poeta. Os poetas também não sabem nada de amor, sabem apenas sobre cartas de amor ridículas, disse o poeta. O amor nada sabe sobre as suas razoes, isso penso eu. Ele é como a criança, penso eu, puro, inocente, egoísta, indecente, verdadeiro nas suas imperfeições e fantasias. Permitam-me os Deuses ser como as crianças e os poetas sempre, um ou outro, verdadeiramente disposto a enfrentar os maiores moinhos de vento a favor de um sonho, ideal, desejo, fantasia. Puros, capaz de escrever as cartas mais ridículas e cometer as maiores insensatez! Ao final ridículo é quem nunca amou, pensou sobre o amor. Ridículo é quem nunca escreveu cartas de amor ridículas, disse o poeta. Quão medíocre é o calculo, com as suas certezas e previsibilidades infalíveis!!! O inferno deve ser para os fortes, isso digo eu, o paraíso é uma recompensa, todas as religiões sabem! O paraíso é o gozo, o prazer, a zona de conforto, ilusão, alheamento, coisa de mesquinhos! O inferno é a recompensa dos fortes! Elogio ao cinismo, ironia para raciocínios toscos e mentes simplórias! Argumento dos que não tem argumento frente ao desconhecido – eu não! Ninguém nunca voltou do inferno. Eu já estive na presença do diabo e muitas vezes ele foi a minha única companhia. Deus você precisa chamar, ele não. Ele vem e espreita, se instala ao seu lado e fica barganhando contigo. Te faz rir, te dá prazer, alheamento. Deus é mais difícil, exigente. Eu só quero algo mais simples, não quero nem o paraíso ou o inferno. Deve haver a vida simples, sem limbo ou purgatório. Jesus veio ao mundo e amou todos e por isso ninguém. Não sou Jesus, ele que me perdoe. Quem não é capaz de amar alguém quase sempre ama todos. Não...meu amor não é assim tão grande. Sou apenas um homem de verdade, os heróis é que usam disfarces... . Consta que na hora grave Jesus esteve em silêncio e isso é grandeza. A razão é sempre limitada, a confissão ingênua, a emoção irracional. Isso é o pensamento. Não minha filha, o melhor é olhar as coisas e percebê-las, senti-las, o desperdício de vida é o maior de todos os erros. Porque o mal não entra pela boca, porque o mal é o que sai da boca. Eclesiastes ou Provérbios, foi o álcool quem me ensinou. Freud explicou sobre a relação inconsciente e ato falho, este é o reflexo daquele, em que se inscreve no bronze a verdade dos desejos que a consciência camufla de vergonha ou raiva. O homem já não é mais senhor em sua própria casa! Não, nada disso nos diz nada, filhinha, a verdade é só aquilo que fazemos dela, vivemos e é essa a única razão da vida, viver! Seja no paraíso, no purgatório ou no inferno. Isso é o que nos fará algo mais dignos, medíocres, fortes, fracos, felizes, infelizes, tolos, iludidos. Digo porem que sejamos quentes ou frios, sempre! Recobra o fervor, regozija-te de tua juventude e do frescor da vida, orgulha-te das marcas que a vida lhe causar, porque só os medíocres passam incólumes por ela.

domingo, 8 de maio de 2011

O jardim


Pensar em nada
é ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida. (Ricardo Reis)


Eu ainda vou cuidar de um jardim. Um pequeno jardim, bem modesto, com alguma variedade de plantas, sobretudo flores. Um jardim do éden em escala infinitamente menor, porem ainda um paraíso. Nele espero receber beija-flores, bem-te-vis, pardais, borboletas, entre outras criaturas. Cuidar é algo que nunca me ocorreu. Na verdade, sempre fui servido, porem muito mal cuidado. Compreendo melhor essa diferença hoje. Isso, talvez, explique minha negligencia anterior, sobretudo, comigo mesmo no que diz respeito a cuidados. 

O jardim é a vida em estado bruto. Vida frágil, simples, pura. Ainda assim é infinitamente superior, perfeita. A vida que brota do jardim transborda, de tão perfeita extrapola. Ela contamina, expande-se, latente. Dispensa maiores cuidados, se auto-governa. Coisa superior, um tipo de ordem que dispensa autoridade. Inconcebível para a vã racionalidade humana. O jardim é o paraíso da vida. Ele sustenta a vida. 

A natureza se oferece de modo sutil. Não que ela seja indiferente por se oferecer ao mundo, apenas os mais atentos podem contemplá-la, embora esteja exposta. A natureza é discreta. Exige paciência, delicadeza, sensibilidade, argúcia. A vaidade é a irmã siamesa da razão. Dizem que a vaidade é cega. A razão é a cegueira da alma. A vaidade é a cegueira do mundo. Elas se complementam coroando a escuridão. 

Neruda preferia o mar, Pessoa as rosas. Prefiro o jardim. Voltaire sonhava com um. Ele confia sua mensagem silenciosa ao vento, ele viaja com o ar e os pássaros que beijam as suas flores. Ele acaricia as musas com a brisa e penetra as almas pelos olhos que encanta. É como o coração puro, sem medo ou maldade, tudo dá porque tudo tem e nada lhe falta, transborda. Apenas segue a ordem natural e é perfeito, puro, imprescindível, indispensável. E assim é livre porque como a liberdade também não se justifica, dispensa razões para existir. Porque o vejo não penso, dispenso. Pensar em viver é não viver. “Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos...” (Fernando Pessoa)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O avesso da crítica


“Um espectro ronda” o Brasil: a esquerda indolente, reformista e conciliatória. Os cínicos, oportunistas, covardes ou tolos convenientemente prestam um favor à ordem estabelecida e a si mesmos! Trata-se da hegemonia centro-esquerda - aliada a direita - e a burguesia engajada! Historicamente a burguesia é a classe revolucionária - cuja superação cabe ao proletariado. Todavia, não pode haver engano, sua luta não tem sido outra senão pelo poder e a manutenção do seu exercício e status quo. No Brasil, desde a época dos Tenentes que a classe operária, salvo honrosas exceções, tem sido seduzida pela burguesia e cooptada pelo Estado. Não são poucos os que se deixam seduzir, cooptar e se deslumbram – já foi dito que “A classe operária vai ao paraíso.” Foi?

Não podemos confundir as alianças da classe operária - estratégicas ou oportunistas - de outros tempos, no entanto, com as recentes, tampouco, rebaixar as suas lutas e bandeiras históricas. A hegemonia centro-esquerda da burguesia engajada é um fenômeno recente, resulta da democratização - Estado burguês de direito - e Globalização. Os "revolucionários" de ontem dissimulam hoje a defesa da "democracia", "governabilidade", "sustentabilidade" - corroboram o fim da história! Filho mimado da geração 68 - pós-modernismo. Coisa indefinida que se situa entre o velho (68) e o novo (02) e que acomodou-se a sua indefinição fazendo dela a sua teoria e práxis. Em nome do poder apela-se deliberadamente até para Maquiavel, rebaixando as suas teses em favor de inconfessáveis projetos pessoais, como se ele fosse o salvador dos cínicos, depravados, oportunistas e pudesse redimir a realidade!

Conforme o seu caráter típico, a burguesia brasileira não destrói, ela compatibiliza o tradicional com o "novo." Seduz, compra e incorpora as novas gerações conforme os seus interesses, valores e procedimentos. Ao receber o impulso de novas forças sociais freia-lhes o ímpeto, de modo a adapta-la as liturgias e mesuras do poder - "governabilidade." Juntam-se peças decrépitas e antagônicas com ideias supostamente de vanguarda, “remendo de pano novo em roupa velha.” O velho e o novo, juntos reinventando a historia de acordo com as conveniências, adaptando-se aos novos tempos e as entranhas do poder.

A expansão da "sociedade civil organizada" - antes em torno de interesses -, como requisito do democratismo nominal se dá nesse contexto e nessas condições. Presta-se ao medíocre papel de apoio, sendo mais ou menos valorizada conforme base de sustentação que assegure ao poder legitimidade ou a adesão das massas. Faz o jogo do poder em troca de prestígio, privilégios, subsídios e recursos. Engana-se quem pensa que se tratam de afinidades ideológicas, meras veleidades! A sociedade civil profissionalizou-se. Submeteu-se docilmente as exigências impostas pelo mercado global – tendências, competitividade, normas técnicas e legais. Perverteu a sua vocação, caráter, funções. Aboliram deliberadamente a política do movimento social e popular em troca do lucro, do assistencialismo clientelista e da cidadania tutelada! A inserção desses grupos se dá por meio da mobilização de interesses e não em torno de propostas políticas. Manipula, não mobiliza, faz o trabalho sujo que antes era da polícia e dos capatazes. Conforme corroboram a demagogia politicamente correta, utiliza-se de eufemismos, apresentando-se como “interlocutores, representantes, defensores dos interesses da sociedade ou do bem comum,” como se fosse mera questão de semântica ou incorporação a ordem! Intermediários, monopolizam os canais de acesso direto ao poder dos extratos populares, canalizam demandas, diluem conflitos, escamoteiam contradições, desmobilizam e esvaziam o conteúdo ideológico do debate político.

A jovem burguesia é hoje a vanguarda do movimento social. Os principais representantes do segmento mais articulado com o poder e organizado em termos de penetração na sociedade e mobilização de recursos financeiros, humanos e técnicos a semelhança das grandes corporações privadas atende pela sigla de ONG. É o chamado Terceiro Setor que hoje constitui expressiva fatia do mercado de trabalho da pequena burguesia incrustada nas vísceras do poder. Os “bons burgueses” de ontem são a burguesia politicamente correta engajada de hoje, parceira da esquerda indolente,  reformista e conciliatória. Nenhuma novidade, a sociedade civil organizada continua classe média como sempre! A classe média, por sua vez, continua a mesma da época áurea da elite ilustrada! Tanto nos gostos e hábitos que a definem quanto no desprezo a crítica e o apreço a superficialidade e falta de originalidade!

No contexto da hegemonia centro-esquerda o funcionamento da lógica é simples, basta que se pronunciem as palavras mágicas e/ou categorias que produz-se efeito encantador, a um só tempo dispensando maiores argumentos inconvenientes,  abonando o discurso e a conduta. Nesse caso, Terceiro Setor e hegemonia estão para Gramsci como trabalho e socialismo para Marx, simples assim - desqualificando e rebaixando as teses e o debate! Apelar para seus conceitos a despeito da teoria e, sobretudo, da práxis contraditória, transformando-os em “chavões” é inerente a cantilena do esquerdismo vulgar e indolente! Assim, a burguesia politicamente correta e engajada joga para platéia, desqualificando e abusando de teorias, conceitos, estratégias e, sobretudo, das causas e lutas da classe trabalhadora. Pratica o estelionato intelectual e político como demonstração de reserva ética. Servem apenas, porem, como meras palavras do repertório subtraído pelo Terceiro Setor cujo significado não tem, paradoxalmente, relação alguma com a prática! São na verdade, antagônicos e incompatíveis!

Reivindica-se de forma leviana até a estratégia política – a tese das “fissuras” - de Gramsci para justificar a indolência e o oportunismo como ação tática! Grosso modo, em Gramsci um bloco hegemônico não é uma construção compacta, resiste às tensões e atritos de outros “blocos” quando medem forças. Esses choques, porem, causam fissuras e espaços por onde se pode incorporar em seu interior elementos que progressivamente podem transformar ou abalar a ordem político-econômica – sociedade política - por meio da cultura – sociedade civil. Simples, não fosse pelo fato que para isso se exigem disciplina intelectual e ética, em outras palavras, elevada coerência entre o discurso e a práxis! Antigamente denominava-se esse tipo de postura por oportunismo, desonestidade intelectual, estelionato político ou ignorância pura simples que quando se exime de má-fé, não reduz o prejuízo! Ao contrario, desqualifica-se a teoria e a ação! Como se fosse possível a incorporação dos hábitos e valores burgueses como subsídios a estratégia de ação, conforme as personagens das tramas dos livros de Malraux! Disfarçam tão bem que esquecem-se de se despir do disfarce! A máscara cola a cara e o gosto pela boa vida burguesa seduz! O apreço pelo poder igualmente corrompe, sobretudo aqueles dados a bravatas, demagogia, perfumaria e a cartilha politicamente correta burguesa! Não se iludam, a luta de classes é uma realidade, o poder e o acesso a ele continuam reservados as elites e a classe media nunca representou ou representarão os interesses populares, Marx e Gramsci não podem redimir os tolos, muito menos os cínicos e oportunistas.

domingo, 1 de maio de 2011

Sedução química

A paixão é quase sempre uma coisa boa. Tudo o que se faz apaixonadamente se faz melhor. A paixão é um estado de espírito que nos leva a buscar o melhor de nós mesmos. Independentemente do objeto para o qual ela se dirige. Enquanto não se sente rejeitado ou fracassado, o apaixonado, embora não tenha realizado a sua paixão, permanece nesse estado.

Do ponto de vista biológico, no entanto, a paixão nada mais é do que uma reação química. Antes mesmo da biologia Platão já descrevia as reações físicas ocasionadas pela paixão – Fedro. A paixão opera substancias em nosso organismo provocando reações químicas capazes de alterar nosso estado físico e emocional. Essas reações alteram nossos órgãos internos e nossa consciência, são capazes de mobilizar nosso inconsciente. O apaixonado sente os efeitos da paixão no estômago, coração, no diafragma, na pele, sistema nervoso e circulatório – pressão arterial, humor, sono, autoestima, etc.

Na antiguidade era considerada um vício, uma fraqueza. Os antigos estão certos. Por isso tudo o apaixonado é um sujeito descontrolado, um escravo, conforme pensavam os estoicos. Ele não tem controle sobre as reações químicas que ocorrem no seu organismo, por mais consciente que esteja delas. É por isso que sob efeito da paixão, pessoas consideradas razoáveis, afetuosas, bondosas e de boa índole e conduta cometem loucuras ou até atrocidades. Isso, porem, não diminui a ofensa ou o crime do ponto de vista legal e/ou moral. Entretanto, a nossa sociedade é a da época da razão, da ciência, do Positivismo, portanto, tende a julgar tudo do ponto de vista dela. Por mais que se tenha conhecimento dessas determinações, a sociedade sempre julga na perspectiva da racionalidade e da moral. Porque todo crime é, sobretudo, um atentado à sociedade.

Essa interrelação entre moral e ciência causa equívocos, desconfortos e oportunismos que ocasionam preconceitos e injustiças. Opõe-se deliberadamente a justiça à medicina, a sociedade ao indivíduo, tendo o Estado por árbitro e executor. Nessas situações esclarece-se pouco e confunde-se muito. O medico parece advogado, o advogado ou promotor médico e a sociedade o juiz. No final, todos quase sempre acabam sentindo-se injustiçados, impotentes, confusos, frustrados. O ser humano é demasiado complexo para se enquadrar nesta ou naquela determinação ou padrão. Os esquemas científicos e jurídicos tendem a estabilidade, a moral também, enquanto que o homem é sempre único em suas condições e circunstâncias.

Quando não se enquadra em nenhum ou quase nenhum é uma aberração, só pode ser excluído ou exterminado! A dependência química é como a paixão, provoca reações no organismo do indivíduo capazes de alterar o estado físico e emocional do sujeito. Desestabiliza o equilíbrio químico natural do organismo, aumentando a produção de determinadas substâncias enquanto consomem outras. Sob efeito de determinadas substâncias capazes de alterar o físico, emocional e a consciência, o sujeito usuário de drogas químicas provoca transformações no seu organismo que escapam do seu controle. Ele deixa de controlar tudo aquilo que antes, conscientemente ou instintivamente a sua natureza se encarregava de manter estável e sob controle. É isso o que os que pretendem lidar com a questão da dependência não entendem ou ignoram, todos eles. Esse talvez seja um dos motivos do fracasso das políticas de enfrentamento e tratamento dessa questão. Por outro lado, é importante considerar que a sociedade é o controle de determinados comportamentos públicos e, na medida em que se omite, negligencia ou tolera certas condutas, deve assumir a responsabilidade e as consequências. Em outras palavras, a questão das drogas é um problema social e não exclusivamente caso de polícia, espiritualidade, medicina ou assistência social.